Com o aumento de cultivo da soja transgênica contendo a tecnologia Bt (Bacillus thuringiensis), os produtores têm se preocupado cada vez menos com as lagartas e mais com a incidência dos percevejos nas suas lavouras. O uso da tecnologia Bt tem como principais alvos as lagartas desfolhadoras, mas não os percevejos tendo, assim, maior incidência desses insetos sugadores. Além disso, verifica-se a adaptação de percevejos a culturas que antes não eram hospedeiras frequentes e aumento da sua ocorrência de forma geral, tanto nos períodos de safra quanto na entressafra.

Os percevejos que atacam a cultura da soja são um grande problema para agricultura como um todo, visto que possuem alta capacidade de dispersão e infestam um grande número de espécies de plantas, facilitando sua propagação. Somado a isso, esses insetos podem sobreviver por um longo período de tempo em condições desfavoráveis, se dispersando para hospedeiros alternativos como plantas daninhas (Figura 1) e permanecendo até mesmo nos restos culturais de entressafra: nessas condições, podem entrar em um período de inatividade (diapausa), até que encontrem condições ambientais favoráveis novamente.

Figura 1. Planta daninha trapoeraba servindo de alimento e proteção ao percevejo barriga-verde (destacado no canto esquerdo da imagem).

Fonte: Rodolfo Bianco. Imagem original Disponível aqui

De acordo com Alves (2019), a partir da colheita de soja os percevejos remanescentes completam a dispersão para as plantas hospedeiras alternativas, bordas de mato e posteriormente passam para períodos de diapausa. Segundo Mourão & Panizzi (2000), o percevejo marrom (Euschistus heros) entra em hibernação no período de entressafra, permanecendo sete meses sem se alimentar e protegido de predadores e dos parasitoides. No entanto, o adulto de percevejo barriga-verde (Dichelops sp.) pode voar curtas distâncias ou até quilômetros para encontrar um hospedeiro adequado, sendo encontrado também no milho e trigo (Gassen, 2002).

Já o percevejo verde (Nezara viridula) é a espécie mais polífaga do complexo, ou seja, se alimenta de inúmeras espécies de plantas, tendo capacidade de se reproduzir na entressafra (Panizzi, 1997). Desse modo, esse percevejo pode gerar graves perdas no inverno ao atacar a cultura do trigo durante a fase do emborrachamento, ocasionando o branqueamento da espiga ou de parte dela (Gassen, 2005). Por outro lado, o percevejo verde-pequeno (Piezodorus guildinii) se alimenta de um menor número de plantas no período de entressafra em comparação a N. viridula, estando geralmente associado a espécies arbustivas e herbáceas (Panizzi, 1997).

Ademais, o percevejo verde e o percevejo barriga-verde (Figura 2) são duas espécies que ocorrem tanto na soja quanto no trigo, sendo consideradas pragas de sistema. Além desses, as espécies mais comumente encontradas em trigo são o percevejo-do-trigo, o percevejo-raspador e o percevejo-do-capim ou periquito (Pereira et al., 2010).

Figura 2. Percevejo verde adulto (Nezara viridula) à esquerda e percevejo barriga-verde adulto (Dichelops sp.) à direita.

Fonte: Adaptado de Promip. Imagem original Disponível aqui.

Nesse contexto, o monitoramento deve ser realizado ainda no intervalo entre a colheita da soja e a implantação da próxima cultura, visto que os percevejos podem ficar escondidos na palhada e abrigados em plantas hospedeiras. Pensando em um sistema de soja com posterior cultivo de trigo, a recomendação técnica, além do controle químico antecipado dos percevejos durante a safra de soja, é a eliminação de hospedeiros alternativos da área, como as plantas daninhas capim-carrapicho, capim-amargoso e trapoeraba. Ademais, a utilização de um tratamento robusto de sementes e aplicação de inseticidas em parte aérea são ferramentas importantes de manejo.

Somado a isso, é possível adicionar um inseticida à calda de pulverização destinada à dessecação na pré-semeadura do trigo, visando obter o controle desses percevejos que possam atacar a cultura de inverno. Sendo assim, o nível de infestação antes do plantio deve ser observado e, com a identificação dos focos de percevejos na resteva da soja, o uso de produtos de amplo espectro e de contato se torna uma alternativa interessante para reduzir a população inicial dessa praga com menor custo.

Portanto, o manejo do complexo de percevejos necessita de uma visão ampla, visto que possui espécies consideradas pragas de sistema que podem ocasionar prejuízos ao longo de todo o ano agrícola. Desse modo, é necessário monitorar e realizar o manejo integrado de pragas (MIP) visando reduzir as populações remanescentes de percevejos após a colheita da soja, evitando assim que interfiram nas culturas produtivas subsequentes.

Revisão: Henrique Pozebon, Mestrando PPGAgro  e Prof. Jonas Arnemann, PhD. e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM

REFERÊNCIAS:

Alves E. B. Percevejos na soja. Promip. novembro 8, 2019. Disponível em https://www.promip.agr.br/percevejos-da-soja/#:~:text=AS%20ESP%C3%89CIES%20MAIS%20IMPORTANTES,o%20marrom%20(Euschistus%20heros).

Gassen D. N. Principais pragas nas culturas do trigo, cevada e aveia. Revista Plantio Direto. 2005

Gassen D. N. Recomendaçoes para manejo e controle de percevejos. Revista Plantio Direto, n. 67, p 24-25, jan/fev 2002.

Mourão A. P. M.; Panizzi A. R. Diapausa e diferentes formas sazonais em Euschistos heros (Fabr.) (Hemiptera: Pentatomidae) no norte do Paraná. Anais da Sociedade Entomológica do Brasil, v.29, n.2, p 205-218, 2000.

Pereira P. R. V. da S.; Salvadori J. R.; Lau D. Trigo: manejo integrado de pragas. Embrapa Trigo. 2010. Disponível em https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/887068/trigo-manejo-integrado-de-pragas

Panizzi A. R. Wild host of pentatomids: ecological significance and role in their pest status on crops. Annual Review of Entomology, v. 42, p. 99-122, 1997.

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