Assim como a escolha da cultivar, época de semeadura e boa plantabilidade, a boa fertilidade do solo é essencial para a obtenção de boas produtividades da soja, promovendo adequado aporte nutricional para as plantas. De maneira geral, pode-se dividir os nutrientes em dois grandes grupos, os macronutriente e os micronutrientes. Ambos desempenham papel essencial no crescimento e desenvolvimento vegetal, sendo a quantidade requerida pela planta a principal diferença entre macro e micronutrientes (macronutrientes são requeridos em maiores quantidades).

Dentre os macronutrientes o Cálcio (Ca) é um dos mais requeridos pela soja, ficando atras apenas dos conhecidos N-P-K, Nitrogênio, Fósforo e Potássio respectivamente. De acordo com Taiz et al. (2017), o Cálcio é constituinte da lamela média das paredes celulares, além de ser requerido como cofator por algumas enzimas envolvidas na hidrólise de ATP e de fosfolipídios, atuando também como mensageiro secundário na regulação metabólica.



Diferente do Cálcio, mas não menos importante, o Boro (B) é considerado um micronutriente o qual segundo Taiz et al. (2017) forma complexo com manitol, ácido polimanurônico e outros constituintes das paredes celulares, estando envolvido no alongamento celular e no metabolismo de ácidos nucleicos. A extração e exportação desses e de outros nutrientes podem ser visualizadas na tabela 1.

Tabela 1. Extração e exportação de macro e micronutrientes para as cultivares BRS 184; SYN 1059 e DM 6563.

Fonte: Oliveira Junior et al. (2016)

Quando em quantidades insuficientes para suprir as necessidades das plantas, é necessário a reposição/adubação com Cálcio e Boro, sendo o Calcário no caso do Cálcio e, Tetraborato de Sódio Pentahidratado – Bórax Penta – (Na2B4O7.5H2O) e Ulexita (NaCaB5O2.8H2O) no caso do Boro, algumas das principais fontes desses nutrientes (Zavaschi).

Ainda que esses nutrientes sejam considerados imóveis na planta (Prado, 2004), a forma de aplicação pode variar de acordo com o objetivo e finalidade da adubação, sendo em alguns casos, observada a aplicação foliar, principalmente se tratando do boro. Contudo, de maneira geral, recomenda-se a calagem quando necessário para a suplementação de cálcio (principalmente em solos ácidos) e a adição de fertilizantes contendo boro, junto as formulações N-P-K para aplicação na base de semeadura (Zavaschi).

Tabela 2.  Mobilidade comparada dos nutrientes aplicados nas folhas. Em cada grupo os elementos aparecem em ordem decrescente.

Fonte: Prado (2004)

Apesar de tanto o Cálcio quanto o Boro serem considerados imóveis na planta, estudos avaliando a adubação foliar e Cálcio e Boro foram realizados por Bevilaqua; Silva Filho; Possenti (2002) e Seidel & Basso (2012).  No estudo conduzido por Bevilaqua; Silva Filho; Possenti (2002), os autores utilizaram para aplicação via foliar desses nutrientes, cloreto de cálcio (0,5% de Ca) e borato de sódio (0,25% de B), com o pH corrigido para 7,0. Os tratamentos consistiram na pulverização da solução em quatro épocas: 10 dias antes da floração (botões florais fechados), floração plena (80% das flores abertas), 15 dias após a floração (vagens com 3 a 5mm) e 30 dias após a floração (vagens com 15mm), mais uma testemunha, sem tratamento (Bevilaqua; Silva Filho; Possenti, 2002).

Já no estudo realizado por Seidel & Basso (2012), os autores utilizaram um produto formulado contendo 10% de Cálcio e 0,5% de Boro. Os tratamentos consistiram em aplicação de um fertilizante mineral foliar em quatro épocas: 10 dias antes do florescimento (estádio R1), no florescimento pleno (estádio R2), 15 dias após o florescimento pleno (estádio R3) e 30 dias após o florescimento pleno (estádio R4), e uma testemunha sem nenhuma aplicação de fertilizante foliar.

Conforme destacado por (Zavaschi), o Boro pode estar relacionado a formação do tubo polínico, o que aliado ao maior acúmulo desse nutriente e do Cálcio nos estádios reprodutivos da soja, conforme observado por Oliveira Junior et al. (2016), justifica a aplicação do nutriente durante esses estádios.

Figura 1. Acúmulo de Boro e Cálcio em diferentes estádios do desenvolvimento da soja, em distintas cultivares de soja.

