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Qual a importância do período escuro para a cultura da soja?

  • Considerada uma planta de dia curto, a soja responde aos estímulos da luz, sendo, portanto, uma planta sensível ao fotoperíodo
  • Embora muito se relacione a incidência de luz ao desenvolvimento das plantas, o período escuro é essencial para a soja, sendo responsável por induzir a planta ao florescimento.

Uma das matérias primas básicas para a fotossíntese é a luz, sendo essa, indispensável no metabolismo vegetal. Entretanto, a luz solar não serve apenas como fonte de energia para a fotossíntese, entre outros reações bioquímicas, a luz também atua como um sinal que regula diversos processos do desenvolvimento vegetal, desde a germinação da semente ao desenvolvimento do fruto e à senescência (Taiz et al., 2017).

A influência da luz no desenvolvimento vegetal é ainda maior nas plantas responsivas ao fotoperíodo. O fotoperíodo é compreendido como período entre o crepúsculo matutino e o crepúsculo vespertino. Esse fenômeno influi em atividades metabólicas de algumas plantas, influenciando principalmente em seu desenvolvimento. Segundo Bergamaschi (2007) as plantas podem ser classificadas quanto a sua resposta ao fotoperíodo (fotoperiodismo) em plantas de dia curto, plantas de dia longo e plantas de dia neutro.

Para efeito de melhor compreensão, normalmente as plantas responsivas ao fotoperíodo são divididas em três grupos, as plantas de dia curto, as plantas de dia longo e as plantas de dia neutro. Segundo Bergamaschi (2007) as plantas de dia curto são quelas espécies que florescem em fotoperíodos menores do que um máximo crítico, já as plantas de dia longo são aquelas que florescem em fotoperíodos maiores do que um mínimo crítico, enquanto as plantas de dia neutro florescem em uma ampla faixa de fotoperíodo.

Para a cultura da soja, a sensibilidade ao fotoperíodo é característica variável entre cultivares, ou seja, cada cultivar possui seu fotoperíodo crítico, acima do qual o florescimento é atrasado. Por esta razão, a soja é considerada planta de dia curto (Farias; Nepomuceno; Neumaier, 2021).

Entretanto, assim como a luz, sua ausência (escuro) é determinante para a cultura da soja. É comum observar a nível de campo, plantas de soja ainda em período vegetativo em meio a plantas já em período reprodutivo (Figura 1), quando submetidas a iluminação noturna. Esse atraso na entrada do período reprodutivo da cultura e persistência do período vegetativo da soja é uma resposta da planta ao curto período de escuro, em situações em que há iluminação noturna, conforme observado na figura 1.

Figura 1. Plantas de soja em diferentes períodos do desenvolvimento em função da iluminação noturna.

Foto: Vanderlei Lermen (2020)

Embora muito se relacione a floração da cultura ao fotoperíodo, Bergamaschi (2007) desta que diversos estudos demonstram que, na verdade, a duração do período escuro do dia (nictoperíodo) que é a responsável por desencadear o processo de indução ao florescimento em plantas sensíveis.

Essa resposta da planta esta relacionada ao fitocromo, que é um pigmento comumente presente nos tecidos das plantas, considerada a molécula fotorreceptora que detecta as transmissões entre a luz e o escuro. O pigmento pode existir sob duas formas, Fv660 (fitocromo vermelho 660 nm) e Fve730 (fitocromo vermelho extremo 730 nm). A forma Fv absorve luz vermelha curta (660 nm) e é em consequência convertida na forma Fve. A forma Fve absorve a luz do vermelho longo, e é a forma ativa do pigmento, promovendo a floração em plantas de dias longos, inibindo a floração em plantas de dias curtos (Santos, 2004).



Segundo Bergamaschi e Bergonci (2017), através da alteração de curtos períodos de luz nas faixas do vermelho do vermelho distante (longo) no período noturno, é possível demonstrar que o processo de indução fotoperiódica ao florescimento é reversível, ou seja, o período escuro exerce fundamental importância para a indução de períodos de desenvolvimento da planta, em especial à floração.

Analisando como ferramenta de manejo, diversos estudos têm sido conduzidos atualmente visando identificar e quantificar a suplementação luminosa noturna, em culturas onde é possível induzir a floração e/ou busca-se estender o período vegetativo ou reprodutivo dependendo da finalidade do cultivo, como é o caso de algumas flores de corte. No caso do Crisântemo de corte, Zandonadi (2021) observou que é possível inibir de forma satisfatória a indução do florescimento dessa cultura, promovendo o crescimento vegetativo da cultura com a suplementação luminosa.

