Diante de um mundo praticamente em quarentena, devido ao coronavírus Covid-19, o mercado da soja se arrasta em Chicago, com forte viés de baixa. O primeiro mês cotado fechou esta quinta-feira (19) em US$ 8,43/bushel, após US$ 8,55 uma semana antes. Porém, é bom lembrar que no dia 16/03 a cotação chegou a bater em US$ 8,21. Esta recuperação da quinta-feira está mais para um ajuste técnico do que para uma mudança de tendência.

Na verdade, o mercado recuou durante a semana diante da possibilidade de o presidente Donald Trump decretar emergência nacional nos EUA devido ao coronavírus.

Por outro lado, no mercado mundial, a forte queda dos preços do petróleo no início da semana (mais de 10%), puxaram para baixo a soja e seus derivados, particularmente o óleo de soja. Este último chegou a bater em 24,99 centavos de dólar por libra-peso, algo que não era visto há muitos anos. Apenas para lembrança, no dia 02 de janeiro deste ano o óleo esteve cotado em 34,97 centavos de dólar. Ou seja, em dois meses e meio a cotação do mesmo recuou 28,5%.

Ao mesmo tempo, apesar da forte quebra na safra de soja do Rio Grande do Sul, o restante da América do Sul deverá colher uma safra cheia, o que ajuda a puxar os preços para baixo.

Em paralelo, a Associação Norte-Americana dos Processadores de Óleos Vegetais (NOPA) apontou que o esmagamento de soja por parte dos EUA, em fevereiro, ficou em 4,52 milhões de toneladas, superando um pouco o que o mercado esperava, embora bem abaixo do registrado em janeiro.

Por sua vez, as inspeções de exportação de soja por parte dos EUA, na semana encerrada em 12/03, atingiram a 436.358 toneladas, ficando abaixo do esperado pelo mercado. Já as exportações líquidas fecharam a semana do 05/03 em 302.800 toneladas, o que representou um recuo de 34% sobre a média das quatro semanas anteriores. Para o ano 2020/21 foram mais 1.400 toneladas exportadas.

A soma dos dois anos, apesar de reduzida, ficou dentro das expectativas do mercado, pois este reduziu fortemente seus números de previsão diante da crise geral por que passa o mundo.



Neste contexto de crise, preocupa cada vez mais os resultados econômicos na China, diante dos impactos do coronavírus. A produção industrial do país caiu 13,5% em janeiro e fevereiro, na comparação com o mesmo período do ano anterior, após avançar 6,9% em dezembro. Já em fevereiro a produção industrial caiu 26,6% em relação a janeiro, depois de ter recuado 2,78% em janeiro.

Com isso, a tendência para o PIB chinês em todo o ano de 2020 é de apenas 3%, contra 5,5% na previsão anterior e ao redor de 10% anuais há poucos anos atrás. Somente no primeiro trimestre a contração da economia chinesa deverá atingir a 9%, contra uma expectativa de crescimento de 2,5%. E isso em um país já atingido pela guerra comercial com os EUA e pela peste suína africana, que ainda se fazem presentes.

No Brasil, a nova disparada do câmbio, colocando o Real em níveis ao redor de R$ 5,20 por dólar em alguns momentos da semana, voltou a elevar o preço da soja. O balcão gaúcho atingiu a média de R$ 85,11/saco, enquanto os lotes foram a R$ 93,00. Nas demais praças nacionais os lotes oscilaram entre R$ 77,00 em Querência, Nova Xavantina e Canarana (MT) e R$ 90,50/saco em Campos Novos (SC), passando por R$ 78,50 em São Gabriel (MS), R$ 79,50 em Goiatuba (GO), R$ 90,50 no norte e centro do Paraná, R$ 82,00 em Pedro Afonso (TO) e R$ 84,00/saco em Uruçuí (PI).

Graças ao câmbio os preços da soja estão elevados, pois Chicago recua fortemente e os prêmios nos portos brasileiros se mantêm baixos. Aliás, os mesmos fecharam a semana entre US$ 0,36 e US$ 0,70/bushel.

Tais preços ajudam em muito as regiões brasileiras que estão com safra cheia. Infelizmente não é o caso do Rio Grande do Sul onde a quebra de safra vem aumentando a cada dia. As chuvas desta última quarta-feira foram poucas e mal distribuídas, não auxiliando em quase nada a solução do déficit hídrico. Assim, o Estado deverá consolidar mesmo uma quebra perto de 50% na soja. Não há preço de produto que compense tal quebra. Sem falar na possível forte elevação dos futuros custos de produção.

Dito isso, a colheita da soja no Brasil atingiu a 59% do total no dia 13/03, contra 62% um ano antes e 56% na média histórica. Nos quatro principais produtores nacionais o ritmo de colheita era o seguinte: Mato Grosso com 97% já colhido; Paraná 70%; Rio Grande do Sul 9% e Goiás 63%.

A título de informação, caso o câmbio no Brasil estivesse dentro da normalidade, isto é, ao redor de R$ 3,70 por dólar, nos atuais preços de Chicago e de prêmio no porto, o saco de soja no balcão gaúcho estaria valendo, hoje, apenas ao redor de R$ 61,00, ou seja, cerca de 24 reais a menos do que está hoje.


Quer saber mais sobre a Ceema/Unijui? Clique na imagem e confira.

CEEMA

Fonte: Informativo CEEMA UNJUÍ, do prof. Dr. Argemiro Luís Brum (1) e de Jaciele Moreira (2).

1 – Professor do DACEC/UNIJUI, doutor em economia internacional pela EHESS de Paris França, coordenador, pesquisador e analista de mercado da CEEMA.
2-  Analista do Laboratório de Economia da UNIJUI, bacharel em economia pela UNIJUÍ, Tecnóloga em Processos Gerenciais – UNIJUÍ e aluna do MBA – Finanças e Mercados de Capitais – UNIJUÍ e ADM – Administração UNIJUÍ.

Texto originalmente publicado em:
CEEMA
Autor: CEEMA Unijui

Nenhum comentário

Deixar um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.