Produzir soja em quantidade e qualidade satisfatórios é uma tarefa extremamente difícil e complexa, principalmente se tratando da produção de sementes. Além de fatores climáticos, pragas e doenças podem causar perdas significativas da qualidade e quantidade da soja produzida.
Visando reduzir a perda qualitativa e quantitativa ocasionada por pragas e doenças, o manejo fitossanitário eficiente da soja é de suma importância para o sucesso produtivo. Na produção de sementes, é esperado que o produto final possua boa qualidade genética, sanitária, física e fisiológica. Pragas e doenças que acometem a cultura da soja podem reduzir a qualidade das sementes, afetando principalmente a qualidade fisiológica e sanitária. Dentre os principais atributos fisiológicos de uma semente, germinação e vigor são os mais visados e trabalhados.
No que diz respeito a pragas, os percevejos podem ser considerados uns dos principais agentes redutores da qualidade fisiológica da soja. Embora a capacidade dessas pragas em causar danos à cultura esteja condicionada ao momento de ocorrência dos percevejos na lavoura, quando populações de percevejo acometem a cultura durante o período crítico (formação e enchimento de grãos), danos significativos podem ser observados, variando desde redução da produtividade, até perda de qualidade fisiológica das sementes.
Figura 1. Período Crítico de ocorrência de percevejo em soja.

Dentre as principais espécies que acometem a cultura da soja, podemos destacar os percevejos Euschistus heros; Nezara viridula e o Piezodorus guildinii. Embora possa haver variação entre o ciclo de desenvolvimento desses percevejos, conhecer seus parâmetros biológicos pode auxiliar no posicionamento de práticas de manejo visando o controle eficiente dessas pragas.
Tabela 1. Parâmetros biológicos das principais espécies de percevejos que ocorrem em soja.

Quando os percevejos picam as vagens e as sementes de soja, eles as inoculam com a levedura Nematospora coryli Peglion, além de injetarem diversas enzimas salivares, para a pré-digestão dos materiais de reserva das sementes. A colonização dos tecidos da semente por essa levedura e a digestão dos tecidos das sementes pelas suas enzimas salivares, resulta em necroses dos cotilédones e dos eixos embrionários (França-Neto et al., 2016).
Como principal consequência, tem-se o surgimento de lesões nas sementes e perda da qualidade fisiológica, reduzindo atributos como germinação e vigor. Com o auxílio do teste de tetrazólio é possível observar visualmente as lesões causadas pela punctura dos percevejos nas sementes de soja.
Figura 1. Sementes de soja com danos causados por picada de percevejo: à esquerda, sementes secas com danos típicos mostrando manchas de Nematospora coryli; à direita, sementes com danos de percevejo coloridas pelo sal de tetrazólio (França-Neto et al., 2016).

Dentre as principais espécies de percevejo que acometem a cultura da soja, uma das com maior potencial em causar danos é o Piezodorus guildinii, popularmente conhecido como percevejo verde-pequeno. Conforme observado por Panizzi; Bueno; Silva (2012), o percevejo verde-pequeno é o que apresenta maior capacidade em causar danos em profundidade na semente de soja, podendo o dano causado pela praga alcançar até 2 mm (Tabela 2).
Tabela 2. . Profundidade média (± EP) do dano em sementes de soja causado pela alimentação de quatro espécies de pentatomídeos, após uma sessão de alimentação de 60 minutos (número inicial de insetos = 250). Entre parênteses, número de insetos observados (Panizzi; Bueno; Silva., 2012).

Caso não sejam manejados e controlados corretamente, os percevejos podem causar danos significativos na cultura da soja, podendo inclusive inviabilizar a produção de sementes. Dentre as principais espécies, o percevejo verde-pequeno é uma das que apresenta maior capacidade em causar danos, tornando necessário o monitoramento e controle desse e dos demais percevejos que acometem a cultura da soja para evitar perdas de ordem quantitativa e qualitativa das sementes.
Veja também: Percevejo-verde-pequeno – pequeno ou grande inimigo?
Referências:
CORRÊA-FERREIRA, B.; PANIZZI, A. R. PERCEVEJOS DA SOJA E SEU MANEJO. Embrapa, Circular Técnica, n. 24, 1999. Disponível em: < https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Repositorio/circTec24_000g4vbbaaq02wx5ok0dkla0s1m9l51b.pdf >, acesso em: 19/10/2021.
FRANÇA-NETO, J. B. et al. TECNOLOGIA DA PRODUÇÃO DE SEMENTE DE SOJA DE ALTA QUALIDADE. Embrapa, Documentos, n. 380, 2016. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/151223/1/Documentos-380-OL1.pdf >, acesso em: 19/10/2021.
PANIZZI, A. R.; BUENO, A. F.; SILVA, F. A. C. INSETOS QUE ATACAM VAGENS E GRÃOS. Soja – Manejo Integrado de Insetos e Outros Artrópodes-Praga, cap. 5, 2012. Disponível em: < http://www.cnpso.embrapa.br/artropodes/Capitulo5.pdf >, acesso em: 19/10/2021.
SARAN, P. E. MANUAL DE IDENTIFICAÇÃO DE PERCEVEJOS DA SOJA. FMC, 2008. Disponível em: < http://www.ccpran.com.br/upload/downloads/dow_4.pdf >, acesso em: 19/10/2021.