Para quem já tem comida no prato, fome pode parecer uma ameaça distante. Mas, para milhões de pessoas no mundo, esta não é a realidade. E quando o assunto é fome, os desafios vão muito além da produção. Ela é impactada por questões da cadeia produtiva, conflitos políticos e pela economia.

A disponibilidade de alimentos para uma nação tem grande relação com três fatores principais: disponibilidade de terras aráveis, água acessível e pressões populacionais. Quanto maior o número de habitantes, especialmente em países subdesenvolvidos com quantidades limitadas de terra e água, mais difícil será de atender as necessidades básicas.

Diante da expectativa de crescimento populacional e do cenário de mudanças climáticas, o modo como conduzimos a produção de alimentos ganha uma atenção muito maior.

Necessidades alimentares e crescimento demográfico

Em 1984 parecia que a taxa de crescimento populacional estava diminuindo em todos os lugares, exceto na África e partes do sul da Ásia. Hoje, a situação está diferente pois a redução das taxas de natalidade tem sido mais lenta do que o esperado.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o crescimento da população global indica que a produção de alimentos precisará aumentar em 70% até 2050, adicionando maior pressão sobre os padrões de qualidade dos alimentos. A FAO também estima que a produção de biocombustíveis até 2030 exigirá 35 milhões de hectares – uma área do tamanho da França e Espanha juntas.

Além disso, a preocupação com a maior produção de alimentos também se dá por atender às necessidades básicas de alimentação das populações que, hoje, enfrentam o problema da fome. Estar com fome significa mais do que apenas perder uma refeição. É uma crise debilitante que atinge mais de 820 milhões de pessoas, adicionados a outros milhões em virtude da pandemia da COVID-19.

A fome é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um desconforto físico de curto prazo, resultante de escassez crônica de alimentos ou, em casos graves, falta de alimentos que ameaça a manutenção da vida.

O mundo ainda está longe de atingir a segunda Meta de Desenvolvimento Sustentável – conhecida como Fome Zero – até 2030. No ritmo atual, cerca de 37 países não conseguirão nem mesmo atingir a baixa fome, conforme Escala de Severidade do Índice Global da Fome (GHI, da sigla em inglês), até 2030.

Índice global da fome

O cálculo do índice Global da Fome (GHI) é baseado nos valores de quatro componentes:

  • subnutrição – parcela da população com ingestão calórica insuficiente;
  • emaciação infantil – parcela de crianças menores de cinco anos com peso baixo para a altura, refletindo desnutrição aguda;
  • nanismo infantil – parcela de crianças menores de cinco anos com baixa estatura para sua idade, refletindo a desnutrição crônica;
  • mortalidade infantil – taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos, refletindo em parte a combinação fatal de nutrição inadequada e ambientes insalubres.

Em países em desenvolvimento, onde a população está se expandindo em um ritmo maior, a produção de alimentos precisará duplicar, conforme previsão da FAO. Mas, regiões desenvolvidas, como a Europa, também precisarão aumentar sua produção para alimentar as populações que crescem em função da maior expectativa de vida e pela imigração.

A agricultura e o desenvolvimento sustentável

Desde o final da segunda guerra mundial, período marcado por uma situação crítica de fome, a questão da segurança alimentar veio à tona com muita força. O mundo investiu em tecnologias que ajudaram a reduzir o problema da escassez de alimentos até que, em 1960, iniciamos a chamada Revolução Verde. Ela alterou o modo como produzimos. Passamos a usar sementes de maior qualidade, fertilizantes e defensivos agrícolas. Com isso, aumentamos a produtividade e os estoques de alimento.

Daqui pra frente, os agricultores de todo o mundo terão que aumentar drasticamente a produção de alimentos para atender à demanda em face das mudanças climáticas, escassez de terra e água e as demandas por dietas mais diversificadas e ricas em proteínas entre populações com rendimentos crescentes.

Em 2050, a demanda anual mundial de milho, arroz e trigo deverá atingir cerca de 3,3 bilhões de toneladas, ou 800 milhões de toneladas a mais do que a safra recorde combinada de 2014. Grande parte do aumento da produção terá de vir das terras agrícolas existentes.

O melhoramento genético e a biotecnologia já vêm há anos desenvolvendo plantas mais produtivas, diminuindo a necessidade de expansão de área. Além disso, o manejo mais sustentável nas propriedades rurais também contribui para o cultivo mais sustentável.

