Os percevejos são as principais pragas sugadoras na cultura da soja.

A incidência dos percevejos anterior a fase de formação dos grãos não é preocupante em questões de perda de produtividade. O problema é a proliferação da praga e aumento populacional elevado, requerendo controle antecipado (Agro Bayer, 2018).

Os sugadores podem causar prejuízos acima de 30% na perda de produtividade em lavouras de soja. 1 percevejo por metro quadrado acarreta em uma redução de 49-120 kg de grãos.ha-1 (Triunfo, 2020). Essa variação de redução de grãos depende da espécie de percevejo, do clima, fase da cultura, cultivar e sua produtividade.

O percevejo verde-pequeno incide na cultura da soja no período de floração. Não possui diapausa, sobrevivendo em plantas hospedeiras na entressafra da soja como alfafa, crotalária, feijão e ervilha (Promip, 2020).

Morfologia e ciclo de desenvolvimento

Os ovos são de coloração escura e dispostos em fileiras duplas nas vagens, na parte ventral ou dorsal das folhas, bem como no caule e nos ramos, esta fase dura em torno de 5 dias.

As ninfas variam de cor. Ninfas pequenas (+/-1mm) têm coloração vermelha e preta. Posteriormente, possuem manchas vermelhas e laterais verdes. No último instar possui pontuações no centro e nas laterais. O período ninfal dura em torno de 21 dias. O adulto possui coloração verde e uma mancha avermelhada na parte dorsal do tórax, próximo à cabeça.

Figura 1. Ninfas pequenas (a e b), ninfa grande(c) e adulto (d) de Piezodorus guildinii

Foto: Maziero (2006).

Danos

Os percevejos incidem na lavoura no início do florescimento (R1), chamado de período de colonização. Na formação das vagens (R3 e R4) e início do enchimento de grãos (R5), a população cresce de forma elevada, sendo a soja mais suscetível ao ataque nesse momento, conhecido como período crítico. A população atinge o pico populacional próximo ao final do enchimento de grãos (R6) e maturação fisiológica (R7) (Ageitec).



P. guildinii é o percevejo que causa os maiores danos de severidade na cultura da soja, pois a picada é mais profunda e a lesão possui tamanho maior.

Figura 2. Danos em gramas de 1 percevejo.dia-1 na cultura da soja.

Se 1 percevejo causa perdas de 0,21g.dia-1 em 1m2, em 1 hectare cada percevejo causará perdas de 2,1 kg.ha.dia-1. Considerando um período de 35 dias, a perda por hectare será de 73,5 kg.ha-1 por percevejo.m2 (Agro Bayer, 2018).

Se alimentam das hastes, ramos, vagens e grãos. Quando atacam hastes e ramos, acarretam em um distúrbio fisiológico e faz com que essas regiões da planta permanecem verdes, enquanto que as vagens secam. O sintoma é conhecido como “soja louca”.

Quando atacam no reprodutivo, ocasionam: (Promip, 2020).

  • Abortamento de grãos ou redução da massa de grãos;
  • Murcha e má formação das vagens;
  • Reduzem o teor de óleo;
  • Diminuem o vigor das sementes;
  • Retardam a maturação;
  • Transmitem patógenos;
  • Redução da qualidade e produtividade de grãos.

Figura 3. Ninfas de P. guildinii atacando as vagens da soja.

Monitoramento

Inicia-se no período de enchimento de grãos (R3) até a maturação fisiológica pelo menos 1 vez por semana (Ageitec). Deve ser realizado através do pano-de-batida vertical (realizar o pano em 1m2).

O número de pontos amostrados varia de acordo com o tamanho da lavoura. A confiabilidade depende do número de amostras realizadas.

Nível de controle

Realiza-se quando forem encontrados 2 adultos ou ninfas de 3° a 5° instar por metro linear. Se a lavoura for destinada a produção de sementes, o nível de controle inicia com 1 percevejo adulto por metro linear. As ninfas grandes (3°, 4° e 5° instar) são consideradas maiores que 0,3 cm (Embrapa, 2019). Essas ninfas causam danos similares aos percevejos adultos.

