Muito provavelmente você já deve ter escutado de alguém, em algum evento técnico alguma palestra, o termo morfolina. Pois bem, o termo morfolina se refere ao nome de um grupo químico de fungicidas. Comumente se faz menção ao termo em função de termos atualmente apenas um ingrediente ativo com registro e uso no Brasil, que é o fenpropimorfe. Até o momento, ao falarmos de morfolina, diretamente estamos nos referindo ao fenpropimorfe que é de fato a molécula fungicida.
Não se trata de um fungicida novo, no entanto ele era mais conhecido em cereais de inverno como trigo e cevada. Devido a comprovação da sua fungitoxidade especialmente sobre Phakopsora pachyrhizi, causador da ferrugem da soja, esse fungicida passou por a ser usado na soja. De acordo com Chechi et al. (2020), com base em testes na planta, o fenpropimorfe apresentou moderada fungitoxidade para nove dos doze isolados de P. pachyrhizi testados, com valores de EC50 variando de 1 a 10 mg L-1.
O trabalho de Jantsch & Neto (2019), avaliando a eficácia de diferentes fungicidas no controle de ferrugem da soja, verificaram que o fenpropimorfe apresentou uma eficácia bastante satisfatória, comparado aos demais fungicidas.Isso ajuda a comprovar a sua ação sobre ferrugem e mostra o seu potencial de uso nessa cultura.
Tabela 1. Eficácia de fungicidas no controle de ferrugem da soja. Fonte: Adaptado de Jantsch & Neto (2019)
Como funciona a morfolina?
A fenpropimorfe é um fungicida inibidor da síntese de ergosterol no fungo, similar aos fungicidas triazóis. No entanto, inibe enzimas diferentes, e por isso, possui mecanismo de ação diferente dos triazóis (FRAC, 2019). Mesma rota ou modo de ação (G), porém sítios-alvos ou enzimas diferentes (1 e 2), dessa forma:
- Triazóis: mecanismo G1
- Morfolina: mecanismo G2
Por terem mecanismos diferentes, um grupo rotaciona para o outro, pois não são afetados pela mesma resistência.
Figura 1. Parte da rota de síntese de ergosterol nos fungos e locais onde inibem os fungicidas. Adaptado de Dupont et al. (2012) e FRAC (2019) |
Saiba Mais!
Ergosterol é um constituinte essencial de membrana celular dos fungos. A não-síntese desse composto afeta a formação de novas membranas, levando o fungo a morte.
Figura 2. Esquema ilustrativo da membrana celular do fungo com a presença de ergosterol na sua constituição. Adaptado de Monteiro & Santos (2019) |
É importante de mencionar que a morfolina é classificada como um fungicida sítio-específico, e por atuar em duas enzimas, o FRAC, 2019 classifica-a como de baixo/médio risco para resistência.
Ë preciso uma atenção especial nesse ponto, pois por essa ação em duas enzimas, muitos confundem com um fungicida multissítio. Entretanto, a morfolina é classificada como fungicida sítio-específico e NÃO como multissítio.
Por apresentar mecanismo de ação diferenciado dos demais fungicidas utilizados em soja, a morfolina constitui uma ferramenta importantíssima no manejo da resistência.
A ação da morfolina sobre o fungo ocorre mais efetivamente após a sua penetração, a nível de micélio. Isso dá a esse fungicida um efeito curativo evidente, similar aos triazóis. Antes da penetração do fungo acredita-se que ele possua reservas de ergosterol no esporo, e por isso esses fungicidas teriam menor ação.
Figura 3. Fases da infecção de Phakopsora pachyrhizi e ação da morfolina. Adaptado de BASF (2020) |
Como se comporta na planta?
O fenpropimorfe se comporta como um fungicida sistêmico na planta. Após absorvido pode ser translocado na folha de um lado para o outro ou no sentido acropetal (base-ápice) através do xilema.
Quais os cuidados no uso?
O fenpropimorfe é um fungicida que tem desempenhado grande contribuição ao manejo de doenças em soja, especialmente a ferrugem e o oídio. Utilizar esse produto de forma racional será fundamental para que ele continue funcionando bem.
A morfolina deve ser sempre utilizada associada a outros fungicidas. Se trata de um produto para reforço das aplicação, que não deve ser usado isolado. Misturas com multissítios ou triazol+estrobilurina tem sido as associações mais comuns no campo.
A morfolina é um fungicida bastante versátil que pode ser utilizado em qualquer momento do ciclo da soja, conforme a necessidade de controle. Pode ser usada no início para reforçar o controle de oídio ou ferrugem, principalmente em épocas de semeadura mais tardias. Ou pode ser usada nas últimas aplicações, especialmente no controle de ferrugem da soja.
Aplicar a morfolina sempre em condições ambientais favoráveis. Evitar aplicações em plantas muito estressadas, em períodos secos e quentes, de baixa umidade e intensa radiação. Nessas condições, há riscos de fitotoxidade à cultura, especialmente nos estágios de formação e enchimento de grãos da soja.
Trabalho realizado pelo grupo de pesquisa da Universidade de Passo Fundo/RS, liderado pela professora Carolina Deuner, teve por objetivo avaliar a performance de fenpropimorfe comparado ao multissítio mancozebe como reforço das últimas aplicações em soja. Os tratamentos descritos abaixo na Figura foram testados no controle da ferrugem asiática.
* Adaptado de Deuner et al. (2017)
Como resultados, os pesquisadores não verificaram diferença na eficiência de controle da ferrugem entre os reforços, com valores de 78 e 79% de controle para T2 e T3 respectivamente. Para rendimento de grãos também não houve diferença entre os tratamentos fungicidas T2 e T3, com valores de 5.262 kg.ha-1 e 5.244 kg.ha-1, respectivamente. Pesquisadores concluíram que tanto o fungicida fenpropimorfe quanto o mancozebe são eficientes no controle de ferrugem asiática da soja como reforços de fungicidas sistêmicos (Deuner et al. 2017).
Sobre o Autor: Leandro N. Marques, Eng. Agrônomo formado na UFSM. Mestrado e Doutorado em Agronomia, na área da fitopatologia (UFSM). Atualmente é professor de fitopatologia na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ).
Foto de capa: Esquema ilustrativo da membrana celular do fungo com a presença de ergosterol na sua constituição. Adaptado de Monteiro & Santos (2019)