As chuvas acima da média nas últimas semanas em Mato Grosso dificultaram a conclusão da colheita da soja 2025/26 e ampliaram as perdas em diversas regiões. Com áreas ainda pendentes, o excesso de precipitação tem impedido a retirada dos grãos no ponto ideal, elevando a incidência de avarias, a umidade do produto e os descontos aplicados na comercialização.
Fora do padrão
Em muitas propriedades, os talhões finais apresentam deterioração acentuada, com grãos fora do padrão exigido pelos armazéns e até germinação nas vagens. De acordo com um levantamento do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA), a colheita superou 65% da área plantada, mas perdeu ritmo nas últimas semanas em razão das chuvas persistentes. A Aprosoja MT acompanha o cenário com preocupação, destacando que o atraso no plantio, causado por déficit hídrico no início da safra, agravou os efeitos das chuvas intensas registradas recentemente.
Norte de MT
No extremo norte do estado, os impactos são ainda mais severos. Em Marcelândia, produtores relatam perdas expressivas estimadas em até R$ 1.800 por hectare, considerando grãos avariados e descontos por umidade elevada.
O atraso da colheita já repercute na segunda safra. Parte do milho deverá ser semeada fora da janela considerada ideal, elevando o risco produtivo. Além disso, produtores com contratos firmados para a soja enfrentam o risco de não cumprimento dos volumes negociados. A combinação entre excesso de chuvas, dificuldades operacionais e entraves logísticos reforça o clima de incerteza no campo e foge ao controle do agricultor neste momento da safra.
Pressão logística
Além das questões climáticas, a safra em Mato Grosso avança sob um cenário de forte pressão logística, marcado por custos elevados de transporte e incerteza no escoamento da produção. O principal corredor de exportação rumo ao distrito de Miritituba, no Pará, opera próximo do limite com gargalos nos acessos e restrições operacionais que aumentam o tempo de viagem, reduzindo a competitividade do produtor no mercado internacional.
Falta de infraestrutura
A demanda pelo eixo que conecta a BR-163 ao sistema portuário do Arco Norte cresceu de forma expressiva. Em 2025, a movimentação em Miritituba alcançou cerca de 15,3 milhões de toneladas, alta de 24,6% em relação a 2024. O avanço do volume, porém, não foi acompanhado por melhorias proporcionais na infraestrutura, especialmente nos trechos finais de acesso aos terminais, justamente onde se concentram os embarques no pico da colheita.
Margem dos produtores comprometida
Segundo a Aprosoja MT, essa pressão logística já se reflete no valor do frete e compromete as margens dos produtores em um contexto de preços internacionais mais ajustados. O custo do transporte entre o norte de Mato Grosso e Miritituba consome parcela relevante da receita, agravado pelo déficit estrutural de armazenagem no estado, estimado em pouco mais da metade do volume produzido, o que força a comercialização acelerada da safra.
No campo, as dificuldades começam antes mesmo de a produção chegar ao corredor principal. Estradas regionais precárias, alta incidência de chuvas e solos argilosos dificultam o tráfego de caminhões, enquanto filas prolongadas em armazéns e pontos de recebimento ampliam o tempo de espera e os riscos operacionais. A combinação entre infraestrutura insuficiente, custos crescentes e imprevisibilidade logística impacta decisões de manejo, estocagem e venda da produção.
Cobrança por investimentos
Enquanto um novo acesso pavimentado aos terminais segue em obras, com conclusão prevista apenas para novembro deste ano, o setor produtivo cobra maior efetividade dos investimentos em infraestrutura e políticas públicas voltadas à armazenagem rural. No longo prazo, projetos estruturantes como a Ferrogrão são apontados como estratégicos para reduzir a dependência do transporte rodoviário, aliviar a pressão sobre a BR-163 e conferir maior eficiência ao escoamento da produção mato-grossense destinada aos mercados externos.



