A composição da população de lagartas associada à cultura da soja apresenta uma variação constante no espaço e no tempo, de acordo com a adoção de diferentes práticas culturais e de manejo fitossanitário. Nos últimos anos, o manejo de pragas desfolhadoras da soja no Brasil tem se caracterizado pelo aumento da população de lagarta-falsa-medideira (Chrysodeixis includens) e redução da população de lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis). Essa modificação na proporção de espécies está relacionada às várias mudanças de manejo verificadas entre os anos 1970 e 2010, incluindo introdução de novas variedades, alterações nos sistemas de cultivo, modificações no uso de inseticidas, herbicidas e fungicidas.
Segundo Guedes et al. (2015), nos anos 1970 e 1980 a lagarta-da-soja (A. gemmatalis) era a espécie com maior ocorrência (70 a 90 % da população de lagartas), enquanto a lagarta-falsa-medideira (C. includens) representava apenas 10 a 30 % dessa composição, sendo considerada uma praga secundária com ocorrência regionalizada (Figura 1). Nesse período, acredita-se que o número de inimigos naturais que atacavam C. includens era maior do que os que atacavam A. gemmatalis (HEINRICHS & SILVA, 1975), o que pode explicar esta maior ocorrência. Além disso, o número de pulverização por ciclo da cultura era menor, havendo ainda poucos inseticidas disponíveis para o controle de lagartas desfolhadoras.
Figura 1. Composição da população de lagartas nos anos 1982 e 2015 na cultura da soja, no Brasil.

Já entre os anos 1990 e 2010, ocorreram as principais mudanças fitossanitárias que modificaram a dinâmica das espécies de lagartas na soja, resultando no aumento da ocorrência de falsa-medideira (C. includens). Neste período, a proporção de falsa-medideira passou a oscilar entre 30 e 80 %, enquanto a ocorrência de lagarta-da-soja reduziu para 20 a 49 %. Além disso, foram observadas as primeiras ocorrências de lagartas do complexo Spodoptera em soja, entre 2009 e 2010 (GUEDES et al., 2015).
De acordo com amostragens realizadas pelo LabMIP-UFSM em 2015, a composição da população de lagartas nas principais regiões produtoras de soja do Brasil encontra-se completamente alterada, comparada às décadas anteriores. Observou-se um crescimento vertiginoso da população de C. includens (Figura 2), chegando a representar 65 % do total de lagartas coletadas em soja, ao passo que A. gemmatalis vem reduzindo sua importância a cada ano.
Figura 2. Lagarta-falsa-medideira, Chrysodeixis includens.

Dentre as possíveis causas apontadas para esta alteração, destaca-se a maior suscetibilidade da lagarta-da-soja à maioria dos inseticidas utilizados e também às cultivares de soja Bt, representando atualmente apenas 26 % da população de lagartas (Figura 1). Além disso, dentre as amostras coletadas em 2015, a lagarta Helicoverpa armigera (registrada pela primeira vez na safra 2013/2014) já representava uma média de 2 % de ocorrência e com indicativos de aumento nas safras seguintes, embora sendo uma espécie suscetível aos inseticidas do grupo das diamidas e às cultivares de soja Bt.
Portanto, a conjunção desses fatores permite concluir que as espécies A. gemmatalis (lagarta-da-soja) e H. armigera vão permanecer proporcionalmente dominadas pela lagarta-falsa-medideira nos próximos anos, de modo que essa praga irá demandar os maiores recursos para seu controle, tanto pelo número de pulverizações e variedade de tratamentos utilizados, quanto pelo custo destas aplicações na cultura da soja.
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Revisão: Prof. Jonas Arnemann, PhD. e coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM
Referências:
GUEDES, J. V. C. et al. Lagartas da soja: das lições do passado ao manejo
do futuro. Revista Plantio Direto, v. 144, p. 6–18, 2015.
PERINI, C. R. et al. Ocorrência e manejo de pragas em soja Bt e não Bt no sul da América do Sul. Revista Plantio Direto, v. 175, p. 21-31, 2020.
POZEBON, H. et al. Arthropod invasions versus soybean production in Brazil: a review. Journal of Economic Entomology, v. 113, n. 4, p. 1591–1608, 2020.