Os fitonematoides, de forma geral, são vermes filiformes microscópicos pertencentes ao filo Nematoda, amplamente distribuídos nos ecossistemas terrestres e aquáticos. No ambiente agrícola, uma parcela desses organismos é composta por nematoides fitopatogênicos, que parasitam raízes, caules ou outras partes vegetais, comprometendo o desenvolvimento das plantas e reduzindo a produtividade das culturas. Devido à sua ampla distribuição, alta capacidade reprodutiva e dificuldade de controle, os nematoides figuram entre os principais patógenos de importância agrícola no mundo.

No contexto global, estimativas mais recentes indicam que os nematoides fitopatogênicos são responsáveis por perdas anuais entre 125 e 173 bilhões de dólares na agricultura mundial, afetando diferentes culturas de interesse econômico (EMBRAPA, 2018; DIAS et al., 2016). Estimativas indicam que as perdas causadas por nematoides na agricultura brasileira ultrapassam R$ 35 bilhões por ano, considerando redução de produtividade e impactos indiretos no sistema produtivo (EMBRAPA, 2018; DIAS et al., 2016). Essas perdas estão associadas não apenas à redução direta da produtividade, mas também ao aumento dos custos de produção, decorrentes da adoção de medidas de manejo e da redução da eficiência no uso de insumos como água e fertilizantes (ABAD et al., 2008; COYNE et al., 2018; JONES et al., 2013; SÁNCHEZ-MOLINA et al., 2022).

No Brasil, país com clima predominantemente tropical e subtropical, as condições edafoclimáticas favorecem a sobrevivência e multiplicação dos nematoides ao longo do ano. Culturas como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar, arroz, feijão e diversas hortaliças e frutíferas são severamente impactadas por diferentes espécies, destacando-se aquelas dos gêneros Meloidogyne, Pratylenchus, Heterodera e Rotylenchulus (EMBRAPA, 2018; DIAS et al., 2016).

Entre os principais sintomas ocasionados por fitonematoides estão aqueles relacionados à formação de galhas, lesões necróticas radiculares, acompanhados de alterações fisiológicas nas plantas (FERRAZ; BROWN, 2016) (Figura 1a). Essas alterações comprometem a absorção de água e nutrientes, tornando as culturas mais suscetíveis a estresses abióticos e à infecção por outros patógenos que colonizam o solo. Além disso, os sintomas na parte aérea frequentemente são inespecíficos, incluindo amarelecimento (Figura 1b, 1c), murcha e crescimento desuniforme, o que dificulta o diagnóstico a campo e pode resultar em decisões de manejo inadequadas (FERRAZ; BROWN, 2016).

Figura 1. Sintomas causados por Meloidogyne javanica na cultura da soja.
A: Raízes apresentando galhas radiculares induzidas pelo nematoide; B: reboleira de plantas com desenvolvimento reduzido em decorrência do parasitismo; C: sintomas de amarelecimento e clorose foliar, associados à desuniformidade no fechamento das linhas de cultivo.

Diante da magnitude dos impactos econômicos e da complexidade do patossistema solo–planta–nematoide, o manejo desses organismos deve ser fundamentado em informações técnicas precisas. Nesse contexto, a amostragem e a correta identificação das espécies de nematoides presentes na área constituem etapas fundamentais para a definição de estratégias de manejo eficientes, permitindo a adoção de medidas direcionadas, economicamente viáveis e sustentáveis.

Os nematoides fitopatogênicos constituem um grupo altamente diverso sob os pontos de vista taxonômico, biológico e ecológico. Diferentes gêneros e espécies apresentam variações quanto ao comportamento parasitário, ciclos de vida e gama de hospedeiros, o que influencia diretamente na eficiência das medidas de manejo a serem adotadas. Nesse sentido, Ferraz e Brown (2016) destacam que o conhecimento da composição da comunidade de nematoides presentes na área é fundamental para o direcionamento adequado das práticas de manejo.

A variabilidade entre os fitonematoides pode ser observada, inicialmente, pela forma como esses organismos interagem com o sistema radicular das plantas. A Figura 2 ilustra diferentes tipos de parasitismo em raízes, mostrando nematoides que permanecem externamente à raiz e se alimentam por meio do estilete, caracterizando o hábito ectoparasita; nematoides que penetram parcialmente nos tecidos, caracterizando o hábito semi-endoparasita; e nematoides que penetram completamente nas raízes, podendo se deslocar pelos tecidos ou estabelecer sítios permanentes de alimentação. Essas diferenças no posicionamento do nematoide em relação à raiz influenciam diretamente o tipo de dano causado, o tecido afetado e a resposta da planta ao parasitismo (FERRAZ; BROWN, 2016).

