O mercado brasileiro de trigo foi caracterizado por um ritmo lento e uma transição gradual de fundamentos durante janeiro, operando com baixa fluidez e negociações pontuais que refletiram a cautela dos compradores e a postura defensiva dos vendedores. De acordo com o analista e consultor de Safras & Mercado, Elcio Bento, os moinhos iniciaram o período bem abastecidos, mantendo-se focados apenas em negócios de oportunidade, o que resultou em um ambiente de baixa liquidez, especialmente no Paraná, onde as referências para novos negócios foram escassas no início do mês.

Ao longo do mês, conforme Bento, o Rio Grande do Sul teve uma perda de tração na demanda e o esgotamento da competitividade das exportações, com preços portuários ao redor de R$ 1.130,00 por tonelada que deixaram de ser atrativos frente ao mercado externo pressionado.

“Esse patamar de preço já não remunera adequadamente a operação exportadora, fazendo com que esse canal deixe de funcionar como válvula de escape para o excedente interno, algo particularmente sensível em anos de maior oferta regional”, explicou o analista..

De acordo com Bento, a paridade de importação consolidou-se como o principal balizador para a formação de preços domésticos, funcionando como um teto para as cotações, uma vez que o trigo nacional se mantinha competitivo. Porém, limitado pela ampla disponibilidade no mercado internacional.

No interior do Paraná, as negociações orbitaram os R$ 1.200/t, enquanto no Rio Grande do Sul as indicações variaram entre R$ 1.050 e R$ 1.100/t FOB, patamares que Bento associou à necessidade de os preços buscarem as linhas de paridade com o produto estrangeiro. O analista observou que, mesmo com a redução da produção nacional em relação a ciclos recordes, a dependência externa segue elevada.

No cenário externo, a safra recorde da Argentina teve papel central na formação de preços, mas com uma característica que tem alterado a dinâmica do mercado. Segundo o analista, o clima chuvoso reduziu o teor de proteína do trigo argentino, com registros entre 8% e 9% em algumas regiões.

“Essa oferta volumosa de trigo de baixa proteína elevou os prêmios para lotes com qualidade industrial superior e obrigou os moinhos brasileiros a acompanhar de perto os spreads de qualidade e a buscar trigos melhoradores em outras origens”, afirmou.

No fim de janeiro, as indicações argentinas para embarques futuros permaneciam altamente competitivas, com trigo de 11,5% de proteína cotado entre US$ 212 e US$ 220 por tonelada FOB para os meses seguintes.

De acordo com Bento, janeiro foi marcado por um ambiente de acomodação e maior seletividade nas compras. O mês teve volatilidade limitada pela ausência de urgência da indústria e por estoques confortáveis.

“O mercado brasileiro deve atravessar o ano sob um regime de transição gradual de fundamentos, no qual o primeiro semestre ainda será amplamente influenciado pelos vetores da temporada 2025/26, enquanto o segundo semestre passará a precificar, de forma crescente, os riscos e expectativas associados à safra 2026/27, tanto no Brasil quanto no mercado internacional.”, avaliou.

Para o analista, os preços domésticos encerraram o período próximos a um patamar de suporte, mas eventuais altas mais consistentes dependerão de uma reação da moagem ou de fatores externos que devolvam competitividade às exportações.

Importação brasileira

Os line-ups de importação de trigo com desembarque nos portos brasileiros somam 2,778 milhões de toneladas na safra 2025/26, considerando volumes realizados e/ou programados entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026. No mesmo período da safra 2024/25, o volume registrado era de 2,913 milhões de toneladas. Os dados partem do levantamento de Safras & Mercado.

São Paulo lidera os desembarques, com 594,7 mil toneladas, o equivalente a 21,4% do total. Em seguida aparecem Ceará, com 569,5 mil toneladas (20,5%), Pernambuco, com 347,0 mil toneladas (12,5%), e Bahia, com 340,1 mil toneladas (12,2%). Também têm participação relevante Rio de Janeiro (230,4 mil t; 8,3%), Paraná (161,4 mil t; 5,8%) e Rio Grande do Sul (159,5 mil t; 5,7%).

Entre janeiro e fevereiro de 2026, os volumes já desembarcados ou previstos totalizam 436,3 mil toneladas, com 59,7% de origem na Argentina, 2,8% na Rússia e 3,4% provenientes do Rio Grande do Sul via cabotagem. Os demais 34,1% ainda têm origem indefinida e, diante das dificuldades relacionadas ao teor de proteína do trigo argentino, há expectativa de participação adicional de cargas da Rússia e possivelmente dos Estados Unidos.

Bento ressaltou que o trigo desembarcado em determinado estado nem sempre é destinado ao consumo local, e que o trigo paraguaio, por ingressar por via terrestre, não é contabilizado nos line-ups dos portos brasileiros.

Fonte: Agência Safras



 

FONTE

Autor:Ritiele Rodrigues – ritiele.rodrigues@safras.com.br (Safras News)

Site: Agência Safras

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