Melhoramento genético e segurança alimentar

Garantir a segurança alimentar tornou-se uma questão fundamental para países com diferentes graus de desenvolvimento econômico, enquanto o setor agrícola desempenha um papel estratégico na melhoria da disponibilidade de alimentos.

O melhoramento de plantas e a adoção de variedades de alto rendimento desempenharam um papel fundamental na redução da fome nos últimos 100 anos. Com isso, essa estratégia continuará sendo essencial para atingirmos a meta de redução da fome.

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À medida que o conhecimento da genética, patologia vegetal e entomologia cresceu durante o século 20, os melhoristas de plantas deram enormes contribuições para o aumento da produção de alimentos em todo o mundo. Houve grandes avanços no cultivo de plantas para milho e trigo, e atividades de pesquisa promissoras para elevar a produtividade em ambientes marginais de produção estão em andamento.

Novas variedades de culturas adequadas – convencionais e geneticamente modificadas – podem aumentar a renda de pequenas propriedades, aliviar a pobreza e estimular o crescimento de toda a economia. Além disso, variedades de culturas biofortificadas poderão reduzir as deficiências de micronutrientes, que são particularmente comuns entre mulheres e crianças.

Já estamos produzindo mais, e melhor

A fome é um problema grave e multifacetado. Mas, precisamos reconhecer o quanto evoluímos e como enfrentamos os desafios até aqui. Nossa agricultura baseada em ciência nos preparou para seguirmos em frente nutrindo pessoas e preservando o planeta.

O melhoramento genético já desenvolveu variedades de milho que aproveitam melhor a água, como controle de entrada e saída de água na célula (ajuste osmótico), prolongamento da fase vegetativa e produção de substâncias protetoras da célula.

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No trigo, por exemplo, que serve como alimento básico, e é usado para fermentar bebidas alcoólicas e na geração de biocombustíveis, os pesquisadores também têm buscado desenvolver plantas que consigam superar alguns desafios da cultura.

Por exemplo, o emprego de variedades resistentes a doenças, rotação de culturas e alternância de defensivos (químicos e biológicos) ajudam a superar epidemias de ferrugem. Sem falar no trigo transgênico, que é tolerante à seca e herbicida.

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Novas técnicas de edição genética ainda poderão trazer maiores rendimentos às colheitas, menor uso de fertilizantes e pesticidas, melhor tolerância das plantas ao estresse climático, redução das perdas pós-colheita e alimentos mais nutritivos.

A conservação e o aproveitamento da biodiversidade também precisam ser levados a sério. A proteção de genes pode garantir novas abordagens e desenvolvimentos de plantas mais produtivas e com características essenciais para a boa nutrição.

Os recursos genéticos vegetais são a base da segurança alimentar e da energia global. É fundamental que esses recursos sejam devidamente preservados e caracterizados para a demanda atual e futura, uma vez que servem de matéria-prima para o melhoramento genético.

Nas tecnologias de manejo, além das melhorias que estão sendo feitas nas plantas,  os produtos fitossanitários também tem contribuído para uma agricultura mais sustentável.

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A pesquisa e o desenvolvimento de novos produtos no setor de defensivos agrícolas é bastante intensa. A especificidade e a segurança passaram a ser as palavras de ordem na busca incansável por produtos cada vez mais sustentáveis. Além disso, os produtos mais modernos são mais rapidamente degradados no meio ambiente e não apresentam efeito acumulativo.

Melhorar, distribuir e não desperdiçar

O futuro da humanidade depende da nossa capacidade de criar um sistema alimentar que apoie pessoas e garanta a sustentabilidade do planeta. Em outras palavras, precisamos promover investimentos em infraestrutura agrícola e serviços de extensão, juntamente com a adoção de medidas destinadas a aumentar o poder de compra das famílias. Tudo isso, empregando tecnologias que promovam a produção agrícola sustentável e diminuam o desperdício de alimentos.

Fonte: CropLife Brasil

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Principais Fontes:

Pawlak K. e Kołodziejczak M., The Role of Agriculture in Ensuring Food Security in Developing Countries: Considerations in the Context of the Problem of Sustainable Food Production. Sustainability, 2020.

Qaim M., Role of New Plant Breeding Technologies for Food Security and Sustainable Agricultural Development. Applied Economic Perspectives and Policy, 2020.

Texto originalmente publicado em:
CropLife Brasil
Autor: CropLife Brasil

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