Entre as várias pragas que atacam as plantas de soja, destacam-se os percevejos, devido aos elevados níveis populacionais que podem atingir e, por se alimentarem diretamente dos grãos, propiciam a transmissão de doenças e reduzem a qualidade das sementes. O percevejo-marrom, Euschistus heros, é a espécie mais abundante e prevalente em lavouras de soja da região neotropical, desencadeando frequentes pulverizações de inseticidas para evitar perdas econômicas significativas.

O controle químico dessa praga, em muitas circunstâncias, se impõe como o único método capaz de evitar perdas econômicas de produção, com rapidez e facilidade. Para o controle dessa praga, geralmente os agricultores utilizam-se de inseticidas de amplo espectro como organofosforados, piretroides e neonicotinoides. Porém, seu uso intensivo acarreta diversos problemas, tais como resíduos nos alimentos, intoxicação de aplicadores, aparecimento de populações de insetos resistentes, ressurgência e desequilíbrio populacional dos insetos benéficos, que funcionam como agentes de controle natural. Portanto, a sustentabilidade dos cultivos de soja é dependente do desenvolvimento de estratégias de manejo de pragas menos nocivas, como o controle biológico e o emprego de agrotóxicos seletivos.

Os parasitoides de ovos são considerados os principais inimigos naturais de percevejos-praga em muitos cultivos. Por exemplo, somente na cultura da soja é relatado o emprego de parasitoides de ovos de percevejos em 0,03 milhão de hectares na América do Sul em programas de controle biológico. Telenomus podisi é o parasitoide mais eficiente de ovos do percevejo-marrom e percevejo verde-pequeno, que são as espécies mais prejudiciais aos cultivos de soja no Brasil. No Brasil, T. podisi é encontrado nas principais regiões produtoras de soja, do Centro-Oeste ao extremo Sul.

Apesar de o controle biológico ser de elevada importância para o manejo integrado de pragas (MIP), por possibilitar a manutenção das populações de pragas abaixo de níveis de dano econômico, o controle químico é essencial para o controle efetivo e rápido não somente de percevejos como de outros organismos daninhos na cultura da soja. Em vista disso, agrotóxicos que sejam eficazes contra pragas e minimamente tóxicos a inimigos naturais devem ser preferidos.

Em vista disso, salientamos que a escolha de inseticidas para o controle de pragas em programas de MIP não deve se basear apenas na eficiência agronômica (eficiência do produto no controle de pragas), mas também no menor impacto sobre os inimigos naturais. No entanto, até o momento, informações sobre a seletividade de inseticidas tem sido desconsideradas na seleção de agrotóxicos para o controle de pragas agrícolas no Brasil, visto que essas informações não se encontram facilmente acessíveis aos agricultores, como na bula/rótulo dos produtos ou mesmo no Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários (Agrofit) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Basicamente, o objetivo da nossa pesquisa foi ajudar a preencher essa lacuna. Nosso estudo determinou os impactos de inseticidas tradicionalmente empregados em cultivos de soja no Brasil sobre E. heros e seu parasitoide T. podisi, por meio de estudos de toxicidade aguda letal, e explorou, também, os efeitos subletais desses inseticidas no parasitoide de modo a identificar àqueles agrotóxicos mais efetivos no controle da praga e mais seletivos ao inimigo natural.

Avaliou-se, sobre o percevejo-marrom e seu parasitoide T. podisi, a toxicidade letal de cinco formulações comerciais de inseticidas registrados para o controle de E. heros na cultura da soja e amplamente empregados no manejo de percevejos na cultura: i) acefato (Orthene® SP; 75,0% i.a.; Arysta Lifescience do Brasil Indústria Química e Agropecuária Ltda, São Paulo, SP, Brasil); ii) imidacloprido (Imidacloprid Nortox® SC; 48,0% i.a.; Nortox S/A; Arapongas, PR, Brasil); iii) zeta-cipermetrina (Mustang 350® EC; 35,0% i.a.; FMC Química do Brasil Ltda, Campinas, SP, Brasil); iv) acetamiprido + fenpropatrina (Bold® EW; 7,5 + 11,25 i.a.; Iharabras S.A. Indústrias Químicas, Sorocaba, SP, Brasil); v) tiametoxam + lambda-cialotrina (Engeo PlenoTM SC; 14,1 + 10,6 i.a.; Syngenta Proteção de Cultivos Ltda, São Paulo, SP, Brasil).

