A cotação do trigo, para o primeiro mês, após cair para US$ 6,30/bushel no dia 11/08, se recuperou e fechou a quinta-feira (13) em US$ 6,52, contra US$ 6,31 uma semana antes. O relatório de oferta e demanda do USDA, anunciado no dia 12/08, trouxe uma leve redução na produção e nos estoques finais estadunidenses para 2026/27. No primeiro caso, o volume estimado é de 41,7 milhões de toneladas (um recuo de 23% sobre o ano anterior) e, no segundo caso, o volume é de 19,5 milhões (uma queda de 22% sobre o ano 2025/26). A produção mundial do cereal, após atingir a 843,4 milhões de toneladas no ano anterior, deverá cair para 819,3 milhões neste novo ano comercial.

Um recuo de 2,8%. Os estoques finais mundiais sobem levemente, atingindo a 273,2 milhões de toneladas. A colheita da Argentina foi mantida em 21 milhões de toneladas e a do Brasil reduzida para 6,1 milhões. Assim, o preço médio estimado ao produtor estadunidense de trigo, neste novo ano comercial, sobe para US$ 6,20/bushel.

Ao mesmo tempo, na semana encerrada em 06/08, os EUA exportaram 421.000 toneladas, atingindo a 3,3 milhões de toneladas exportadas de trigo no atual ano comercial, iniciado em 1º de junho passado. Este volume é 25% abaixo do registrado no mesmo período do ano anterior.

Por sua vez, a colheita do trigo de inverno, nos EUA, atingia a 91% da área no dia 09/08, ficando exatamente dentro da média histórica. Já o trigo de primavera, na mesma data, alcançava 24% de área colhida, contra 19% na média.

Enquanto isso, as exportações russas de trigo, em agosto, tendem a ser as mais baixas em quase uma década. Isso se deve aos problemas de transporte no Mar Negro devido ao recrudescimento da guerra entre Rússia e Ucrânia. Segundo a Sovecon, tais exportações poderão recuar para algo entre 3 a 3,4 milhões de toneladas, o mais baixo volume para um mês de agosto desde o ano 2016/17. Em tal contexto, o volume total a ser exportado pela Rússia, em 2026/27, foi revisto para baixo, devendo atingir a 44,5 milhões de toneladas (cf. Ikar).

Ao mesmo tempo, a Ucrânia reduziu sua previsão de exportação de grãos para a safra de julho a junho de 2026/27 para algo entre 38 a 40 milhões de toneladas, o que representa uma queda de até 12% em relação à projeção anterior, devido aos ataques ao seu centro portuário de Odessa, no sul do país (cf. Reuters).

Já no Brasil, os preços se mantiveram estáveis, com o Rio Grande do Sul registrando valores entre R$ 69,00 e R$ 70,00/saco, enquanto no Paraná os mesmos permaneceram em R$ 75,00.

Dito isso, as vésperas de iniciar uma nova colheita do cereal, o Paraná indica que está prestes a enfrentar o maior déficit de abastecimento de trigo de sua história. Com uma produção estadual projetada em apenas 2,2 milhões de toneladas, diante de uma moagem prevista em 3,85 milhões de toneladas, o Estado terá que recorrer a importações substanciais. Lembrando que o Paraná responde por 30% da produção nacional de farinha de trigo. Além disso, os moinhos vêm de um período de margens apertadas pela dificuldade de repassar a alta do grão para o preço da farinha.

Aliás, a safra brasileira, que era projetada em 7,2 milhões de toneladas no início do ano, deverá ficar entre 5,5 a 5,9 milhões de toneladas. Com isso, o Brasil deverá registrar a maior importação de trigo de sua história neste novo ano comercial. A Argentina segue como a origem mais competitiva pela proximidade logística e pela inserção no Mercosul, mas carrega um problema de qualidade em seu trigo.

A safra atual, que abastece o mercado até novembro, apresenta baixo teor de proteína e de glúten úmido, resultado direto do menor uso de fertilizantes nitrogenados nas lavouras vizinhas, os mesmos que encareceram a produção no Brasil. “E buscar qualidade em outras origens eleva drasticamente os custos. O trigo estadunidense chega a custar cerca de R$ 300,00 a mais por tonelada em relação ao argentino, pressionado pela menor safra dos Estados Unidos desde 1970 e pelo menor saldo exportável registrado desde 1960, segundo a série histórica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

No Mar Negro, o recrudescimento dos conflitos entre Rússia e Ucrânia, com ataques a navios cargueiros e graneleiros no Mar de Azov e no Mar Negro, inflacionou fretes e seguros marítimos. O Paraguai, parceiro tradicional que costuma enviar trigo ao Paraná, também projeta redução em seu saldo exportável: de 600 mil toneladas no ciclo anterior para no máximo de 350 mil toneladas agora. A única variável que tem amenizado parcialmente o custo das importações é o câmbio.

Com um dólar oscilando entre R$ 5,00 e R$ 5,20, o trigo negociado em dólares fica mais barato em reais. A escalada dos preços internacionais, no entanto, tem eliminado parcialmente esse ganho cambial, resultando em custos de importação mais elevados nesta temporada” (cf. Safras & Mercado).

Além disso, o sul do país volta a enfrentar problemas climáticos, como excesso de chuvas e granizo, acompanhado, agora, de calor e alta umidade, fato que reduz o potencial produtivo do cereal, devendo trazer a colheita final para um volume ainda mais baixo do que o já reduzido número esperado.

Diante disso, as importações brasileiras de trigo e centeio, nestes primeiros dias de agosto, apontam para um volume de 126.200 toneladas, com crescimento médio de 7,7% sobre igual momento do ano anterior. E os gastos com importação, apesar do câmbio favorável, aumentam devido a melhoria dos preços externos. O preço médio obtido até aqui, em agosto, ficou em US$ 241,40/tonelada, contra US$ 231,80 no mesmo período de 2025, ou seja, uma alta de 4,1%. Com isso, a despesa média diária com as compras externas chegou a US$ 6,09 milhões, ante US$ 5,43 milhões há um ano, ou seja, um crescimento de 12,2% (cf. Secex).

Por outro lado, este quadro apertado de oferta em volume e qualidade vem aumentando os preços internos do trigo, mesmo que de forma lenta e insuficiente. Efetivamente, com a necessidade de recompor estoques, compradores vêm elevando gradualmente as ofertas na tentativa de encontrar lotes de melhor qualidade, enquanto vendedores ainda apresentam disponibilidade limitada de trigo da safra 2025 e a colheita 2026 apenas está iniciando.

Enfim, com a produção nacional em queda, estoques restritos e riscos climáticos sobre a nova safra, a evolução das importações deverá ser um dos indicadores importantes para acompanhar o abastecimento e a formação dos preços do trigo no Brasil nos próximos meses, havendo potencial para os preços pagos aos produtores aumentarem mais para o final do ano e início de 2027.

Fonte: Informativo CEEMA UNIJUÍ, do prof. Dr. Argemiro Luís Brum¹

1 – Professor Titular do PPGDR da UNIJUÍ, doutor em Economia Internacional pela EHESS de Paris-França, coordenador, pesquisador e analista de mercado da CEEMA (FIDENE/UNIJUÍ).


FONTE

Autor:Dr. Argemiro Luís Brum/CEEMA-UNIJUÍ

Site: Ceema/Unijuí

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