Por Dr. Rodolfo Armando A. Pereira, especialista em agrometeorologia da Picsel*
Por muito tempo, o El Niño foi tratado como um evento de resposta única, capaz de definir se a safra brasileira seria boa ou ruim. Chuva acima ou abaixo da média, calor mais intenso ou janela climática mais favorável eram interpretados como um veredito nacional, válido para todo o território e para todas as culturas ao mesmo tempo. Essa leitura já não se sustenta. O clima se tornou uma variável que exige territorialização, e tratar um fenômeno de escala global como se produzisse um único efeito sobre o agronegócio significa ignorar boa parte dos riscos reais que afetam cada operação, do produtor à cooperativa, da trading à seguradora.
Os dados mais recentes confirmam essa complexidade. O Painel El Niño 2026-2027, atualizado em agosto por instituições como INMET, INPE e Cemaden, aponta 100% de probabilidade de o fenômeno permanecer ativo pelo menos até o início de 2027, com 90% de chance de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro deste ano, segundo as previsões da NOAA. Para o trimestre setembro, outubro e novembro a expectativa é de chuvas abaixo da média em grande parte do centro-norte do país, sobretudo Norte, Nordeste e algumas áreas na faixa norte do Mato Grosso e Goiás, enquanto a Região Sul deve registrar volumes acima da média, condição que também pode alcançar o sul de São Paulo e de Mato Grosso do Sul. As temperaturas tendem a ficar elevadas em praticamente todo o território, o que reforça que estamos diante de um cenário heterogêneo, não de uma tendência única.
O próprio comportamento esperado para a agropecuária nesta safra ajuda a entender essa dinâmica na prática. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a tendência de menor volume de chuvas pode até favorecer a colheita de culturas como milho segunda safra e algodão, mas, ao mesmo tempo, intensifica a deficiência hídrica, eleva a demanda por irrigação e dificulta o estabelecimento da safra seguinte. Além disso, no Centro-Oeste, o inicio do período chuvoso pode atrasar e impactar o plantio da primeira safra e consequentemente as áreas destinadas a segunda safra. Já no Sul, o excesso de precipitação pode beneficiar culturas de inverno e favorecer a implantação de milho e soja, recompondo a umidade do solo em áreas que vinham com déficit. Dependendo da fase fenológica das lavouras e da persistência das chuvas, no entanto, esse mesmo cenário também pode elevar a pressão de doenças e comprometer operações mecanizadas no campo.
Esse exemplo revela algo importante. A informação climática só se torna útil quando é convertida em decisão específica, e essa conversão depende de variáveis que uma média nacional não captura, como localização, cultura, fase fenológica, histórico climático da região, disponibilidade hídrica e características do solo. A própria Organização Meteorológica Mundial reforça esse ponto ao destacar que os efeitos de um El Niño dependem de sua intensidade, de sua duração, da época do ano e da interação com outros fenômenos climáticos. Desconsiderar essa granularidade custa caro: resulta em decisões de manejo inadequadas, projeções de safra errôneas e estratégias de proteção desalinhadas com o risco real de cada operação.
A pergunta que o setor deveria fazer, portanto, não é apenas se o El Niño será bom ou ruim para a safra brasileira. É onde, quando, para qual cultura e em qual intensidade determinada condição climática passa a representar risco. Quanto maior a variabilidade associada ao fenômeno, maior a necessidade de contextualizar a informação antes de transformá-la em decisão de plantio, irrigação ou gestão de risco. Modelos mais avançados de análise climática já permitem essa leitura territorializada, simulando cenários e traduzindo tendências globais para a realidade específica de cada região e cultura, o que beneficia diretamente quem está na ponta da produção.
O agronegócio brasileiro continuará exposto a fenômenos climáticos de grande escala, e o El Niño 2026/27 é apenas mais um capítulo dessa realidade. Ampliar a capacidade de interpretar essas previsões de forma territorializada já não é um diferencial técnico, é uma condição para planejar com solidez. A leitura mais útil do clima não é a que apenas descreve uma tendência geral para o país, mas a que consegue traduzir essa tendência para a realidade específica de cada operação, considerando onde ela está, o que produz e em qual momento do ciclo se encontra.
*Dr. Rodolfo Armando A. Pereira é especialista em agrometeorologia da Picsel, deeptech em inteligência de riscos no agronegócio. Bacharel em Ciências Atmosféricas pela UNIFEI, mestre e doutor em Engenharia de Sistemas Agrícolas pela ESALQ/USP, com MBA em Data Science e Analytics pela USP. Atuou como pesquisador colaborador na Embrapa Agricultura Digital, integrando o grupo do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC). Atualmente desenvolve soluções de gestão de risco climático no setor privado, com foco em modelagem de culturas e inteligência agrometeorológica aplicada à tomada de decisão no campo.
Fonte: Assessoria de imprensa




