A despeito de o Brasil ser considerado como exemplo quando o assunto é Agricultura Conservacionista através do Sistema Plantio Direto, nos últimos 15 anos foi observado um grande retrocesso na qualidade do Sistema Plantio Direto, principalmente pelo retorno de uso de grades, falta de cobertura do solo e pela eliminação dos terraços, trazendo novamente um grande problema como a erosão, que impacta diretamente os canais de rios, lagos e nascentes, além das perdas diretas do solo e da produtividade.

Preocupada com a evolução destes problemas, a Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (FEBRAPDP) apresentou uma proposta de projeto à Itaipu Binacional para resgatar a qualidade do Sistema Plantio Direto na região Oeste do Paraná, mais precisamente na bacia do Paraná III, a bacia de contribuição para o reservatório de Itaipu, cuja longevidade precisa ser garantida com a mitigação do assoreamento da represa.

Com este projeto, em 2009 iniciaram-se as atividades para criação da ferramenta Índice de Qualidade Participativo do Sistema Plantio Direto (IQP), que em resumo, trata-se de uma metodologia participativa para avaliar a qualidade do Sistema Plantio Direto, desenvolvida pela Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (FEBRAPDP) com o apoio da Itaipu Binacional e Parque Tecnológico de Itaipu e validada técnica e cientificamente para uso na região oeste do Paraná por um grupo de trabalho onde participaram algumas instituições de pesquisa, extensão e universidades como IAPAR, EMBRAPA, EMATER, IRGA, Universidade Estadual de Londrina, Universidade Positivo e Sociedade Brasileira de Ciência do Solo.

O IQP é capaz de avaliar a qualidade do Sistema Plantio Direto de uma determinada área de lavoura, atribuindo-lhe uma nota de 0 a 10, que é obtida através das respostas de 26 perguntas relacionadas ao manejo histórico implantado pelo agricultor naquela gleba. Trata-se de perguntas simples, mas que refletem o grau de conservação e o grande potencial de melhoria nas propriedades avaliadas, que podem ser trabalhadas pelos agricultores e até mesmo auxiliar num acompanhamento técnico que visa uma boa recomendação para a melhoria na produção, conservação do solo, água e meio ambiente.

A metodologia utilizada para construção do IQP foi apresentada na publicação do IAPAR “Sistema Plantio Direto com Qualidade” que indica as condições ideais do Sistema Plantio Diretas para a região Oeste do Paraná. O conteúdo desta publicação foi transformado pela FEBRAPDP em oito indicadores, com um foco muito forte nos pilares do Sistema Plantio Direto:1-Não Revolvimento do Solo 2- Cobertura Permanente do Solo 3- Rotação de Culturas.

Esses oito indicadores recebem uma nota, com pesos ponderados, sendo que cada um deles tem o poder de avaliação que pode variar de um nível crítico para um nível bom, servindo para direcionar assim a nota final do IQP e as ações corretivas que são apresentadas no relatório da propriedade, gerado pelo sistema.

A descrição dos indicadores, bem como de seus respectivos fatores de ponderação para o IQP, deve ser regionalizada e decidida através de uma análise subjetiva da importância de cada indicador para o Sistema Plantio Direto com qualidade regional, resultando na composição para região oeste do Paraná, abaixo descrita:

A diversidade de espécies cultivadas sequencialmente ao longo do tempo é de fundamental importância para a manutenção da cobertura permanente do solo, sendo a rotação de cultura um dos pilares do sistema de plantio direto devido os seus vários efeitos sobre plantas espontâneas, pragas e doenças, contribuição para a biodiversidade, aumento do teor de matéria orgânica e melhoria das propriedades físicas e químicas do solo.

Intensidade de Rotação (IR): avalia a cobertura viva no solo em um determinado período, significando uma maior proteção ao solo e a garantia de uma continua reposição de palhada que irá repor a anterior, além também da importância das raízes vivas responsáveis por galerias e reciclagem de nutriente ao solo. Este índice é avaliado conforme o tempo de ocupação do solo por plantas vivas no período de 36 meses, uma característica na região oeste do Paraná onde é possível ocupar praticamente todo este tempo, devido à possibilidade de se trabalhar por três safras, considerando apenas um intervalo para o manejo das plantas de cobertura necessária para implantação de outra safra.

Diversidade da Rotação (DR): Avalia o grau de diversidade na rotação de culturas, importante para minimizar problemas, como pragas e doenças, aumentar a diversidade microbiológica e também por explorar diferentes camadas de solo devido ao diferente comportamento das raízes de cada cultura. Na região é possível a implantação de uma enorme gama de culturas, porém comercialmente as mais comuns são a soja, milho e trigo. Apesar da grande diversidade de culturas apropriadas para região, em especial para cobertura do solo, a referência para a região é de três famílias diferentes em um período de 36 meses, buscando fugir, um pouco do manejo típico Soja-Milho e uma cobertura de inverno como Aveia, que resulta em apenas duas famílias e busca introduzir uma nova família no sistema de rotação que pode ser dar no período de inverno, geralmente utilizando para cobertura, mix ou coquetéis de plantas de diferentes famílias e espécies.

Persistência dos Resíduos (PR): Este indicador está ligado a alguns fatores como a quantidade de massa produzida, fatores climáticos como temperatura e umidade e a relação Carbono/Nitrogênio das plantas, que quanto maior for esta relação, maior será o tempo de degradação da palha e maior será o tempo de cobertura do solo, sendo assim, as famílias de gramíneas são as que apresentam as palhadas mais resistentes. Como referência regional no Paraná, é necessário ocupar a lavoura com duas safras anuais contendo gramíneas e que também são consideradas quando trabalhadas no consorcio com outras culturas, levando-se em consideração um período de 36 meses, onde é possível e ideal trabalhar seis safras com gramíneas, seja ela solteira ou consorciada.