Controle químico

Agrofit (2020), possui registro de 59 produtos no controle de P. guildinii em soja. Entre os grupos químicos disponíveis estão: neonicotinoide, piretroide, organofosforado, sulfoxamina, fenilpirazol, éter difenílico e metilcarbamato de benzofuranila.

É o principal controle utilizado nas lavouras para percevejos. Recomenda-se pulverizações nas horas mais frescas do dia, pois a movimentação da praga é maior. Em período quentes, buscam proteção no baixeiro da planta. O período crítico inicia em R3 (início do desenvolvimento das vagens ou canivete) e se estende até R7 (maturação). Entretanto, as infestações estão sendo observadas antes do período crítico, acarretando em aplicações antecipadas (Agro Bayer, 2019).

Farias et al., (2006) em sua pesquisa intitulada “EFICIÊNCIA DE TIAMETOXAM + LAMBDA-CIALOTRINA NO CONTROLE DO PERCEVEJO-VERDE-PEQUENO, Piezodorus guildinii (Westwood, 1837) (Hemiptera: Pentatomidae) E SELETIVIDADE PARA PREDADORES NA CULTURA DA SOJA” observaram a eficiência de controle de inseticidas.

Na Tabela 1, notamos que a mistura de neonicotinoide + piretroide é a mais eficiente que os demais inseticidas, obtendo controle >80% em todas as avaliações após a aplicação até os 14 dias.

Tabela 1. Eficiência no controle de percevejo-verde-pequeno.

Adaptado: Farias et al. (2006).

Maziero (2006), reforça em seu trabalho “Inseticidas aplicados com diferentes volumes de calda no controle de Piezodorus guildinii na cultura da soja” a eficiência de controle das misturas neonicotinoides + piretroides.

De acordo com a Figura 4, percebemos mais claramente o efeito da mistura Tiametoxam + Lambda-cialotrina, em que o produto reduz a infestação da população devido, possivelmente, a interação dos produtos, ampliando o efeito residual e de choque, respectivamente.

Figura 4. Controle de P. guildinii após aplicação de inseticidas.

Fonte: Maziero (2006).

Volume de calda

O volume de calda é um dos aspectos fundamentais para o sucesso no controle de pragas. Maziero et al. (2009) relataram em seu trabalho “Volume de calda e inseticidas no controle de Piezodorus guildinii (Westwood) na cultura da soja” que em virtude do aumento da calda, a eficiência de controle também é maximizada.

Na figura 5, podemos observar o efeito do volume de calda nas populações de Piezodorus guildinii. Há uma redução da praga com o aumento de calda.

Figura 5. Volume de calda para controle de percevejos.

Fonte: Maziero (2006).

De acordo com Maziero (2006), o espectro da névoa produzida com volumes maiores possui maior capacidade de penetração, atingindo a parte mediana e baixeira do dossel. Esse fato ocorre, pois, volumes de calda maiores, produzem gotas finas ou muito finas, as quais possuem maior capacidade de penetração nas folhas.

São essas gotas finas (100-200 µm) ou muito finas (30-100 µm) que propiciam maior cobertura no terço médio e no baixeiro da cultura (Antuniasse et al., 2004).

Tecnologia Block

Block é uma tecnologia que está embutida nas sementes de soja e possui germoplasma convencional. Estas sementes são mais tolerantes aos sugadores, em especial aos percevejos. Possui como vantagens, a redução dos custos com inseticidas e uma melhor qualidade dos grãos.

Segundo o líder do programa de melhoramento genético de soja da Embrapa, pesquisador Carlos Arrabal Arias, a Tecnologia Block aumenta a proteção das lavouras aos insetos que sugam as vagens. Entretanto, a tecnologia não descarta a utilização de inseticidas, apresentando maior tolerância aos sugadores (Embrapa, 2019).

Esta ferramenta é de fundamental importância para o Manejo Integrado de Pragas (MIP). Além disso, de acordo com Arias, possui moderada resistência ao nematoide de galha Meloidogyne javanica e resistência às principais doenças da soja (cancro da haste, mancha olho-de-rã e podridão radicular de fitóftora).