Também, foi avaliada a toxicidade subletal dos inseticidas sobre o parasitoide T. podisi, determinando os impactos da contaminação com os inseticidas sobre o comportamento de parasitismo de ovos do percevejo-marrom, na emergência, na razão sexual e na longevidade dos parasitoides descendentes. Com base nisso, determinou-se o quociente de risco desses compostos químicos. O quociente de risco é uma importante medida de toxicidade que avalia o risco de pulverizações de agrotóxicos sobre organismos não-alvo no campo, pois considera a dose recomendada para o controle da praga.

Isso é importante, pois os parasitoides adultos podem ser expostos diretamente a gotas de inseticidas durante a pulverização ou indiretamente pelos resíduos tóxicos remanescentes no dossel vegetal, em gotas de água, néctar ou honeydew, mostrando-se mais sensíveis aos efeitos dos agrotóxicos que suas fases imaturas, que desenvolvem-se de modo protegido pelo córion do ovo do hospedeiro.

Foto: Deise Cagliari

Essa medida foi utilizada pela primeira vez para avaliar o risco ecológico de aplicações de inseticidas para o controle de E. heros sobre o parasitoide de ovos T. podisi. Ainda, foi estabelecido o grau de adequação agronômica, toxicológica e ambiental para esses inseticidas como recomendação para escolha do produto mais apropriado no manejo integrado de E. heros. Esse método segue padrões de praticabilidade agronômica, toxicológicos e ambientais, considerando na recomendação informações do produto comercial referente a toxicidade sobre a praga (eficiência de controle), a toxicidade sobre inimigos naturais (seletividade), a classe toxicológica (bula/rótulo), a classe ambiental (bula/rótulo) e o intervalo de segurança (bula/rótulo). É importante destacar que o método foi recentemente proposto para a escolha de agrotóxicos registrados para utilização nas culturas do arroz, milho e soja no Sul do Brasil, a fim de proporcionar informações completas sobre agrotóxicos para que a escolha permita aliar um efetivo desempenho de controle das pragas, com mínimo impacto sobre o agroecossistema e agentes relacionados.

Resumidamente, comentarei agora os principais resultados obtidos nesse estudo.

A ordem de toxicidade aguda letal (alta-baixa) para o percevejo-marrom para os cinco inseticidas foi a seguinte: tiametoxam + lambda-cialotrina > acetamiprido + fenpropatrina > zeta-cipermetrina > acefato > imidacloprido. Neste estudo, o percevejo-marrom da soja foi mais suscetível ao efeito tóxico residual de neonicotinoides e piretroides formulados em mistura (tiametoxam + lambda-cialotrina e acetamiprido + fenpropatrina), com concentração letal mediana suficiente para matar 50% dos percevejos (CL50) de aproximadamente 72, 318 e 445, 2,5, 11 e 15 vezes menor que os de zeta-cipermetrina (piretroide), acefato (organofosforado) e imidacloprido (neonicotinoide), respectivamente.

Inseticidas formulados em mistura estão registrados e são atualmente empregados no controle do percevejo-marrom em lavouras de soja. Essas pré-misturas permitem maior espectro de ação e a atuação em diferentes sítios toxicológicos da praga, pois normalmente contém um inseticida do grupo químico neonicotinoide, que é sistêmico na planta com ação no inseto por contato e principalmente por ingestão de tecidos ou seiva de vegetais, e um piretroide, de ação por contato com o tegumento do inseto predominante, e também ingestão.

