Recentemente o MAPA divulgou uma portaria com 40 pragas eleitas como prioridades para registro e alteração de registro de agrotóxicos em 2019, e a Spodoptera frugiperda (lagarta-do-cartucho ou lagarta militar) ocupa  posição de destaque na cultura da soja. Para acessar a portaria clique aqui.

Ocorrendo em uma série de culturas, a lagarta militar possui grande destaque nas lavouras de milho, soja e algodão, que são largamente cultivadas no Brasil e possuem grande influência socioeconômica no território nacional. Endêmica no Hemisfério Ocidental, essa praga tem como hospedeiro principal a cultura do milho, no entanto espécies de Spodoptera assumem importância cada vez maior na cultura da soja (Bueno et al. 2010).



Em algumas áreas de soja do sul do Brasil, foi verificada a ocorrência de grandes populações da praga em estádios reprodutivos R5 e R6 de soja, desfolhando as plantas e em alguns casos atacando as vagens (Guedes et al. 2011). As lagartas de S. frugiperda alimentam-se inicialmente das folhas, passando depois a consumir também vagens na fase inicial de formação.

Saiba mais sobre a praga

Os problemas com esse inseto-praga foram agravados na medida em que houve evolução da resistência aos inseticidas e modificações no sistema de produção de cultivos. Com a intensificação da agricultura, os cultivos sucessivos possibilitam a sobrevivência de elevadas populações de S. frugiperda e o fluxo contínuo de mariposas entre culturas hospedeiras, que ocasionam grandes infestações da praga, independentemente da fase de desenvolvimento das plantas e época de cultivo.

As larvas de 1º instar são inicialmente de coloração clara, passando para pardo-escuro até quase preta dependendo da idade. Apresentam um “Y” invertido na parte frontal da cabeça. O período larval varia de 15 a 25 dias, com 4 a 7 instares dependendo da temperatura, planta hospedeira, sexo e biótipo. As pupas são de coloração marrom-avermelhada e ficam abrigadas no solo. Após aproximadamente 10 dias de período de pupa ocorre a emergência dos adultos.



Os adultos são mariposas com alta mobilidade, medindo em torno de 4 cm de envergadura, com as asas anteriores de coloração cinza escuro e posteriores branco acinzentadas. As fêmeas apresentam elevado potencial reprodutivo, com capacidade de ovipositar mais de 1000 ovos. O ciclo de ovo a adulto é relativamente curto de 25 a 30 dias, dependendo da temperatura. A longevidade dos adultos é de aproximadamente 12 dias.

A matéria relacionada pode ser acessada aqui.

Danos

Os danos ocasionados por S. frugiperda têm variado em torno de 18% até 38,7% na cultura da soja, dependendo da planta e de seu desenvolvimento fenológico (Barros et al. 2010). A ocorrência da praga na cultura vem aumentando principalmente em função da diversidade de hospedeiros e provavelmente pelo aumento de plantio de cultivares de milho transgênico, embora ainda seja considera esporádica na cultura.

Na figura 1 abaixo pode-se observar os estádios de maior ocorrência de S. frugiperda na cultura da soja, além de outras pragas que também afetam a cultura.

Fonte: Sementes Agroceres – Manual de pragas do milho, soja e algodão.

Na fase vegetativa da soja, durante o dia essas lagartas são encontradas no solo, com comportamento semelhante à lagarta-rosca, à noite onde a temperatura é amena ou mesmo em dias nublados as lagartas saem do solo para a superfície afim de se alimentar, e muitas vezes atacam cotilédones e folhas de plantas recém emergidas. No período reprodutivo da soja também assumem posição de dano, consumindo parte da área foliar e vagens das plantas. Quando a praga ataca a cultura na fase inicial, pode reduzir significativamente o estande de plantas e causar um dano direto e irreversível à cultura da soja.

Trabalhos feitos pelo INTA – National Agricultural Technology Institute (acesse aqui) apresentaram o consumo de lagartas desfolhadoras em soja, onde os resultados mostram a voracidade de quatro espécies que afetam a cultura, incluindo S. frugiperda.

Tabela 1. Consumo de área foliar cm² em diferentes lepidópteros em soja em toda sua vida larval.

Fonte: Molinari, 2010.