Veja também: Tecnologia Block: maior tolerância aos percevejos na soja


A primeira cultivar de soja com a Tecnologia Block é a BRS 1003IPRO indicada para os estados do Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais.

Considerações finais

O percevejo Piedozodus guildinii é o mais danoso na cultura da soja devido a picada mais profunda e a lesão possuir maior tamanho.

Os danos causados por percevejos reduzem consideravelmente a produção de grãos da soja. Incidem na lavoura no início da fase reprodutiva e logo se reproduzem na cultura. É imprescindível o monitoramento constante da praga, pois só desta forma saberemos o momento certo para entrada de inseticidas.

Observamos em diferentes trabalhos que a mistura de neonicotinoide + piretroide apresenta eficiência de controle para a P. guildinii.

Ainda, volumes de calda maiores também maximizam a eficácia devido as gotas finas ou muito finas penetrarem na folha da soja em regiões da planta difíceis de serem atingidas.

Outra alternativa é a adoção da Tecnologia Block, entretanto, mesmo aumentando a proteção contra percevejos, não se descarta a utilização de defensivos.

Referências

Agro Bayer Brasil. 3 Dicas para controle de percevejos na soja. Disponível em: < https://www.agro.bayer.com.br/conteudos/news-bucket/2019/08/12/19/53/3-dicas-controle-percevejos-soja>. Acesso em: 13.04.2020

Agro Bayer Brasil. Percevejo Verde Pequeno. Disponível em: < https://www.agro.bayer.com.br/alvos/percevejo-verde-pequeno#tab-4>. Acesso em: 13.04.2020

AGEITEC. Complexo de percevejos sugadores de grãos. Disponível em: <https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/soja/arvore/CONT000fznzu9ib02wx5ok0cpoo6auodk2cy.html>. Acesso em: 13.04.2020

AGROFIT. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Disponível em: < http://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons>. Acesso em: 13.04.2020

ANTUNIASSI, U. R. et al. Avaliação da cobertura de folhas de soja em aplicações terrestres com diferentes tipos de pontas. Simpósio internacional de tecnologia de aplicação de agrotóxicos, v. 3, p. 48-51, 2004.

EMBRAPA. Maior eficiência no monitoramento dos percevejos da soja, 2005. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/109881/1/folder-percevejo.pdf >. Acesso em: 13.04.2020

EMBRAPA. Eficiência de inseticidas no controle do percevejo-marrom (Euschistus heros) em soja, na safra 2018/2019: resultados sumarizados de ensaios cooperativos. Circular técnica 154, Londrina – PR, 2019. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/205139/1/CT1543.pdf>. Acesso em: 13.04.2020

EMBRAPA. Embrapa lança Tecnologia Block de tolerância a percevejos na soja. Disponível em: < https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/44394590/embrapa-lanca-tecnologia-block-de-tolerancia-a-percevejos-na-soja >. Acesso em: 13.04.2020

FARIAS, Juliano Ricardo et al. Eficiência de tiametoxam+ lambda-cialotrina no controle do percevejo-verde-pequeno, Piezodorus guildinii (Westwood, 1837)(Hemiptera: Pentatomidae) e seletividade para predadores na cultura da soja. Revista da FZVA, v. 13, n. 2, 2006.

MAZIERO, Heleno. Estudo de tecnologias de aplicação e inseticidas para o controle de percevejos fitófagos na cultura da soja. 2006.

MAZIERO, Heleno et al. Volume de calda e inseticidas no controle de Piezodorus guildinii (Westwood) na cultura da soja. Ciência Rural, v. 39, n. 5, p. 1307-1312, 2009.

PROMIP. Percevejo verde pequeno ​da soja – ocorrência e danos, 2020. Disponível em: <https://promip.agr.br/percevejo-verde-pequeno-soja/>. Acesso em: 13.04.2020

TRIUNFO. Percevejo pode provocar perda de até 30% na cultura da soja. Disponível em: < https://www.sementestriunfo.com.br/single-post/2020/01/27/percevejo-na-cultura-da-soja>. Acesso em: 13.04.2020.

Redação: Equipe Mais Soja.

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