Na safrinha desse ano (2019), sojicultores gaúchos têm constatado a crescente presença de uma nova e silenciosa praga: a mosca-da-haste da soja, Melanagromyza sojae. Praga de caráter outonal, a mosca-da-haste aumenta sua ocorrência (possivelmente seja estimulada a reproduzir-se quando a duração dos dias (fotoperíodo) começa a “encurtar”); assim, embora sua ocorrência nos cultivos de safra seja esporádica e pouco impactante, o cultivo de soja safrinha proporciona a oferta ideal de alimento para sustentar explosões populacionais de mosca-da-haste, com alto potencial de dano econômico à cultura.

As regiões Noroeste e Missões do Rio Grande do Sul, onde tradicionalmente cultiva-se a soja safrinha após a colheita do milho (sucessão possível graças à proximidade com o Rio Uruguai, que reduz a possibilidade de ocorrência de geadas tardias e possibilita a semeadura precoce do milho), têm sido particularmente afetadas pela mosca-da-haste. Como a injúria é visualmente pouco perceptível, altas infestações muitas vezes passam completamente desapercebidas aos olhos do produtor, que atribui a murcha e senecência de folhas a condições de estresse hídrico, e o aceleramento da maturação às DFCs (doenças de final de ciclo). Embora os sintomas sejam semelhantes, tais aspectos (murcha de folíolos – Figura 1, e aceleramento do ciclo) representam típicas respostas fisiológicas da planta de soja ao ataque de M. sojae (especialmente quando em altas infestações), sendo indícios de sua ocorrência.

Figura 1. Trifólios murchos em decorrência do ataque de mosca-da-haste da soja. Créditos da foto: Lucas Vitorio.

Em termos de hábito comportamental, a fêmea da mosca-da-haste deposita seus ovos no interior das folhas (mesófilo – Figura 2) da planta de soja, preferencialmente dos unifólios (estágio fenológico V1), mas não restritas a estes. Ao eclodirem, as larvas adentram a nervura principal do limbo foliar, migrando pelo interior do pecíolo até atingirem a haste principal. As galerias abertas pela larva na haste (“broqueamento”, Figura 3) em virtude da sua alimentação constituem a injúria característica da praga, estendendo-se da base da planta até o terceiro ou quarto nós, e identificáveis por meio de uma corte longitudinal do caule com o auxílio de um canivete.

Figura 2. Fêmea de M. sojae no momento da oviposição endodérmica. Créditos da foto: Lucas Vitorio.
Figura 3. Haste broqueada com coloração avermelhada, exibindo pupa e furo de saída do adulto. Créditos da foto: Lucas Vitorio.

Externamente, a planta manifesta um encurtamento dos entrenós, acompanhado por emissão excessiva de ramos laterais; outro aspecto visual de fácil identificação é a presença de um pequeno furo no caule, o qual é feito pela larva antes de entrar na fase de pupa e utilizado pelo adulto para abandonar a planta, quando completa seu ciclo. A duração total do ciclo de M. sojae gira em torno de 30 dias (variando de acordo com a temperatura), possibilitando a ocorrência de mais de uma geração no mesmo ciclo da soja, mesmo na soja safrinha (que apresenta um ciclo reduzido). Em condições de alta infestação, a ocorrência de mais de um indivíduo por planta é comum, inclusive de diferentes ínstares (fases de vida). Em países de ocorrência típica (ex: Irã), a mosca-da-haste apresenta de quatro a cinco gerações por ano, podendo passar o inverno no interior de hastes mortas (ZIAEE, 2012).



No município de Tenente Portela (região Noroeste do estado), o produtor e consultor Alessandro Braucks (Figura 4) relata uma ocorrência alarmante de mosca-da-haste em cerca de 5 mil hectares cultivados com soja safrinha em 2019, com incidência de ataque superior a 70% em determinadas áreas. Em Palmeira das Missões, também na região Noroeste, o produtor José Binsfeld estima que 80% das plantas de soja em uma área de 300 hectares, irrigados por pivô, estejam infestadas pela praga (Figura 5).