Dessa forma, embora não seja tão expressiva, as lagartas do gênero Spodoptera são danosas ao cultivo de soja, e sua infestação dependendo da fase da cultura prejudica o stand de plantas e o rendimento final da cultura, dois fatores extremamente importantes para o retorno financeiro da lavoura, o que implica diretamente no bolso do produtor. Portanto, mesmo que inexpressiva é importante que o monitoramento seja feito e que sua presença seja cogitada em todas as safras.



Tecnologia Intacta®

A soja Intacta® surgiu no mercado como uma tecnologia importante para o manejo de pragas nos sistemas agrícolas. A biotecnologia consiste basicamente em inserir gene Cry1Ac no DNA das plantas de soja, o qual expressa a proteína Cry1Ac, um potente inseticida no controle de diversas espécies de lagartas.

Contudo, atualmente o complexo Spodoptera não é controlado pela tecnologia RR disponível no mercado. Para tanto, visto que os danos do complexo Spodoptera são facilmente confundidos com o de outras lagartas, é imprescindível que medidas de localização e reconhecimento da praga sejam realizadas, juntamente com a quantificação dos danos. 

Um trabalho que mostra a implicação da tecnologia Intacta® (ou Bt), feito na Unisinos (confira o trabalho acessando aqui) mostra que lagartas de S. eridania alimentadas com cultivares de tecnologia RR ou Bt e expostas ao parasitismo de Dolichozele sp. foram satisfatoriamente controladas pelo parasitoide. Contudo, o Bt como único controle não foi eficiente.

Confira a matéria completa acessando aqui.

Controle

Não tem sido uma tarefa fácil controlar S. frugiperda, os inseticidas, com frequência têm apresentado falhas de controle, devido ao aumento de indivíduos resistentes no campo, em consequência da pulverização de inseticidas com mesmo mecanismo de ação. Nessa situação, a efetiva implementação de estratégias de manejo da resistência é de extrema importância para garantir a durabilidade de qualquer tática de controle.

Na tabela 3 abaixo pode-se observar o nível de ação considerado para Spodoptera frugiperda em soja.

Fonte: Sementes Agroceres – Manual de pragas do milho, soja e algodão.

Vale ressaltar que esse nível de ação é considerado apenas para o estádio reprodutivo, contudo, visto o aumento da ocorrência da praga nos estádios mais iniciais, recomenda-se os seguintes níveis de controle:

  • Vegetativo – Desfolha: nível de ação é de 30% de desfolha;
  • Reprodutivo Desfolha: nível de ação é de 15% de desfolha;
  • Reprodutivo Legumes: 10 lagartas por metro ou 10% dos legumes atacados;
  • Considerando a amostragem pelo método da batida de pano para contagem de insetos, o nível de ação é de 20 lagartas grandes (>1,5 cm) por metro.

Outro fator importante que deve ser considerado é o período de chuvas mais escassas, que são mais propensos ao aparecimento de lagartas do gênero Spodoptera.

Manejo da resistência

Para o manejo da resistência de de S. frugiperda a inseticidas são necessárias diversas práticas, como as que seguem abaixo:

  • Permitir períodos com ausência de plantas hospedeiras da praga, para assim reduzir a pressão de seleção em favor dos resistentes;
  • Recomenda-se o uso de rotação de inseticidas com diferentes mecanismos de ação;
  • Usar as doses recomendadas no rótulo ou bula de cada inseticida e priorizar o uso de inseticidas seletivos para a preservação de inimigos naturais;
  • Implementação de áreas de refúgio efetivas para a preservação da suscetibilidade da praga as proteínas de Bt e, consequentemente da durabilidade dessas tecnologias para o MIP;
  • Estabelecer essas estratégias de manejo em âmbito regional, já que a praga possui alta mobilidade;
  • Planejar o sistema de produção de cultivos (rotação de culturas) da propriedade para garantir um período do ano sem plantas hospedeiras de S. frugiperda.

Dessa maneira, conhecer seu ciclo, realizar o MIP e medidas preventivas são as formas mais eficazes de controle desse tipo de lagarta, juntamente com um bom planejamento agrícola. Com essas informações, sem dúvida, o agricultor dispõe de uma ferramenta a mais para auxiliar na tomada de decisão do momento ideal de realizar o manejo de controle da lagarta militar, podendo assim potencializar o rendimento de sua lavoura.

Elaboração– Andréia Procedi- Equipe Mais Soja. 

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