A revisão tem como objetivo apresentar as principais consequências da RMP para as culturas agrícolas através de apresentações e análises dos resultados de pesquisas que foram desenvolvidos em torno deste tema.

Autores: Luane Laíse Oliveira Ribeiro¹; Letícia do Socorro Cunha²

Introdução

A Resistência Mecânica do Solo a Penetração das Raízes (RMP) é um indicador que descreve a resistência física que o solo exerce sobre a raiz que tenta se mover através dele, sendo diretamente influenciado pela densidade, porosidade e, principalmente, pela umidade do solo no momento da avaliação (Mazura et al., 2013). A RMP caracteriza-se como um dos principais indicadores para o diagnóstico e avaliação da compactação do solo. A compactação é atualmente um dos problemas de maior relevância em diversas regiões do Brasil, onde a mesma acaba prejudicando o crescimento radicular e afetando o desenvolvimento da planta (Bonfim-Silva et al., 2011). Oliveira et al. (2014) relatou que diferentes práticas de manejo, tais como cultivo convencional intensivo (utilizando aração e gradagem) podem resultar na compactação de camadas profundas do solo, alterando a infiltração e o escoamento das águas, podendo ocasionar erosão do solo.

Para auxiliar o manejo dessas áreas compactadas, pesquisas tem tentado determinar níveis críticos das propriedades físicas do solo para o adequado desenvolvimento das plantas, utilizando-se principalmente a RMP (Valadão et al., 2015). Os níveis críticos de resistência do solo à penetração para o crescimento das plantas variam com o tipo de solo e com a espécie cultivada. Neste sentido, torna-se necessário realizar uma abordagem a cerca desta temática, visando obter maiores informações que possam auxiliar os produtores rurais sobre os principais efeitos que esta propriedade pode causar no desenvolvimento das culturas agrícolas, para que assim, possa ser utilizado técnicas mais eficientes e sustentáveis de uso e manejo do solo, que venham minimizar os efeitos adversos da compactação e favorecer a melhoria do sistema solo-planta, contribuindo com o aumento da produtividade das culturas comerciais. Com isso, a revisão tem como objetivo apresentar as principais consequências da RMP para as culturas agrícolas através de apresentações e análises dos resultados de pesquisas que foram desenvolvidos em torno deste tema.

Consequências da RMP para as culturas agrícolas

No período inicial de desenvolvimento das culturas, que compreende a fase de emergência e estabelecimento de plantas, estas são extremamente suscetíveis a camadas compactadas, pois o estabelecimento de raízes e o desenvolvimento da parte aérea estão relacionados a ocorrência ou não de restrições físicas no solo. De acordo com Freddi et al. (2006a), a resistência mecânica do solo à penetração exerce grande influência sobre o desenvolvimento vegetal, afetando principalmente as raízes e consequentemente a produtividade das culturas. Silva et al. (2002) constataram que 2,0 MPa de resistência à penetração do solo foi condição restritiva ao crescimento das raízes e à parte aérea da soja. Outro estudo que demostra o efeito do aumento da RMP na raiz das plantas foi o desenvolvido por Valadão et al. (2015) que avaliou diferentes doses e formas de aplicação da adubação fosfatada e o efeito da compactação do solo pelo tráfego de máquinas nos atributos físicos e no sistema radicular da soja e milho nas condições da Chapada dos Parecis, Mato Grosso/Brasil. O tráfego do trator alterou a área do sistema radicular da soja, bem como a distribuição no perfil do solo (Figura 1).

Figura 1. Distribuição das raízes da soja até 0,30 m de profundidade do solo, em decorrência de zero (PT0), duas (PT2), quatro (PT4) e oito (PT8) passadas de trator. Fonte: Valadão, 2015.