No caso dos endoparasitas migradores, como espécies do gênero Pratylenchus, o nematoide se desloca no interior dos tecidos radiculares, causando lesões e destruição celular ao longo do processo de alimentação. Já os endoparasitas sedentários, como Meloidogyne spp., estabelecem sítios especializados de alimentação e induzem alterações celulares que resultam na formação de galhas, comprometendo a funcionalidade do sistema radicular (FERRAZ, 2001; DIAS et al., 2010). Dessa forma, a figura 2 demonstra que os fitonematoides não diferem apenas pela espécie, mas também pelo modo de parasitismo e pela forma como exploram os tecidos da planta hospedeira.

Essas diferenças ajudam a explicar por que espécies distintas podem apresentar variações na agressividade, no potencial de dano e na resposta às estratégias de manejo. Mesmo dentro de um mesmo gênero, espécies como Pratylenchus brachyurus, P. zeae e P. penetrans podem diferir quanto à adaptação climática, patogenicidade, virulência e importância econômica, evidenciando a limitação de estratégias generalistas de manejo (FERRAZ; BROWN, 2016; DIAS et al., 2016).

Figura 2. Ilustração esquemática de fitonematoides atacando a raiz da planta.
Nematoides presentes na imagem, onde: 1. Cephalenchus; 2. Tylenchorhynchus; 3. Belonolaimus; 4. Rotylenchus; 5. Hoplolaimus; 6. Helicotylenchus; 7. Verutus; 8. Rotylenchulus; 9. Acontylus; 10. Meloidodera; 11. Meloidogyne; 12. Heterodera; 13. Hemicycliophora; 14. Criconemoides; 15. Paratylenchus; 16. Trophotylenchulus; 17. Tylenchulus; 18. Sphaeronema; 19. Pratylenchus; 20. Hirschmanniella; 21. Nacobbus (de M. R. Siddiqi). Fonte: Ferraz; Brown (2016).

Um dos exemplos mais emblemáticos da importância da caracterização intraespecífico ocorre com o nematoide de cisto da soja, Heterodera glycines. Esse patógeno apresenta elevada variabilidade genética, expressa na forma de raças ou tipos fisiológicos que diferem quanto à capacidade de parasitar cultivares consideradas resistentes (NIBLACK et al., 2002; SCHMITT; SHANNON, 1992). Segundo esses mesmos autores, a identificação da espécie isoladamente não é suficiente para orientar o manejo, sendo necessário o conhecimento da raça ou do tipo populacional presente na área.
Historicamente, Heterodera glycines foi classificado em raças com base na capacidade de reprodução em um conjunto de cultivares diferenciadoras. Posteriormente, esse sistema evoluiu para o conceito de tipos HG, que permite caracterizar com maior precisão a virulência das populações frente às fontes de resistência disponíveis (NIBLACK et al., 2002). Essa classificação é importante porque populações distintas de H. glycines podem apresentar diferentes níveis de reprodução em cultivares resistentes, fazendo com que uma cultivar eficiente em determinada área não apresente o mesmo desempenho em outra.

A distribuição das raças no Brasil evidencia a elevada variabilidade populacional de H. glycines e reforça a necessidade de monitoramento local antes da escolha de cultivares resistentes. Na tabela 1 se observa que alguns estados apresentam maior diversidade de raças relatadas, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, onde ocorre ampla variação de populações. Essa diversidade indica maior complexidade para o manejo, pois diferentes raças podem apresentar respostas distintas às fontes de resistência utilizadas na cultura da soja. Por outro lado, a presença de uma mesma raça em diferentes estados, como a raça 3, relatada em Bahia, Goiás, Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, demonstra que determinadas populações apresentam ampla distribuição geográfica.

Dessa forma, a tabela 1 não deve ser interpretada apenas como um levantamento de ocorrência, mas como um indicativo da variabilidade espacial do nematoide e do risco de adoção generalizada de uma única fonte de resistência. Em regiões com maior diversidade de raças, o uso contínuo de cultivares resistentes sem rotação de fontes de resistência e sem monitoramento populacional pode favorecer a seleção de populações virulentas. Esse processo ajuda a explicar os frequentes relatos de perda de eficiência de cultivares resistentes em áreas cultivadas sucessivamente com os mesmos genótipos, especialmente quando o manejo não considera a raça ou o tipo HG predominante na área.

