O uso de cultivares transgênicas capazes de expressar toxinas Bt (de Bacillus thurigiensis) é uma tendência crescente no manejo de pragas em grandes culturas, como milho, algodão soja. A modificação genética dessas variedades confere às plantas a capacidade de produzir proteínas Cry ou Vip, que, ao serem ingeridas por determinados insetos, rompem a sua membrana intestinal interna e levam-nos à morte por septicemia.

Várias espécies da família Lepidoptera (ou seja, lagartas desfolhadoras) apresentam alta afinidade às proteínas Bt e são facilmente controladas por essa tecnologia, enquanto percevejos sugadores (família Hemiptera) e besouros desfolhadores (família Coleoptera) não são suscetíveis à maioria das toxinas e, portanto, podem consumir culturas Bt. Além disso, algumas espécies de lagartas, como Helicoverpa armigera e Spodoptera frugiperda, apresentam alta tolerância à proteína Cry presente nas cultivares de soja Bt (Cry1ac), bem como à maioria das proteínas Cry incorporadas em híbridos de milho (no caso de S. frugiperda). Essa particularidade pode estar relacionada ao hábito dessas espécies de consumir preferencialmente os órgãos reprodutivos das plantas, onde a expressão de toxinas Bt é menor do que nos tecidos vegetativos (QIN et al., 2019).

Por outro lado, as proteínas Vip presentes em certos híbridos de milho (como Vip3Aa20) continuam apresentando alta eficácia de controle sobre S. frugiperda. Além disso, sabe-se que ao menos uma proteína Cry (Cry3Bb1) apresenta efeito de controle sobre Diabrotica speciosa, um coleóptero, e outras seis são potencialmente efetivas contra dípteros (Cry4Aa, Cry4Ba, Cry11Aa, Cyt1Aa, Cry10Aa e Cyt2Ba; BEN-DOV, 2014). A tecnologia Bt atualmente comercializada em cultivares de soja no Brasil é denominada Intacta RR2 PRO (MON87701 x MON89788), expressando a toxina Cry1Ac; entretanto, outros quatro eventos já encontram-se aprovados para uso pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), associando mais cinco tipos de toxinas Bt.


A primeira cultivar de soja Bt foi lançada no mercado brasileiro na safra 2013/2014, alcançando 4 % de uso no primeiro ano. Essa taxa de cultivo passou para 48 % na safra 2015/2016 e chegou a 70 % na safra 2019/2020, sendo que no Rio Grande do Sul o percentual é ainda maior (cerca de 80 %). Devido à eficácia no controle de muitas lagartas e à resposta em produtividade, estima-se que a tecnologia Bt venha a ser adotada em mais de 90% da área de soja nos próximos anos (PERINI et al., 2020).

Figura 1. Países onde é permitido o cultivo (verde forte) ou a importação (verde claro) de plantas geneticamente modificadas, incluindo transgenia para controle de pragas e resistência a defensivos.

Fonte: Prado et al., 2012. Disponível clicando aqui.

De forma geral, qualquer modificação no manejo fitossanitário de uma cultura pode resultar em alterações na ocorrência e importância de espécies-praga, já que os recursos alimentares presentes passam a serem explorados por outra espécie. Dessa forma, algumas pragas da soja que antes eram consideradas secundárias estão ganhando importância, pelo fato de serem pouco ou nada controladas pela tecnologia Bt. É o caso das lagartas do gênero Spodoptera, dos besouros desfolhadores e de outros insetos sugadores e raspadores. Além disso, algumas pragas que se tornaram mais freqüentes em cultivos de soja Bt também estão ganhando importância nas lavouras não-Bt, devido à migração populacional desses insetos em busca de alimento.

Segundo Perini et al. (2020), as principais pragas com ocorrência em soja não-Bt atualmente são a lagarta falsa-medideira (Chrysodeixis includens), o complexo Spodoptera (S. eridania, S. cosmioides e S. frugiperda), o percevejo-marrom (Euschistus heros), os ácaros tetraniquídeos (como Tetranychus urticae e Mononychellus planki) e o tamanduá-da-soja (Sternechus subsignatus), além da lagarta H. armigera, cuja ocorrência varia de ano para ano. Já nos cultivos de soja que empregam a tecnologia Bt, as espécies-praga com maior ocorrência são aquelas não controladas pela tecnologia Bt, como o percevejo-marrom, o percevejo barriga-verde (Diceraeus furcatus e D. melacanthus), o complexo Spodoptera, os ácaros e os tripes, além dos besouros desfolhadores, como D. speciosa.

Figura 2. Identificação de espécies do complexo Spodoptera.

Fonte: Mais Soja. Imagem original disponível clicando aqui

Além disso, outras pragas ocasionais passaram a se destacar e aumentar em número, como os moluscos (lesmas e caracóis), algumas cigarrinhas (Ceresa brunnicornis e C. fasciatithorax) e a cochonilha-branca-da-raiz. Já na soja safrinha, as infestações por mosca-da-haste (Melanagromyza sojae) e mosca-branca (Bemisia tabaci) têm crescido em ocorrência (POZEBON et al., 2020).

Acredita-se que a redução no número de aplicações de inseticidas na soja Bt tenha contribuído para o aumento na incidência de percevejos nas lavouras, embora os produtos lagarticidas continuem em franco uso, visando ao manejo de lagartas Spodopteras não controladas pela tecnologia Bt. O caso da lagarta S. frugiperda é particularmente preocupante. Pelo seu caráter polífago, a espécie é capaz de sobreviver em diversas culturas de inverno (aveia, azevém, trigo, etc.), podendo atingir as culturas de verão (soja e milho) com alta pressão populacional desde o início do ciclo.

De acordo com Perini et al. (2020), o número de aplicações de inseticidas em soja não-Bt gira em torno de quatro a cinco por safra, visando principalmente o controle de lagartas nas primeiras aplicações e de percevejos nas últimas. Já no caso da soja Bt, costuma-se iniciar o controle mais tarde, totalizando três a quatro aplicações com foco maior em percevejos e, em menor grau, lagartas do gênero Spodoptera. No caso da soja safrinha, geralmente aumenta-se o número de aplicações visando um controle maior de percevejos, ácaros e mosca-branca, cuja pressão populacional nessa época é maior.

Para saber mais sobre o modo de ação das toxinas Bt, clique aqui.

Revisão: Prof. Jonas Arnemann, PhD. e coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM

Referências:

BEN-DOV, E. Bacillus thurigiensis subsp. israelensis and its dipteran-specific toxins. Toxins, v. 6, p. 1222-1243, 2014.

PERINI, C. R. et al. Ocorrência e manejo de pragas em soja Bt e não Bt no sul da América do Sul. Revista Plantio Direto, v. 175, p. 21-31, 2020.

POZEBON, H. et al. Arthropod invasions versus soybean production in Brazil: a review. Journal of Economic Entomology, v. 113, n. 4, p. 1591–1608, 2020.

PRADO, J. F. et al. Genetically engineered crops: from idea to product. Annu. Rev. Plant Biol., v. 65, p. 769–90, 2014. Disponível em: https://www.annualreviews.org/doi/10.1146/annurev-arplant-050213-040039

QIN, D., LIU, XY., MICELI, C. et al. Soybean plants expressing the Bacillus thuringiensis cry8-like gene show resistance to Holotrichia parallelaBMC Biotechnol, v. 19, p. 66 (2019). https://doi.org/10.1186/s12896-019-0563-1

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