Adaptado: Oliveira Junior et al. (2016)

Conforme observado por Bevilaqua; Silva Filho; Possenti (2002), a aplicação via foliar de Ca e B proporcionou aumento do peso de grãos por plantas, sem alterara a qualidade fisiológica da soja, sendo observadas maiores respostas nos componentes de produtividade quando as aplicações ocorreram na floração e pós-floração da soja.

Tabela 3. Efeito da aplicação foliar de Ca e de B sobre o número de vagens por planta (NV), número de grãos por vagem (NG) e peso de sementes por planta (PS) em duas cultivares de soja, cultivadas em Planossolo. Pelotas, RS, 1997.

* indica diferença estatística entre época de aplicação, pelo teste de Dunnet, ao nível de 5 % de probabilidade de erro
** indica diferença estatística entre as médias de cultivares pelo teste de análise de variância ao nível de 5 % de probabilidade de erro
ns: efeito não significativo.
Fonte: Bevilaqua; Silva Filho; Possenti (2002)

Assim como: Bevilaqua; Silva Filho; Possenti (2002), avaliando a aplicação via foliar de Boro e Cálcio na cultura da soja, variedade CD 202, Seidel & Basso (2012) observaram aumento da massa de mil grãos e produtividade da soja quando comparados os tratamentos que receberam a aplicação via foliar do nutriente com a testemunha, conforme observado na tabela 4.

Tabela 4. Médias dos tratamentos para o componente de produtividade massa de mil grãos (MMG) e produtividade, em função da aplicação de fertilizante mineral foliar a base de cálcio e boro em diferentes épocas de aplicação da cultura da soja.

Adaptado: Seidel & Basso (2012)

Embora Seidel & Basso (2012) concluam que a aplicação via foliar de Ca e B não interferiu em componentes de produtividade e produtividade da soja avaliada, pode-se observar um aumento de produtividade de aproximadamente 550 kg.ha-1 quando comparada a testemunha com o tratamento de maior desempenho produtivo, destacando a importante contribuição desses nutrientes para a boa produtividade da soja.


Veja também: Potássio, o segundo nutriente mais requerido pela soja


Logo, pode-se dizer a adubação com Boro e Cálcio são interessantes alternativas para o aumento da produtividade da soja, contudo cabe destacar que essas ferramentas desempenham papel de ajuste fino na produtividade e a deficiência de algum outro nutriente pode comprometer a produtividade da cultura mesmo com a adição de Ca e B no sistema. Sendo assim, deve-se atentar para os níveis observados desses e de outros nutrientes no sistema de produção, a fim de adequar a aporte nutricional as exigências da cultura e expectativas de produtividade.

Referências:

BEVILAQUA, G. A. P.; SILVA FILHA, P. M.; POSSENTI, J. C. APLICAÇÃO FOLIAR DE CÁLCIO E BORO E COMPONENTES DE RENDIMENTO E QUALIDADE DE SEMENTES DE SOJA. Ciência Rural, v. 32, n. 1, 2002. Disponível em: < https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84782002000100006 >, acesso em: 04/01/2021.

OLIVEIRA JUNIOR, A. et al. ESTÁDIOS FENOLÓGICOS E MARCHA DE ABSORÇÃO DE NUTRIENTES DA SOJA. Embrapa, Fortgreen, 2016. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/1047123 >, acesso em: 04/01/2021.

PRADO, R. M. ABSORÇÃO E MOVIMENTAÇÃO DE NUTRIENTES NAS PLANTAS. Nutrição de Plantas: A chave para alta produção com qualidade, 2004. Disponível em: < http://www.nutricaodeplantas.agr.br/site/culturas/maracuja/abs_mov_nutr_plantas.php >, acesso em: 04/01/2021.

SEIDEL, E. P.; BASSO, W. L. ADUBAÇÃO FOLIAR A BASE DE CÁLCIO E BORO NO CULTIVO DA SOJA (Glycine max). Scientia Agraria Paranaensis Volume 11, n.2 , p 75 – 81, 2012. Disponível em: < http://e-revista.unioeste.br/index.php/scientiaagraria/article/view/7303 >, acesso em: 04/01/2021.

TAIZ, L. et al. FISIOLOGIA E DESENVOLVIMENTO VEGETAL. Ed. 6. Porto Alegre, 2016.

 ZAVASCHI, E. MANEJO DO BORO NA CULTURA DA SOJA. AGROADVENCEBLOG. Disponível em: < http://blog.agroadvance.com.br/2020/07/08/manejo-do-boro-na-cultura-da-soja/ >, acesso em: 04/01/2021.

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