É válido destacar, ainda, que as concentrações recomendadas para o controle de E. heros no campo apresentam-se cerca de 20, 2, 8, 26 e 409 vezes maiores que as CL50 de acefato, imidacloprido, zeta-cipermetrina, acetamiprido + fenpropatrina e tiametoxam + lambda-cialotrina, respectivamente. Isso significa que além das menores concentrações para matar 50% da população do percevejo determinadas para acetamiprido + fenpropatrina e tiametoxam + lambda-cialotrina, as concentrações de registro desses inseticidas aplicadas no campo são muito superiores que as respectivas CL50 obtidas nesse trabalho, indicando uma possível maior segurança para o controle mais efetivo de E. heros.

Além disso, observou-se que a ordem de toxicidade aguda letal (alta-baixa) para o parasitoide de ovos foi a seguinte: tiametoxam + lambda-cialotrina > imidacloprido > acetamiprido + fenpropatrina > zeta-cipermetrina > acefato.

A classificação baseada no quociente de risco demonstrou que acefato, imidacloprido, zeta-cipermetrina, acetamiprido + fenpropatrina e tiametoxam + lambda-cialotrina enquadraram-se na categoria 2, isto é, levemente a moderadamente tóxicos ao parasitoide de ovos.

A respeito da toxicidade subletal dos inseticidas ao parasitoide de ovos, isto é, quando os parasitoides foram contaminados com a concentração letal mediana (CL50), que, como anteriormente explicado, corresponde a concentração letal suficiente para matar 50% dos parasitoides, evidenciou-se que os inseticidas provocaram uma redução no parasitismo de ovos do percevejo-marrom inferior a 15%, classificando-se como inócuos ao parasitismo de ovos realizado por T. podisi.

Por outro lado, observou-se que o desenvolvimento dos descendentes gerados pelos parasitoides contaminados pelos inseticidas foi afetado por pelo menos um dos inseticidas. Imidacloprido e os inseticidas pré-formulados em mistura reduziram a emergência dos parasitoides em até 40%, enquanto zeta-cipermetrina e os inseticidas pré-formulados em mistura reduziram a longevidade dos parasitoides.

Por fim, a ordem preferencial para escolha dos inseticidas visando o controle de E. heros segundo o grau de adequação agronômica, toxicológica e ambiental foi: tiametoxam + lambda-cialotrina > zeta-cipermetrina > acetamiprido + fenpropatrina > acefato > imidacloprido.

De acordo com os resultados desse estudo, ficou evidente que a toxicidade aguda letal e os efeitos subletais de acefato, imidacloprido, zeta-cipermetrina, acetamiprido + fenpropatrina e tiametoxam + lambda-cialotrina mostraram-se, de certo modo, elevados ao parasitoide de ovos, sendo importante o emprego desses inseticidas para o controle do percevejo-marrom somente em densidade populacional causadoras de dano econômico na cultura da soja, como estratégia de preservação dos parasitoides no agroecossistema.

No âmbito do MIP em soja, as informações obtidas nesse estudo apresentam-se como uma etapa importante e pioneira na identificação de inseticidas preferenciais para o controle efetivo de E. heros em lavouras de soja brasileiras com menor risco sobre organismos benéficos, como o parasitoide de ovos T. podisi.

Autores: Nossa pesquisa é coordenada pelo professor Titular Dr. Anderson Dionei Grützmacher e realizada no Laboratório de Manejo Integra do de Pragas (LabMIP), da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel, da Universidade Federal de Pelotas. Esse laboratório é referência no estudo da seletividade de agrotóxicos a inimigos naturais no sul do Brasil, recebendo estudantes de graduação, mestrado e doutorado de todo o mundo. Esse trabalho contou com a colaboração de Juliano B. Pazini, Aline C. Padilha, Deise Cagliari, Flávio A. Bueno, Matheus Rakes, Moisés J. Zotti, José F. da S. Martins, Anderson D. Grützmacher.

Os resultados completos desse estudo podem ser gratuitamente acessados através do seguinte endereço eletrônico: Clique aqui!

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