A ausência de preparo de solo é mais um fator que contribui para a sustentabilidade do sistema de plantio direto por preservar a cobertura do solo e a palhada. Porém o manejo indevido do preparo de solo, geralmente com uma escarificação ou aração tem sido adotada por alguns agricultores, devido a uma percepção incorreta de compactação e presença de plantas espontâneas de difícil controle.

Frequência de preparo do solo (FP): levando em consideração o solo e o clima da região oeste do Paraná, a estabilização do teor da matéria orgânica em sistema plantio direto contínuo, leva aproximadamente 12 anos. Além disso, na região é comum produtores realizarem preparo parcial nas cabeceiras da lavoura devido ao alto tráfego de maquinas. Este índice é avaliado no ano em que foi feito o último preparo do solo, considerando-se 12 anos como suficiente para estabilização do sistema. Também se considera o preparo realizado nas cabeceiras das glebas, onde se estima que seja 20% da área total da mesma, e a pontuação neste caso passa a ser 80 % do total.

Mesmo com o Sistema Plantio Direto, as perdas de solo ocorrem onde não existem terraços, por isso é necessário maximizar a infiltração da água, melhorando assim a eficiência do plantio direto. No Oeste do Paraná temos a característica de longos declives, suaves e ondulados, no terreno, favorecendo assim a erosão. A avaliação das práticas conservacionistas é feita por dois indicadores:

  • Terraceamento correto (TC): Este indicador é avaliado pela presença ou ausência do terraço em nível, levando em consideração quando existe o terraço a sua eficiência em evitar o escorrimento superficial, baseando-se na frequência de transbordamento nos últimos cinco anos.
  • Avaliação da conservação (AC): Além do terraceamento, temos outras práticas que podem favorecer o escorrimento superficial, como a semeadura e pulverização “morro abaixo”. Avalia-se também a compactação do solo além de sinais visíveis de erosão na propriedade, onde é levando em consideração o sentido das operações agrícolas, a presença de sinais visíveis de erosão na lavoura e a compactação.

O equilíbrio da nutrição vegetal possibilita altas produtividades das culturas, por outro lado, deve-se evitar o excesso de fósforo para que este não seja carreado junto à erosão superficial. No Oeste do Paraná existe uma grande disponibilidade de esterco animal, cujo uso é de grande benefício à qualidade do solo, contudo deve ser ajustado de acordo com a fertilidade do solo para não prejudicar o balanço de nutrientes.

Nutrição Equilibrada (NE): É baseado no equilíbrio nutricional, avaliando-se o nível do uso de esterco animal, de fertilizantes químicos e corretivos como calcário, quando aplicados em acompanhamento às análises de solo.

Histórico e Comprometimento (HC): Este indicador avalia o tempo de plantio direto em cada área e a introdução do conceito junto ao agricultor, baseado em um tempo fixado ao teto de 25 anos para região oeste do Paraná.

O trabalho de campo consiste em um diálogo direto com os agricultores e na aplicação do questionário pela equipe técnica do Projeto, para que possam identificar quais são os principais problemas e dificuldades na realização do plantio direto e pontuar as falhas no sistema, que ocasionam a perda de qualidade do mesmo.

A validação dos dados obtidos nas entrevistas é realizada através de visitas às áreas avaliadas para medição de terraços, observação dos restos culturais anteriores, a existência de erosão no solo e demais fatores avaliados no questionário e com base na observação a campo. Ao término da aplicação do questionário a campo, as informações são cadastradas no sistema do IQP e gera-se o relatório de cada propriedade, permitindo uma avaliação dos resultados na região amostrada.

Em 2018, este questionário foi aplicado em 195 agricultores dos municípios lindeiros ao reservatório de Itaipu, onde se observou que apenas 2,5% das propriedades avaliadas possui uma ótima avaliação no IQP, que reflete diretamente o alto nível tecnológico implementado para conservação de solos nestas lavouras. A grande maioria, 54,3% apresentou uma boa nota do IQP e 43%, ainda tem muitos aspectos a serem melhorados em suas propriedades, no que ser refere à conservação de solos.

O IQP é uma valiosa ferramenta de diagnóstico e encontra-se em domínio da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, Itaipu Binacional e Parque Tecnológico de Itaipu, onde já foram e estão sendo capacitadas diversas instituições e cooperativas da região oeste do Paraná, para que possam utilizá-la para uma boa assistência técnica aos agricultores que são assistidos por cada instituição, tendo em vista uma boa conservação de solos. Com o uso massivo do IQP é possível identificar e recuperar os focos problemáticos, assegurando uma maior conservação, longevidade e produtividade nas propriedades agrícolas.

Neste novo período de convênio com a Itaipu e Parque Tecnológico de Itaipu que vai até o final de 2020, a Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação estará massificando as atividades junto a diversos parceiros na região oeste do Paraná, capacitando e promovendo eventos voltados ao uso do IQP na região e também trabalhando a adaptação dos indicadores do IQP na região centro oeste do Mato Grosso do Sul, que também contribui na bacia do rio Paraná e consequentemente, na represa de Itaipu.

A Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação está começando a desenvolver esta utilíssima ferramenta para outras regiões do Brasil, comprovando a sua grande aplicabilidade e funcionalidade em prol de um genuíno Sistema Plantio Direto, sustentável em todos os seus aspectos.

Fonte: FEBRAPDP – Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação

Texto originalmente publicado em:
FEBRAPDP - Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação
Autor: FEBRAPDP - Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação

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