No sistema plantio direto (SPD), a rotação de culturas é uma prática essencial para a manutenção da produtividade e sustentabilidade do cultivo da soja e demais culturas de interesse econômico. A inserção de plantas de cobertura ou culturas alternativas a soja pode trazer inúmeros benefícios ao sistema de produção, podendo inclusive melhorar atributos químicos e físicos do solo.
Algumas culturas como o milheto estão associadas a rusticidade e maior tolerância a períodos de déficit hídrico, sendo ótimas opções para integrar o sistema de rotação de culturas. No caso particular do milheto, os benefícios vão além da quebra do ciclo de pragas e patógenos. O milheto possui um vasto sistema radicular, o que possibilita a planta, explorar um vasto volume de solo.
Figura 1. Raízes de milheto em comparação a de outros culturas produtoras de grãos e de cobertura.

Conforme destacado por Tiecher (2016), em comparação a outras espécies vegetais frequentemente utilizadas como plantas de cobertura, o milheto se destaca por apresentar um grande acúmulo de matéria secas nas raízes (tabela 1), além de apresentar uma grande porcentagem de raízes finas, as quais se destacam por apresentar maior absorção de água e nutrientes do solo. Assim como a parte aérea da planta, as raízes contribuem significativamente para o amento do teor de nutrientes e matéria orgânica no solo.
Tabela 1. Produção de matéria seca (MS) e acúmulo de carbono (C) e nitrogênio (N) de raízes das principais espécies de plantas de cobertura de solo utilizadas em sistemas de culturas na Região Sul do Brasil.

Braz et al. (2004) avaliando o acúmulo de nutrientes no milheto, observaram que a cultura apresenta um grande e rápido acumulo de nutrientes na parte aérea. Isso se deve principalmente ao vasto sistema radicular e capacidade do milheto em ciclar nutrientes do solo. Sob condições adequadas, sem impedimentos físicos ou químicos, o milheto é capaz de ciclar uma grande quantidade de nutrientes.
Conforme Braz et al. (2004), aos 52 dias após emergência (DAE), os autores puderam observar acúmulo de massa seca do milheto superior a 12.000 kg.ha-1. Esse elevado acúmulo de matéria seca representa em parte, grande capacidade do milheto em cumular nutrientes, os quais posteriormente, através da decomposição e mineralização dos resíduos culturais, estará disponível para a cultura sucessora.
Figura 2. Acumulação de N (a), de P (b) e de K (c) no limbo foliar do milheto, braquiária e mombaça, em função de dias após emergência da planta (DAE).

Cabe destacar que por apresentar uma elevada relação C/N, a decomposição e mineralização da palhada do milheto por ser lenta em comparação a plantas leguminosas (Fabaceae), entretanto, essa persistência da palhada (figura 3) pode resultar em uma liberação gradual de nutrientes, beneficiando a cultura em sucessão.
Figura 3. Matéria seca remanescente das palhadas de milheto e milheto + crotalária, em avaliações realizadas a campo, sob a cultura do feijoeiro, até 72 dias após o manejo.

Foloni et al. (2008) destacam que segundo resultados de pesquisa obtidos por Pereira Filho et al. (2005), o milheto pode ser caracterizado como verdadeira “bomba” recicladora de nutrientes. Os autores destacam que o milheto apresenta elevada capacidade para extrair nutrientes do solo, quando comparada a outras culturas agrícolas, fato atribuído principalmente a sua alta adaptabilidade aos solos tropicais, principalmente sob condições acentuadas de deficiência hídrica.
Quando utilizado em rotação de culturas, por apresentar grande ciclagem de nutrientes, o milheto pode melhorar a fertilidade do solo. Embora parte dos nutrientes ciclados pela cultura se perca em virtude da exportação de nutrientes (grãos) e processos físico-químicos como volatilização e lixiviação, estima-se que 60% a 70% do nitrogênio encontrado na biomassa vegetal é reciclado e novamente absorvido pelas plantas do cultivo seguinte (Braz et al., 2004).
Levando em consideração a grande capacidade do milheto em acumular nutrientes, a decomposição e mineralização dos seus resíduos culturais podem representar uma significativa fonte de nutrientes para a cultura sucessora. Através da absorção de água e nutrientes do solo pelo vasto sistema radicular do milheto e posterior acúmulo em sua biomassa e matéria seca, ocorre a ciclagem dos nutrientes, deixando-os disponíveis em camadas mais acessíveis por culturas de maior interesse econômico como a soja. Logo, pode-se dizer que a rotação de culturas com o milheto pode contribuir significativamente para a melhoria da fertilidade do solo e sustentabilidade das culturas agrícolas em sucessão.
Veja mais: Sorgo – Uma interessante opção para o sistema de rotação de culturas
Referências:
BRAZ, A. J. B. P. et al. ACUMULAÇÃO DE NUTRIENTES EM FOLHAS DE MILHETO E DOS CAPINS BRAQUIÁRIA E MOMBAÇA. Pesquisa Agropecuária Tropical, 2004. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/28435/1/pat34n2Braz.pdf >, acesso em: 13/06/2022.
FOLONI, J. S. S. et al. APLICAÇÃO DE FOSFATO NATURAL E RECICLAGEM DE FÓSFORO POR MILHETO, BRAQUIÁRIA, MILHO E SOJA. R. Bras. Ci. Solo, 32:1147-1155, 2008. Disponível em: < https://www.scielo.br/j/rbcs/a/cTbVf3QjM9KXYxLZSvXQzZH/?format=pdf&lang=pt >, acesso em: 13/06/2022.
TEIXEIRA, C. M. et al. DECOMPOSIÇÃO E LIBERAÇÃO DE NUTRIENTES DAS PALHADAS DE MILHETO E MILHETO + CROTALÁRIA NO PLANTIO DIRETO DO FEIJOEIRO. Maringá, v. 31, n. 4, p. 647-653, 2009. Disponível em: < https://www.scielo.br/j/asagr/a/XNjPp6rtWYCS9Qg6CWnPDqQ/?format=pdf&lang=pt >, acesso em: 13/06/2022.
TIECHER, T. MANEJO E CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA EM PEQUENAS PROPRIEDADES RURAIS NO SUL DO BRASIL: PRÁTICAS ALTERNATIVAS DE MANEJO VISANDO A CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA. UFRGS, 2016. Disponível em: < https://lume.ufrgs.br/handle/10183/149123 >, acesso em: 13/06/2022.
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