Figura 4. Produtor e consultor Alessandro Braucks e Prof. Jonas Arnemann – UFSM, em lavoura de soja infestada por mosca-da-haste, Tenente Portela–RS, em 31 de março de 2019.

Ambos os produtores utilizaram a mesma cultivar (TMG 7062 IPRO) e um manejo químico robusto voltado ao controle de outros insetos-praga, o qual, aparentemente, não apresentou efeito de controle sobre a mosca-da-haste. Embora os índices pluviométricos favoráveis e a irrigação por pivô atenuem os danos fisiológicos decorrentes do broqueamento da haste, os altos níveis de infestação observados em ambas as áreas já ocasionam a murcha de folhas e certamente resultarão em aceleramento do ciclo, com conseqüente redução da produtividade final de grãos. Em países do leste asiático, onde o ataque por M. sojae é recorrente, a conjunção déficit hídrico + nutrição inadequada + população infestante elevada resultam em reduções de até 50% na produtividade de grãos de soja (SAVAJJI, 2006; JADHAV, 2011; YADAV et al., 2015).

O hábito larval da mosca-da-haste de se desenvolver e se alimentar no interior do caule praticamente impossibilita seu controle por meio de aplicações em parte aérea, embora efeitos positivos possam ser obtidos com inseticidas dotados de capacidade de penetração (ex: clorpirifós) e/ou translocação interna na planta (ex: imidacloprido, tiametoxam, entre

Figura 5. Produtor José Binsfeld e Prof. Jonas Arnemann – UFSM, em lavoura de soja infestada por mosca-da-haste, Palmeira das Missões–RS, em 31 de março de 2019.

outros). De modo geral, os melhores resultados de controle são obtidos por meio de tratamento de sementes (clorantraniloprole, imidacloprido, tiametoxam ou fipronil), visando a proteção de planta contra a penetração da larva nos estágios iniciais de desenvolvimento, aliado a uma ou duas aplicações em parte aérea em um intervalo de no máximo 10 dias após a emergência (clorpirifós, tiametoxam + lambda-cialotrina, tiodicarbe, bifentrina ou imidacloprido + beta-ciflutrina), visando principalmente o controle dos adultos e a prevenção de novas oviposições (CURIOLETTI et al., 2018).

As estratégias devem ser repensadas acerca do cultivo de soja safrinha no Rio Grande do Sul (atualmente o único estado brasileiro que não tem vazio sanitário obrigatório), o qual proporciona um refúgio e uma ponte verde para pragas e doenças, de ocorrência cada vez mais preocupante.

Elaboração: Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Henrique Pozebon, do Molecular Insect Lab – UFSM.

Colaboração: Alessandro Braucks, Lucas Vitório e José Binsfeld.

Referências

CURIOLETTI, L.E.; ARNEMANN, J.A.; MURARO, D.S.; MELO, A.A.; PERINI, C.R.; CAVALLIN, L.A.; GUEDES, J.V.C. First insights ofsoybeanstemfly (SSF) Melanagromyzasojaecontrol in South America. Australian Journal of Crop Science, v. 12, p. 841- 848, 2018.

JADHAV, S. Bio-ecology and management of stem fly, Melanagromyzasojae (Zehntner) (Agromyzidae: Diptera) in soybean ecosystem. Doctoral dissertation, UAS, Dharwad, 2011.

SAVAJJI, K. Biology and management of soybean stem fly Melanagromyzasojae(Zehntner) (Diptera: Agromyzidae).University of Agricultural Sciences, Master of Science thesis, 58 pp, 2006.

YADAV, P.; BANERJEE, S.; GUPTA, M. P.; YADAV, V. K. Effect of weather factors on seasonal incidence of insect-pests of soybean. Technofame: A Journal of Multidisciplinary Advance Research, v. 4, p. 46-51, 2015.

ZIAEE, M. Oilseed Pests, Oilseeds. 2012. Disponívelem:  http://www.intechopen.com/books/oilseeds/oilseed-pests. Acesso em: 12 de junho de 2018.

Foto de capa: Lucas Vitorio

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