O risco climático do milho segunda safra, também conhecido como “milho safrinha”, é fortemente influenciado pela data de semeadura e pelo ciclo da cultura da soja antecedente. No Brasil, a variabilidade climática é significativamente modulada pelo fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS). Em geral, durante a fase quente (El Niño), há maior ocorrência de chuvas acima da média no Centro-Sul do país, enquanto nas regiões Norte e Nordeste as precipitações tendem a ficar abaixo da média. O oposto ocorre durante a fase fria (La Niña), quando o Centro-Sul enfrenta chuvas abaixo da média e o Norte/Nordeste apresentam volumes acima do normal.
Devido a essa influência sobre o regime de chuvas, o índice ENOS pode ser utilizado como um indicador para definir épocas de semeadura com menor risco climático no sistema de sucessão soja/milho.
Utilizando modelos de simulação de cultura que consideram a disponibilidade hídrica e térmica ideal para o crescimento e desenvolvimento da soja e do milho, foi conduzido um estudo com o objetivo de determinar a janela de semeadura ideal para maximizar a produtividade de ambas as culturas em diferentes municípios brasileiros (Figura 1).
Figura 1. Faixas ótimas de semeadura para a soja, considerando a sucessão de soja e milho segunda safra durante as fases La Niña (A) e El Niño (B), em diferentes locais no Brasil.

Observa-se que a época ideal de semeadura para altas produtividades em sistema de sucessão soja/milho varia de acordo com a fase do ENOS. Por exemplo, em anos de El Niño, o período ótimo de semeadura da soja tende a se estender na região Sul do país, enquanto se encurta no Norte. Já em anos de La Niña, essa janela se torna mais restrita no Sul do Brasil.
Como exemplo, no município de Campo Mourão (PR), não há recomendação para a sucessão soja/milho segunda safra em anos de La Niña. No entanto, em anos de El Niño, é possível realizar a semeadura do milho segunda safra com baixo risco climático entre 21 de setembro e 1 de dezembro.
Compreender o impacto do atraso na semeadura sobre a produtividade é fundamental para o planejamento agrícola. A Figura 2 apresenta as anomalias de produtividade do milho segunda safra conforme a fase do ENOS. Nota-se que, em anos de La Niña, o risco de perdas de produtividade é mais elevado em regiões situadas em torno de 20°S de latitude. Em contrapartida, nos anos de El Niño, as regiões com latitudes inferiores a 5°S apresentam maior vulnerabilidade a perdas produtivas quando ocorre atraso na semeadura.
Figura 2. Anomalias de produtividade da segunda safra de milho durante os anos de La Niña, Neutro e El Niño em relação à produtividade média geral para cada data e local de semeadura, representada por sua latitude no Brasil. As anomalias de produtividade de milho segunda safra foram obtidas subtraindo-se a produtividade média de cada data e local de uma determinada fase do ENOS a partir da produtividade média geral para a respectiva data e local de semeadura.

Referências Bibliográficas
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PILECCO, I. B. et. al. Ecofisiologia do milho visando altas produtividades. Santa Maria, ed. 2, 2024.