Trazendo para a cultura da soja, embora os efeitos da suplementação luminosa possam potencializar o crescimento e desenvolvimento vegetativo da cultura, como tem sido avaliado por estudos atuais, é essencial que haja o período de escuro para que ocorra a indução ao florescimento. A floração da soja responde ao nictoperíodo, ou duração da noite. Para facilitar a compreensão, normalmente se faz relação ao fotoperíodo, dizendo-se que a soja é uma planta de dias curtos, uma vez que, sob dias longos, ela atrasa seu florescimento e alonga seu ciclo (Nepomuceno; Farias; Neumaier, 2021).

Segundo Vaz; Santos; Zaidan (2008), embora ambas as formas de fitocromo absorvam luz no comprimento de onda do violeta e do azul, nas plantas de dias curtos, um elevado teor de Fve no início do período noturno é vantajoso para a floração, e em alguns casos, é uma pré-condição para que ocorra a indução ao florescimento.

Figura 2. Variações na proporção de fitocromo Fve em plantas de dias longos (PDL) e plantas de dias curtos (PDC). Uma maior proporção de Fve no início do período de escuro é promotora da floração nas PDC.

Fonte: Vaz; Santos; Zaidan (2008)

Na prática, embora a resposta da soja ao fotoperíodo possa variar em função da cultivar, para que a planta possa passar do período vegetativo para o reprodutivo, é essencial que haja o período de escuro, induzindo o florescimento.

Como a soja é considerada uma planta de dia curto que floresce no verão, a medida em que ocorre a alteração do fotoperíodo pela mudança de latitude, também nota-se a alteração do ciclo de desenvolvimento para uma dada cultivar. Além da alteração do fotoperíodo pela latitude, o ciclo da soja também pode ser afetado pela disponibilidade de luz, em função da suplementação luminosa, ou ausência de luz, induzido ao atraso ou redução do ciclo. Além disso, vale lembrar que a soja também responde a soma térmica, sendo necessário o adequado acúmulo de graus dia para que a planta possa completar seu ciclo de desenvolvimento.

Referências:

BERGAMASCH, H. FOTOPERIODISMO. UFRGS. 2007. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/agrometeorologia/files/2014/08/fotoperiodismo.pdf, acesso em: 08/05/2023.

FARIAS, J. R. B.; NEPOMUCENO, A. L.; NEUMAIER, N. FOTOPERÍODO. Embrapa Soja, 2021. Disponível em: < https://www.embrapa.br/agencia-de-informacao-tecnologica/cultivos/soja/pre-producao/caracteristicas-da-especie-e-relacoes-com-o-ambiente/exigencias-climaticas/fotoperiodo >, acesso em: 08/05/2023.

NEPOMUCENO, A. L.; FARIAS, J. R. B.; NEUMAIER, N. CARACTERÍSTICAS DA SOJA. Embrapa Soja, 2021. Disponível em: < https://www.embrapa.br/agencia-de-informacao-tecnologica/cultivos/soja/pre-producao/caracteristicas-da-especie-e-relacoes-com-o-ambiente/caracteristicas-da-soja#:~:text=A%20flora%C3%A7%C3%A3o%20da%20soja%20responde,florescimento%20e%20alonga%20seu%20ciclo. >, acesso em: 08/05/2023.

SANTOS, D. M. M. FLORESCIMENTOS. Disciplina de Fisiologia Vegetal, Unesp, Jaboticabal. 2004. Disponível em: < https://www.fcav.unesp.br/Home/departamentos/biologia/DURVALINAMARIAM.DOSSANTOS/TEXTO_20_FLORESCIMENTO_2004.pdf >, acesso em: 08/05/2023.

TAIZ, L. et al. FISIOLOGIA E DESENVOLVIMENTO VEGETAL. Ed. 6, Porto Alegre, 2017.

VAZ, A. P. A.; SANTOS, H. P.; ZAIDAN, L. B. P. FLORAÇÃO. Fisiologia Vegetal, cap. 16, EDITORA GUANABARA KOOGAN S.A., 2008. Disponível em: < https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/handle/doc/543117 >, acesso em: 08/05/2023.

ZANDONADI, A. S. LUZ ARTIFICIAL NO CONTROLE DO FLORESCIMENTO DE CRISÂNTEMO DE CORTE. Tese de Doutorado, Universidade Federal de Viçosa, 2021. Disponível em: < https://www.locus.ufv.br/bitstream/123456789/29563/1/texto%20completo.pdf >, acesso em: 08/05/2023.

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Equipe Mais Soja
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