As plantas agrícolas, durante seu crescimento e desenvolvimento, são atacadas por insetos que podem causar elevadas perdas econômicas. Muitas dessas pragas são invasivas, introduzidas nos ambientes de cultivo com ou sem intermédio humano, e apresentando alta capacidade para colonizar o novo habitat. A ocorrência da mosca-da-haste, M. sojae, na América do Sul representa uma questão de considerável importância à biossegurança desses países, cujo setor agrícola depende fortemente do cultivo da soja.
No sul do Brasil, os maiores níveis de infestação por M. sojae ocorrem na segunda safra de verão ou soja “safrinha”, correspondendo às semeaduras realizadas após 31 de dezembro. Segundo dados não oficiais, a área cultivada com soja safrinha no Rio Grande do Sul alcança cerca de 250 mil hectares ao ano, concentrados nas regiões norte e noroeste do estado, geralmente sucedendo o cultivo de milho precoce (POZEBON et al., 2020).
Os danos ocasionados por M. sojae ocorrem durante sua fase larval, cuja injúria reduz a capacidade de translocação de água e nutrientes do xilema (CHIANG; NORRIS, 1983). Além do acúmulo de massa seca na planta ser restringido pela formação das galerias no interior da haste, a produção de grãos é diretamente afetada, já que a haste da planta de soja é o principal órgão de armazenamento de fotoassimilados que são translocados às sementes durante a fase de enchimento de grãos.
Figura 1. Adulto (esquerda), larva (centro) e pupa (direita) de M. sojae em soja.

Nas regiões do mundo onde a espécie M. sojae é endêmica, as formas de controle incluem o uso de cultivares de soja resistentes, semeadura antecipada, controle biológico com parasitóides, uso de inseticidas aplicados via tratamento de sementes ou em parte aérea e rotação de culturas com gramíneas, já que as leguminosas são os únicos hospedeiros conhecido de M. sojae (POZEBON et al., 2021). A janela para controle químico restringe-se ao período anterior à entrada da larva na haste principal, e ao período posterior à emergência do adulto: no intervalo compreendido entre esses dois momentos do ciclo de vida da praga, as chances de controle são praticamente nulas, já que nenhum inseticida consegue atingir a larva no interior da haste.
Ademais, não há atualmente nenhum inseticida registrado para o controle de mosca-da-haste da soja no Brasil (AGROFIT, 2020), embora alguns ingredientes ativos apresentem boa eficiência de controle quando aplicados via tratamento de sementes (por exemplo, clorantraniliprole) ou pulverização foliar nas plântulas de soja recém-emergidas (por exemplo, clorpirifós) (CURIOLETTI et al., 2018). O período de 4 a 5 semanas após a emergência das plântulas é crítico para a infestação de mosca-da-haste em soja; quanto mais tarde ocorrer o ataque, menor será o impacto na produtividade. Dessa forma, recomenda-se como estratégia de manejo para M. sojae em soja safrinha o uso de cultivares com baixa suscetibiliadde ao ataque dessa praga.
A tolerância genética é amplamente utilizada para o manejo da praga na Ásia, sendo que cultivares com medula estreita, folíolos menores, tricomas maiores e menor conteúdo de umidade na haste apresentam menor suscetibilidade ao ataque de M. sojae (CHIANG; NORRIS, 1983). No Brasil, um estudo preliminar envolvendo 15 cultivares de soja revelou diferentes graus de suscetibilidade à mosca-da-haste, com o material BMX FIBRA apresentando o maior índice de tolerância (32,8 % de haste injuriada), enquanto BMX COMPACTA foi a cultivar mais suscetível ao ataque de M. sojae (57,5 % de haste injuriada).
Figura 2. Altura de planta, comprimento de galeria e porcentagem de haste injuriada por M. sojae em diferentes cultivares de soja sob condições de campo, em Condor-RS (safrinha 2019/20).

Todas as cultivares apresentaram 90 a 100% das plantas infestadas; portanto, a tolerância manifesta-se como impedimento físico à abertura de galerias pelas larvas, mas não impede a entrada das mesmas nas hastes das plantas. Assim, estudos futuros devem ser dedicados à avaliação de uma gama maior de cultivares e determinação dos fatores que conferem tolerância genética ao ataque de M. sojae.
Outra tática de manejo de mosca-da-haste consiste em adequar a data da semeadura em função do fotoperíodo, de modo que o ciclo da soja não seja encurtado. O ciclo mais longo permite maior acúmulo de matéria seca e, por consequência, proporciona às plantas maior capacidade de superar as injúrias decorrentes do ataque de M. sojae. Como a soja safrinha é cultivada sob um regime de fotoperíodo decrescente, recomenda-se a utilização de materiais de ciclo longo (ou seja, maior GMR), de modo que o ciclo da cultura não se torne excessivamente curto.
Por fim, ressalta-se que plantas de soja voluntária (soja guaxa ou tigüera) servem como hospedeiros para o inseto durante o inverno e devem ser eliminadas, evitando-se a formação de “pontes verdes” para a praga durante a entressafra (CZEPAK et al., 2018). Portanto, é imprescindível que se realize o monitoramento durante todo o ano para que a safra de soja não se inicie com elevada pressão da praga.
Revisão: Prof. Jonas Arnemann, PhD. e coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM
Referências:
AGROFIT. Agrofit: Sistema de agrotóxicos fitossanitários. 2020. Disponível em: <http://extranet.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons>. Acesso em: 11 jun. 2021.
CHIANG, H. S.; NORRIS, D. M. Morphological and physiological parameters of soybean resistance to agromyzid beanflies. Enviromental Entomology, v. 12, p. 260-265, 1983.
CURIOLETTI, L. E. et al. First insights of soybean stem fly (SSF) Melanagromyza sojae control in South America. Australian Journal of Crop Science, v. 12, p. 841-848, 2018
CZEPAK, C. et al. First record of the soybean stem fly Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae) in the Brazilian Savannah. Pesquisa Agropecuária Tropical, v. 48, p. 200-203, 2018.
POZEBON, H. et al. Arthropod invasions versus soybean production in Brazil: a review. Journal of Economic Entomology, v. 113, n. 4, p. 1591–1608, 2020.
POZEBON, H. et al. Highly diverse and rapidly spreading: Melanagromyza sojae threatens the soybean belt of South America. Biol. Invasions 23:1405–1423, 2021.
Foto de capa: Créditos Lucas Vitorio