O controle de plantas daninhas é uma pratica fundamental para evitar a matocompetição e redução da produtividade de cultivos agrícolas. A soja RR proporcionou uma nova dinâmica de controle de plantas daninhas, passando o glifosato a ser o herbicida mais utilizado no controle dessas plantas.

Entretanto, a elevada pressão de seleção imposta pelo uso contínuo do herbicida nos cultivos RR, promoveu a seleção de genótipos resistentes a ele. A elevada produção de sementes e a facilidade de dispersão das mesmas por parte da grande maioria das plantas daninhas possibilitou o aumento de populações resistentes ao glifosato, impondo dificuldades quando ao controle dessas daninhas.



Além disso a resistência das plantas daninhas aos herbicidas pode variar de mecanismo, o que dificulta ainda mais o manejo integrado dessas plantas. Conforme destacado por Yamashita & Guimarães (2013), a alteração no sítio de ação, a metabolização ou detoxificação e a retenção ou não afinidade do herbicida no local de ação são os mecanismos mais conhecidos de resistência de plantas daninhas a herbicidas.

Veja também: Conheça os mecanismos de resistência das plantas daninhas aos herbicidas

Dentre as espécies de plantas daninhas com resistência conhecida ao glifosato, o leiteiro (Euphorbia heterophylla) é um das plantas mais presentes no cultivo da soja. Segundo Lorenzi (2014), o leiteiro é uma planta anual, lactescente, de altura média variando entre 30-80cm. As sementes da planta apresentam ligeiramente aparência de amendoins, dai ou outro nome popular da planta “amendoim-bravo”.

Figura 1. Sementes de leiteiro (Euphorbia heterophylla).

Adaptado: Lorenzi (2014).

Figura 2. Planta adulta de leiteiro (Euphorbia heterophylla).

Foto: Fernando Storniolo Adegas

O leiteiro está entre as 10 plantas daninhas que apresentam resistência simples (isolada) ao glifosato (figura 1).

Figura 3. Espécies de plantas daninhas com resistência simples (isolada) e múltipla ao glifosato.

Fonte: Fernando Adegas, Embrapa Radar da Tecnologia Soja (2020).

Segundo Adegas et al. (2020), o caso mais recente de resistência do leiteiro ao glifosato foi observado na safra 2018/2019, pela equipe técnica da COCARI (Cooperativa Agropecuária e Industrial) no cultivo de soja em uma propriedade agrícola na região do Vale do Ivaí, no estado do Paraná. Uma população de leiteiro sobreviveu após a aplicação do glifosato para o controle de plantas daninhas na soja na dose recomendada, configurando assim o caso de resistência.

Figura 4. Área de soja infestada com leiteiro resistente ao glifosato.

Outros casos de resistência da planta daninha a herbicidas foram observados por Adoryan et al. (1993) para inibidores de ALS e por Trezzi (2004) para inibidores de ALS e inibidores de PPO (weedscience.org). O fato da planta daninhas apresentar resistência a diferentes mecanismos de ação dos herbicidas torna mais dificultoso seu manejo, sendo necessário buscar alternativas que possibilitem o controle da daninha de forma alternativa.

Uma das principais ferramentas para isso é a utilização de herbicidas pré-emergentes na cultura da soja, atuando diretamente no banco de sementes do solo. Avaliando e eficiência de herbicidas pré-emergentes no controle do leiteiro, Sanchotene et al. (2017) observaram que os herbicidas sulfentra­zone, imazaquin e diclosulam apresentaram boa eficiência no controle da planta daninha, assim como a associação entre flumio­xazin + chlorimuron-ethyl; flumioxazin + imazaquin; flumioxazin + imazethapyr e flumioxazin + sulfentrazone.

Tabela 1. Resultados médios da porcentagem de controle sobre Euphorbia heterophylla (leiteiro) aos 14, 21 e 28 dias após à aplicação dos tratamentos (DAA). Santa Maria/RS, 2015/16.

Fonte: Sanchotene et al. (2017).

Além disso os autores destacam que a utilização de pré-emergentes na cultura da soja não causou perdas significativas na produtividade da cultura.

Outra alternativa indispensável é trabalhar com o manejo cultural, visando promover o maior número de cultivos possíveis sem dar espaço para períodos de pousio e também o estabelecimento de uma adequada rotação de culturas, possibilitando além da rotação de mecanismos de ação, a utilização de espécies que possam promover cobertura do solo com sua palhada residual.

O leiteiro é uma planta daninha de difícil controle, que não deve ser subestimada. Sendo assim, é fundamental o monitoramento das áreas de cultivo visando observar populações da planta daninhas e controla-las de forma eficiente sem que ocorra o desenvolvimento de novos casos de resistência.

 

Referências:

ADEGAS, F. S. et al. Euphorbia heterophylla: UM NOVO CASO DE RESISTÊNCIA AO GLIFOSATO NO BRASIL. Embrapa, Comunicado Técnico, n.98, mar. 2020.

INTERNATIONAL HERBICIDE-RESISTANT WEED DATABASE. weedscience.org, disponível em: <http://weedscience.org/Pages/Case.aspx?ResistID=5215>, acesso em: 10/09/2020.

INTERNATIONAL HERBICIDE-RESISTANT WEED DATABASE. weedscience.org, disponível em: <http://weedscience.org/Pages/Case.aspx?ResistID=5294>, acesso em: 10/09/2020.

LORENZI, H. MANUAL DE IDENTIFICAÇÃO E CONTROLE DE PLANTAS DANINHAS: PLANTIO DIRETO E CONVENCIONAL. Instituto Plantarum, ed. 7, 2014.

SANCHOTENE, D. M. et al. DESENPENHO DE DIFERENTES HERBICIDAS PRÉ-EMERGENTES PARA CONTROLE DE Euphorbia heterophylla NA CULTURA DA SOJA. Perspectiva, v. 41, n. 155, set. 2017.

YAMASHITA, O. M.; GUIMARÃES, S. C. RESISTÊNCIA DE PLANTAS DANINHAS AO GLYPHOSATE. Varia Scientia Agrária, v. 3, n. 01, p.189-215, 2013.

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