O anúncio do Governo Federal sobre a aquisição de 310 mil toneladas de arroz em casca, por meio da modalidade de Aquisição do Governo Federal (AGF), inserido no pacote de medidas para enfrentamento dos possíveis impactos do El Niño, introduziu um novo elemento de incerteza no mercado brasileiro justamente em um momento em que as cotações vinham sendo sustentadas por fundamentos mais consistentes de oferta e demanda.  A constatação é do analista e consultor de Safras & Mercado, Evandro Oliveira.

A iniciativa, vinculada aos instrumentos da Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM), tem como justificativa oficial a recomposição dos estoques públicos da Conab, o fortalecimento da capacidade de intervenção governamental no mercado, a mitigação dos riscos de uma eventual quebra de safra no Rio Grande do Sul e a preservação do abastecimento interno diante do cenário climático previsto para a próxima temporada.

Sob a ótica da política agrícola, o programa busca reforçar os instrumentos da Política de Garantia de Preços Mínimos, oferecendo maior proteção ao produtor em um ambiente de elevada volatilidade climática e de custos de produção ainda pressionados. “Além disso, o governo sinaliza a intenção de recompor estoques estratégicos, ampliar sua capacidade de atuação em eventuais momentos de escassez e reduzir riscos de desabastecimento caso o El Niño provoque impactos significativos sobre a próxima safra”, enumera Oliveira.

Entretanto, destaca o analista, a reação inicial do mercado foi marcada por elevado grau de incerteza. “Entre produtores, indústrias, corretores e demais agentes da cadeia predominam dúvidas quanto à operacionalização da medida, especialmente pela ausência de definições sobre aspectos considerados fundamentais para a correta interpretação do programa”, explica. “Permanecem indefinidos, por exemplo, a variedade de arroz que será contemplada, o padrão de qualidade exigido, o preço mínimo que servirá de referência para as aquisições, os critérios de habilitação dos produtores, o cronograma das operações e a velocidade efetiva de liberação dos recursos”, acrescenta.

Um dos principais pontos de atenção é a referência de preço mínimo que será utilizada. O anúncio menciona aquisições de até 25% acima do preço mínimo, porém ainda não está esclarecido se esse cálculo utilizará o preço mínimo vigente da atual temporada, de R$ 63,74 pela saca de 50 quilos, ou o novo preço mínimo para a safra 2027/28, recentemente reajustado para R$ 68,07/saca na Região Sul. “Essa diferença altera significativamente o potencial preço de aquisição pelo governo e tem alimentado interpretações distintas entre os participantes do mercado, ampliando as expectativas dos produtores e contribuindo para o atual ambiente de elevada cautela e incerteza”, pondera.

“Na avaliação de parte significativa dos agentes, existe o risco de que o anúncio produza um efeito psicológico imediato, levando muitos produtores a postergar ainda mais as vendas na expectativa de futuras operações governamentais”, relata o consultor. Caso esse comportamento se intensifique, a disponibilidade física poderá ficar ainda mais restrita, dificultando a originação por parte da indústria e reduzindo ainda mais o ritmo das negociações.

Outro ponto refere-se ao histórico de implementação de programas semelhantes. “Alguns participantes recordam que anúncios anteriores relacionados às compras públicas provocaram períodos prolongados de espera por parte dos vendedores, enquanto a regulamentação e a execução efetiva das operações ocorreram de forma mais lenta”, exemplifica. “Esse precedente contribui para o atual ambiente de receio observado no setor”, completa.

Outro ponto que concentra grande preocupação entre os agentes da cadeia refere-se aos possíveis reflexos sobre o fluxo exportador. Nas últimas semanas, o próprio setor vinha reforçando de forma recorrente que a ampliação das exportações é considerada uma condição estratégica para reduzir o elevado volume de estoques remanescentes e acelerar o processo de reequilíbrio entre oferta e demanda no mercado brasileiro. “Nesse contexto, qualquer fator capaz de estimular uma retenção ainda maior dos estoques poderá limitar a disponibilidade de produto para embarques justamente em um momento considerado decisivo para o desempenho exportador do segundo semestre”, ressalta.

Para Oliveira, a percepção predominante é de que esse passa a ser um dos principais pontos de risco do mercado, uma vez que uma eventual desaceleração das exportações poderá retardar o escoamento dos excedentes internos, postergar o ajuste do balanço de oferta e demanda e reduzir parte da sustentação que os embarques vêm proporcionando às cotações domésticas.

Autor/Fonte:  Rodrigo Ramos (rodrigo@safras.com.br) / Agência Safras

FONTE

Autor:Agência Safras

Site: Agência Safras

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