Em PT8 (Ds = 1,30 kg dm-3 e RSP de 0,80 MPa), houve redução de 23 % da área de raiz na camada de 0,00-0,05 m em comparação com PT0 (Ds = 1,09 kg dm-3 e RSP = 0,35 MPa). A compactação aumentou o diâmetro das raízes de soja, sendo 122,59 % maior no sistema PT8, em relação a PT0. Pela análise do perfil do solo no momento da abertura da trincheira, foi possível observar deformação do sistema radicular com característico engrossamento das raízes secundárias a ponto de não ser possível a identificação da raiz principal, alterando de forma significativa o diâmetro médio. Provavelmente, o impedimento mecânico causado pelo aumento da compactação afetou o desenvolvimento radicular por causa da redução da divisão celular meristemática, tornando as raízes menos pontiagudas e, consequentemente, provocando maior engrossamento destas, que por sua vez acaba enovelando e se concentrando em uma parte específica do perfil do solo, comprometendo assim seu crescimento e a utilização de seu máximo potencial de exploração e absorção.

Além do comprometimento do sistema radicular das plantas, o aumento da RMP pode influir diretamente a produtividade das culturas agrícolas. Freddi et al. (2009b) avaliando os efeitos da compactação do solo, proporcionada pelo tráfego de tratores, e da variação de seu conteúdo de água sobre determinadas propriedades físicas de um Latossolo Vermelho de textura argilosa e associá-las ao sistema radicular e à produtividade de milho, estabeleceram a equação de regressão linear entre a RMP e a produtividade de grãos da cultura do milho no qual concluíram que com o aumento da RMP, a partir do tratamento T0 (0,32 MPa) até o T4 (1,83 MPa), houve redução de 27% na produtividade de milho. Portanto, verifica- se que o aumento da compactação do solo proporcionou modificações no sistema radicular, ocasionando redução da produtividade. Esses valores são próximos aos encontrados por Junior et al. (2016), no qual verificaram que o aumento dos valores de RMP, a partir de 1,53 MPa, reduziu linearmente a produtividade da cultura do milho em 15; 20 e 22%, quando comparado os tratamentos analisados.

Considerações finais

Por meio dessa revisão, pode-se perceber a grande limitação que a RMP exerce nas áreas agrícolas, sendo um fator que afeta diretamente o desenvolvimento radicular e outros aspectos fitotécnicos, que podem vir a comprometer a produção das culturas. Portanto, conhecer os limites críticos de RMP bem como os fatores que podem influenciar o aumento desta propriedade torna-se necessário para que se possa criar um plano de manejo do solo que seja viável e mais sustentável para o sistema agrícola, e que esse favoreça o crescimento das plantas, afim de maximizar a produção e assim, obter ganhos em produtividade das culturas.


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Referências

BONFIM-SILVA, E. M. et al. Compactação do solo na cultura do trigo em Latossolo do Cerrado. Enciclopédia Biosfera, Goiânia-GO, 7(12):1-8, 2011.

FREDDI, O. S. et al. Compactação de um Latossolo Vermelho de textura argilosa afetando o
sistema radicular e a produtividade do milho. Revista Ceres, Viçosa-MG, 56(5):654-665, 2009.

FREDDI, O. S. et al. Produtividade do milho relacionada com a resistência mecânica à penetração do solo sob preparo convencional. Engenharia Agrícola, Jaboticabal, 26:113-121, 2006.

JUNIOR, M.A.D. et al. Influência de implementos de preparo e de níveis de compactação sobre atributos físicos do solo e aspectos agronômicos da cultura do milho. Revista Brasileira de Engenharia Agrícola, Jaboticabal-SP, 36(2):367-376, 2016.

MAZURA, M. et al. Propriedades físicas do solo e crescimento de raízes de milho em um Argissolo Vermelho sob tráfego controlado de máquinas. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa-MG, 37(5):1185-1195, 2013.

OLIVEIRA, A. P. P. de. et al. Sistemas de colheita da cana-de-açúcar: Conhecimento atual sobre modificações em atributos de solos de tabuleiro. Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, Campina Grande PB.18(9): 939–947, 2014.

VALADÃO, F. C. A. et al. Adubação fosfatada e compactação do solo: sistema radicular da soja e do milho e atributos físicos do solo. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa-MG, 39:243-255, 2015.

Informações dos autores

¹Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Agronomia (PPGA), Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus Marechal Cândido Rondon-PR, Brasil. E-mail: luanelaiseifpa@hotmail.com;

2Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Agronomia (PPGA), Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus Marechal Cândido Rondon-PR, Brasil. E-mail: leticiacunhaufra2013@hotmail.com.

Disponível em: Anais do II COMSOJA

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