Por Vinicius Bof Bufon, Pesquisador da Embrapa Meio Ambiente
O possível retorno do El Niño deve ser tratado com atenção pelo agro brasileiro, mas não apenas como um fenômeno climático. O ponto central é que ele chega em um momento no qual o setor já convive com margens mais apertadas, preços de commodities mais incertos, juros elevados, custos relevantes de produção e instabilidade global. A combinação entre clima mais volátil e ambiente econômico mais frágil torna o risco maior.
As previsões mais recentes indicam forte aumento da probabilidade de formação de El Niño em 2026. A NOAA/CPC aponta 82% de chance de El Niño entre maio e julho de 2026; o IRI/Columbia estima probabilidade de 98% para o mesmo período; e a Organização Meteorológica Mundial também indica desenvolvimento esperado do fenômeno a partir de meados de 2026, com impacto sobre padrões globais de temperatura e chuva.
No Brasil, os efeitos não são uniformes. Em parte do Sul, a preocupação costuma estar mais associada ao excesso de chuva, encharcamento, doenças e perda de janelas de plantio, manejo e colheita. Em regiões do Centro-Oeste, Sudeste, Norte e Nordeste, o risco pode estar mais ligado a calor, veranicos, atraso ou irregularidade das chuvas e estresse das lavouras em fases críticas. Para a agricultura, não basta saber se vai chover mais ou menos no ano. O que importa é quando chove, como chove e em que fase da cultura isso acontece.
O evento atual preocupa, mas preocupa ainda mais a possibilidade de sequências de eventos ruins. As projeções climáticas indicam maior exposição a extremos, incluindo secas mais frequentes ou severas em várias regiões, além do aumento de temperatura. Para a agricultura, temperatura mais alta não é detalhe: eleva a demanda de água das plantas, aumenta perdas no solo, intensifica estresse térmico e pode afetar florescimento, enchimento de grãos, qualidade, sanidade e produtividade.
Também cresce o risco de incêndios em períodos de seca e calor. Essa é uma preocupação real do produtor moderno. A visão antiga de que o agricultor usa ou se beneficia do fogo está cada vez mais distante da realidade. Hoje, o fogo é visto como destruição de patrimônio: queima palhada, pasto, lavoura, cercas, máquinas, biodiversidade, matéria orgânica e parte da própria resiliência produtiva da propriedade.
É por isso que o El Niño precisa ser analisado junto com o mercado. Quando os preços estão bons, parte de uma perda produtiva pode ser compensada por receita. Quando os preços estão pressionados, a mesma perda atinge diretamente o caixa, o crédito, a renovação das lavouras, a compra de insumos e a capacidade de investimento. O El Niño é climático, mas seu impacto no agro é também econômico.
Esse aperto ficou mais claro nos últimos anos. O índice de preços de alimentos da FAO ainda estava 18,4% abaixo do pico de março de 2022, e o Banco Mundial projeta nova queda dos preços agregados de commodities em 2026, o quarto ano consecutivo de recuo. Ao mesmo tempo, custos importantes seguiram elevados: o dólar saiu de uma média próxima de R$ 3,3 em 2015 para patamar ao redor de R$ 5,0 nos anos recentes, alta nominal superior a 50%; e o diesel S-10 chegou a R$ 7,16 em maio de 2026, valor próximo do dobro da referência média de R$ 3,62 por litro usada após maio de 2018.
Nesse ambiente, a recomendação de curto prazo não é simplesmente “cortar custo”. Reduzir despesas que protegem a lavoura pode aumentar a vulnerabilidade e sair mais caro depois. O objetivo não deve ser gastar menos por hectare a qualquer custo, mas reduzir o custo por unidade produzida. Em algumas situações, a decisão correta pode ser trocar uma prática que funciona bem em condições ideais por outra que aumente a tolerância da cultura à seca, ao calor, ao excesso de chuva ou à perda de janela operacional.
