Assim como em culturas produtoras de grãos, a matocompetição pode provocar perdas expressivas na produtividade e na qualidade da fibra do algodão. Entretanto, diferentemente de culturas como soja e milho, o algodoeiro apresenta crescimento inicial mais lento, o que o torna mais suscetível à interferência precoce das plantas daninhas.

Nesse contexto, estabelecer a cultura “no limpo” e manter essa condição ao longo do período crítico constitui um desafio técnico relevante, que exige conhecimento agronômico, experiência prática e o uso adequado de tecnologias. O sucesso no manejo depende, sobretudo, do correto posicionamento das estratégias de controle ao longo do ciclo da cultura. Embora abordagens integradas sejam fundamentais para aumentar a eficiência do manejo, o controle químico por meio de herbicidas ainda se destaca como a principal ferramenta em sistemas comerciais.

Contudo, o uso de herbicidas requer criterioso planejamento, uma vez que tanto a eficácia do controle quanto a rentabilidade do sistema produtivo devem ser consideradas. Estudos demonstram que o período crítico de prevenção à interferência (PCPI) varia em função da cultivar, da comunidade infestante e das condições edafoclimáticas da região.

De modo geral, para as principais espécies daninhas presentes no sistema de produção do algodão, como capim-colchão (Digitaria horizontalis), capim-pé-de-galinha (Eleusine indica), caruru (Amaranthus spp.), trapoeraba (Commelina benghalensis), picão-preto (Bidens pilosa) e leiteiro (Euphorbia heterophylla), estima-se que o PCPI possa se estender por até cerca de 98 dias após a emergência. No entanto, há relatos na literatura indicando variações desse período, com valores próximos de 58 a 82 dias, reforçando a necessidade de ajustes no manejo conforme as condições específicas de cada área (Joaquim Júnior et al., 2021).

Figura 1. Períodos críticos de controle de plantas daninhas em algodão cv. IMACD 6001LL estimados para perda de produtividade de 5% em Jaboticabal, 2011. PCRD: período crítico de remoção de plantas daninhas; PCLD: período crítico livre de plantas daninhas.

*PCRD = PCPI
**PCLD = PTPI
Adaptado: Silva et al. (2016)

Considerando o longo período crítico de prevenção a interferência para a cultura do algodão, adotar estratégias que permitam reduzir a infestação das plantas daninhas é crucial para reduzir a matocompetição, especialmente se tratando de espécies de difícil controle. Uma das alternativas para isso é o uso de herbicidas pré-emergentes, também conhecidos como herbicidas residuais. Esses herbicidas atuam diretamente no banco de sementes do solo, reduzindo os fluxos de emergência das espécies daninhas.

Essa estratégia permite reduzir a matocompetição inicial do algodão, além de contribuir para um melhor controle de daninhas complexas, através da redução das populações iniciais. Atualmente, os relatos de resistências múltiplas e simples de espécies daninhas na cultura do algodão no Brasil, incluem espécies de caruru (Amaranthus retroflexus; A. viridis; A. palmeri), gramíneas como o capim-pé-de-galinha (Eleusine indica) e asteraceas como o mentrasco (Ageratum conyzoides). Essas resistências incluem grupos químicos como herbicidas inibidores da ALS, Fotossistema II, PROTOX, EPSPs e ACCase (Heap, 2026).

De acordo com Santos et al. (2018), além de reduzir os fluxos de emergência das planta daninhas, o uso dos herbicidas pré-emergentes influencia positivamente na produtividade de algodão em caroço e pluma, possibilitando produtividades superiores ao observado em lavouras sem o uso desses herbicidas. Ainda que herbicidas como pendimethalin, trifluralin e diuron sustentem o manejo residual na cultura do algodão (Silva et al., 2025), explorar outras moléculas, adicionando herbicidas pré-emergentes mais atuais ao sistema de cultivo, é uma das formas de contribuir para o manejo da resistência das plantas daninhas aos herbicidas no algodão e ampliar o controle pré-emergente.

Vale destacar que, embora proporcionem controle inicial eficiente por meio da supressão dos fluxos de emergência, a persistência dos herbicidas pré-emergentes é altamente dependente das condições edafoclimáticas. Fatores como umidade, temperatura, textura e teor de matéria orgânica do solo influenciam diretamente sua atividade residual. Nesse contexto, considerando o longo período de suscetibilidade do algodoeiro à matocompetição, a escolha de herbicidas com maior residual, aliada ao adequado posicionamento das aplicações em pós-emergência, é determinante para o sucesso no manejo das plantas daninhas. Assim, a integração entre herbicidas pré e pós-emergentes constitui uma estratégia fundamental para reduzir os efeitos da interferência e preservar o potencial produtivo da cultura do algodão.



Referências:

HEAP. I. The International Herbicide-Resistant Weed Database, 2026. Disponível em: < https://weedscience.org/Pages/crop.aspx >, acesso em: 28/04/2026.

JOAQUIM JÚNIOR, C. Z. et al. MANEJO DE PLANTAS DANINHAS NA CULTURA DO ALGODOEIRO: BREVE REVISÃO. Revista Agronômica Brasileira, 2021. Disponível em: < https://www.researchgate.net/publication/359677214_Manejo_de_plantas_daninhas_na_cultura_do_algodoeiro_breve_revisao >, acesso em: 28/04/2026.

SANTOS, S; M; S. et al. CONTROLE DO COMPLEXO DE PLANTAS DANINHAS COM HERBICIDAS PRÉ-EMERGENTES NA CULTURA DO ALGODÃO. Rev. Cultivando o Saber, 2018. Disponível em: < https://cultivandosaber.fag.edu.br/index.php/cultivando/article/view/876/799 >, acesso em: 28/04/2026.

SILVA, A. N. et al. HERBICIDAS PRÉ-EMERGENTES COMO FERRAMENTA ESTRATÉGICA NO MANEJO INTEGRADO DE PLANTAS DANINHAS. Enciclopédia Biosfera, 2025. Disponível em: < https://www.conhecer.org.br/enciclop/2025D/herbicidas.pdf >, acesso em: 28/04/2026.

SILVA, M. P. et al. PERIODS OF WEED INTERFERENCE ON TRANSGENIC COTTON ‘IMACD 6001LL’. Rev. Caatinga, 2016. Disponível em: < https://periodicos.ufersa.edu.br/index.php/caatinga/article/view/5341/pdf_373 >, acesso em: 28/04/2026.

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