Tabela 1. Distribuição de raças de Heterodera glycines no Brasil.
Fonte: Adaptado de Dias et al. (2009). Nota: O sinal “+” indica que a população do H. glycines, além de apresentar o padrão da raça correspondente, é capaz de vencer a resistência da cultivar ‘Hartwig’. Dessa forma, as raças 4+ e 14+ diferem das raças 4 e 14 clássicas pela habilidade de parasitar ‘Hartwig’ (DIAS et al., 2009).

Ferraz e Brown (2016) destacam que populações distintas de H. glycines podem coexistir em uma mesma região ou até mesmo em uma mesma propriedade, apresentando respostas contrastantes às mesmas cultivares e estratégias de manejo. Dessa forma, a escolha de cultivares resistentes sem o conhecimento prévio da raça ou do Tipo HG pode resultar em falhas no controle e favorecer o aumento populacional do nematoide ao longo das safras.

A variabilidade intraespecífica também influencia a eficiência de outras estratégias de manejo, incluindo rotação de culturas, o uso de plantas não hospedeiras, o controle biológico e químico. Algumas raças de H. glycines podem apresentar maior capacidade de sobrevivência no solo ou adaptação diferencial a plantas de cobertura, reforçando a necessidade do monitoramento populacional e da diagnose precisa (DIAS et al., 2016; EMBRAPA, 2018).

Nesse contexto, o manejo racional de nematoides depende não apenas da correta identificação do gênero e da espécie, mas também, em situações específicas, da caracterização populacional do patógeno. Assim, a amostragem adequada e a identificação detalhada constituem ferramentas fundamentais para subsidiar decisões mais eficientes, sustentáveis e economicamente viáveis.



Referências:

ABAD, P. et al. Plant parasitic nematodes in molecular plant pathology. Molecular Plant Pathology, v. 9, n. 4, p. 429–444, 2008.

COYNE, D. L.; CORTADA, L.; DALZELL, J. J.; CLAUDIUS-COLE, A. O.; HAKEEM, A.; TALWANA, H. Plant-parasitic nematodes and food security in sub-Saharan Africa. Annual Review of Phytopathology, v. 56, p. 381–403, 2018.

DIAS, W. P.; SILVA, J. F. V.; CARNEIRO, G. E. S.; GARCIA, A.; ARIAS, C. A. A. Nematoide de cisto da soja: biologia e manejo pelo uso da resistência genética. Londrina: Embrapa Soja, 2009.

DIAS, W. P.; GARCIA, A.; SILVA, J. F. V.; CARNEIRO, G. E. S. Nematoides em soja: identificação, danos e manejo. Londrina: Embrapa Soja, 2016.

EMBRAPA. Nematoides: problemas crescentes na agricultura brasileira. Brasília: Embrapa, 2018.

FERRAZ, L. C. C. B.; BROWN, D. J. F. Nematologia de plantas: fundamentos e importância. Viçosa: Sociedade Brasileira de Nematologia, 2016.

JONES, J. T. et al. Top 10 plant-parasitic nematodes in molecular plant pathology. Molecular Plant Pathology, v. 14, n. 9, p. 946–961, 2013.

NIBLACK, T. L.; ARELLANO, C.; NOEL, G. R.; OPPERMAN, C. H.; ORF, J. H.; SCHMITT, D. P.; SHANNON, J. G.; TYLKA, G. L. A revised classification scheme for genetically diverse populations of Heterodera glycines. Journal of Nematology, v. 34, n. 4, p. 279–288, 2002.

SÁNCHEZ-MOLINA, J. A. et al. Economic and agricultural impact of plant-parasitic nematodes: a global review. Plants, v. 11, n. 19, 2022.

SCHMITT, D. P.; SHANNON, J. G. Differentiating Heterodera glycines races using resistant soybean cultivars. Crop Science, v. 32, p. 275–277, 1992.

Foto de capa: Cristiano Bellé

Autores:

Kauê da Cunha Beier

Acadêmico do 8º semestre do curso de Agronomia

Universidade Federal de Santa Maria

Bolsista do grupo PET Agronomia

E-mail: kauecunhabeier@gmail.com

Coautores:
Fábio Joel Kochem Mallmann

Jansen Rodrigo Pereira Santos

João Francisco Fornari Viana

Amanda Guzzo Marim

 

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