Mas a gestão emergencial tem limite. As ações realmente estruturantes exigem médio e longo prazo. O agro brasileiro se superou muitas vezes nas últimas décadas, ampliando produção, tecnologia e sustentabilidade. Agora, o momento exige um novo ciclo de decisões: mais planejamento climático, mais previsibilidade, mais eficiência no uso dos recursos e maior proteção da produção contra extremos.
Esse ponto é especialmente importante na irrigação. Sistemas irrigados eficientes não se implantam de uma safra para outra. Exigem diagnóstico, projeto, infraestrutura, energia, adequação das áreas, planejamento financeiro, treinamento de equipes e integração com a estratégia produtiva da propriedade. Irrigação eficiente não é improviso; é infraestrutura de previsibilidade.
O Brasil ainda irriga uma área relativamente pequena diante de seu potencial. O Atlas Irrigação indica 8,2 milhões de hectares equipados para irrigação no país; 35,5% desse total corresponde à fertirrigação com água de reúso, efluentes ou resíduos agroindustriais, sinal de sofisticação, circularidade e sustentabilidade já disponível no Brasil. Ainda assim, é pouco frente ao potencial sustentável estimado para o país, frequentemente apontado em torno de 55 milhões de hectares. Para comparação, China e Índia têm mais de 70 milhões de hectares equipados para irrigação cada uma, e os Estados Unidos têm cerca de 26 milhões de hectares.
A resposta, porém, não é irrigar tudo. Em muitos sistemas, o caminho mais inteligente é lastrear uma fração estrategicamente selecionada da produção com sistemas irrigados eficientes. Essa fração protegida reduz a exposição aos extremos, aumenta a estabilidade do resultado e melhora a gestão da propriedade como um todo. Também não se trata, necessariamente, de repor 100% da demanda hídrica da cultura. Em várias situações, inclusive na cana-de-açúcar, a recomendação técnica é trabalhar com irrigação suplementar ou deficitária bem manejada: aplicar a fração ótima de água, no momento certo, buscando máxima eficiência produtiva, econômica e ambiental.
Essa é uma virada importante. Sistema irrigado moderno não é simplesmente colocar água em uma lavoura conduzida como se fosse sequeiro. É outro sistema de produção. Exige solo bem preparado, escolha adequada de cultivares, nutrição equilibrada, manejo cuidadoso, monitoramento, planejamento da colheita e uso eficiente da água. A tecnologia isolada não resolve. O que resolve é o sistema.
Além da previsibilidade, sistemas mais verticais trazem ganhos econômicos e ambientais. Produzir mais na mesma área, com critério técnico, é uma alternativa objetiva à expansão horizontal sobre novas áreas, inclusive áreas de vegetação nativa. Quando conduzida com boa engenharia, bom manejo e boa agronomia, a verticalização reduz custo unitário, melhora logística, aumenta eficiência no uso da água, dos insumos e da terra, e favorece menor pegada hídrica e de carbono.
Em culturas perenes e semiperenes, há ainda um ponto adicional: o prejuízo de um evento extremo não termina necessariamente quando a chuva volta. Se a planta permanece no campo por vários anos, a perda de vigor, a morte de plantas, a redução de população ou a necessidade de replantio podem gerar efeito cascata por várias safras. Em culturas anuais, esse efeito biológico pode ser menor, mas o efeito financeiro continua: uma safra ruim reduz caixa, posterga investimentos e aumenta a vulnerabilidade do ciclo seguinte.
O El Niño, portanto, deve ser visto como um alerta importante, não como uma sentença. Ele reforça a necessidade de continuar uma trajetória que o agro brasileiro já conhece bem: responder a novos desafios com ciência, tecnologia, gestão e capacidade de adaptação. O próximo passo é ampliar investimentos estruturantes em resiliência climática, para produzir com mais previsibilidade, menor custo unitário e maior eficiência ambiental.
Em um ambiente de commodities, o produtor não controla o preço internacional. O que ele pode controlar é eficiência, risco, custo por unidade produzida e capacidade de atravessar os anos ruins. O novo patamar de competitividade do agro brasileiro será transformar informação climática em decisão produtiva e investimento de longo prazo.
Fonte: Embrapa




