A matéria orgânica do solo (MOS) apresenta capacidade de modificar relações físico-químicas do solo, alterando a disponibilidade de micronutrientes, aumentando relações entre microrganismos do solo e sua fauna edáfica DHALIWAL et. al, (2019).

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Sua participação no sistema produtivo vai mais além, a matéria orgânica do solo atua como agente cimentante na formação de agregados do solo, no controle da temperatura do solo, na evaporação de água  nas camadas superficiais e fertilidade do solo,  sendo parâmetro base para a recomendação da adubação nitrogenada em culturas que não realizam a fixação biológica de nitrogênio.

A matéria orgânica do solo é originária de resíduos vegetais e animais que passam por uma dinâmica de processos físico-químicos (figura 1). Essa dinâmica resulta em nutrientes que podem ser absorvidos pelas plantas além de atuar de forma benéfica na estruturação do solo.

Figura 1. Dinâmica da MOS em relação aos processos e subprocessos.

FONTANA (2009).

Tendo em vista que o principal substrato para a formação da matéria orgânica do solo são os resíduos vegetais, a adoção de plantas de cobertura ao sistema de produção é a principal forma de agregar matéria orgânica ao solo.

Contudo, apenas o uso de plantas de cobertura não é o suficiente, é preciso determinar quais plantas usar e quando usar. Algumas plantas apresentam maior potencial de produção de massa seca e tendem a ter uma maior durabilidade da palhada no solo, como por exemplo as gramíneas. Em contrapartida, devido a uma alta relação C/N, as gramíneas tendem a liberar pouco nitrogênio oriundo dos resíduos vegetais no solo.

Já as leguminosas, tendem a liberar maiores quantidades de Nitrogênio ao solo, contudo sua palhada apresenta pouca durabilidade no solo e se manejada de forma incorreta em alguns casos pode ser totalmente degradada antes mesmo da cultura semeada posteriormente fechar a entrelinha, o que resultaria em solo desnudo, aumentando a evaporação de água no solo, temperatura e erosão superficial.

Além de garantir uma boa palhada, a boa distribuição dos resíduos vegetais é fundamental para a melhorar a uniformidade da matéria orgânica na área de cultivo. Contudo, é importante frisar que o incremento da matéria orgânica do solo é um processo demorado e pode levar anos.

Outro fator importante que deve ser levado em consideração no aumento da matéria orgânica do solo é o tipo de sistema de produção. Nos sistemas convencionais onde há incorporação da palhada residual, COSTA et. al, (2004) em avaliação de experimento conduzido durante 21 anos a fim de analisar os efeitos do plantio direto, encontrou valores 15% inferiores na adição de carbono quando comparado ao sistema de plantio direto.

O sistema de plantio direto também auxilia na diminuição da taxa de decomposição da matéria orgânica, colaborando para a maior permanência da MOS no sistema produtivo. CIOTTA et. al, (2003), avaliando a MOS e a capacidade de troca de cátions (CTC), encontrou redução de 14% na taxa de decomposição da MOS no sistema plantio direto quando comparada ao sistema de cultivo convencional.

A matéria orgânica do solo também desempenha papel fundamental na nutrição do solo, atuando na CTC  de forma que quanto maior o teor de carbono orgânico no solo (figura 2), maior a CTC do solo, e com isso maior a capacidade de adsorção de cátions. Grande parte dos cátions adsorvidos pelo solo são nutrientes que podem ser utilizados pelas plantas como por exemplo Ca2+, Mg2+ e K+. Logo, o aumento da matéria orgânica do solo pode melhorar a nutrição das plantas em virtude de uma maior disponibilidade de nutrientes adsorvidos no solo.


Veja também: CTC como atributo pedoindicador da matéria orgânica do solo.


Figura 2. Relação entre os teores de carbono orgânico (CO) e a CTC efetiva e a pH 7,0 de um Latossolo bruno. Os teores de carbono orgânico correspondem a valores médios (3 repetições) de sete camadas de solo, nos sistemas de plantio direto e preparo convencional.

CIOTTA et. al, (2003).

Mas então, como melhorar a matéria orgânica do solo?

Primeiramente deve-se compreender algumas propriedades físicas, químicas e biológicas do solo que se está trabalhando, como porosidade, CTC, teor de argila e fauna edáfica. Deve-se enxergar a lavoura como um sistema de produção que exige planejamento a longo prazo. É importante aderir a práticas de manejo que não agridam a biologia e microbiologia do solo, tendo esses pequenos seres que à integram como parceiros na construção de um solo fértil, de boa infiltração e aeração.


Veja também: Equilíbrio dos nutrientes no solo: um dos segredos do sucesso?


É importante que se planeje a rotação de cultura da lavoura, podendo se utilizar da divisão por talhões para facilitar o manejo. Manter o solo coberto é fundamental, e a escolha por plantas de cobertura ou culturas de inverno que produzam considerável volume de palha pode auxiliar na melhoria da matéria orgânica do solo. Também é interessante rotacionar as plantas de cobertura, hora alternado entre leguminosas e gramíneas ou até mesmo utilizando de mixes de culturas para a cobertura do solo.

Aconselha-se a boa distribuição dos resíduos vegetais na colheita, e a adoção do sistema plantio direto. Em lavouras cujo sistema de plantio direto ainda não está implementado, é imprescindível que se trabalhe a fertilidade e pH do solo em profundidade antes da adoção do sistema para evitar futuros problemas. Em lavouras com declividade, a utilização de maiores volumes de palha é ainda mais importante para minimizar os danos causados pelo impacto da gota da chuva e erosão superficial, em alguns casos o uso de terraços é indispensável.

O aumento da matéria orgânica no solo não é uma tarefa fácil, demanda tempo, esforço e planejamento, mas é possível e pode trazer inúmeros benefícios ao sistema. Cabe agora avaliar seu sistema produtivo e analisar as possíveis alternativas que possibilitem o aumento da matéria orgânica no solo.

Referências:

CIOTTA et. al, Matéria orgânica e aumento da capacidade de troca de cátions em solo com argila de atividade baixa sob plantio direto. Ciência Rural, Santa Maria, v.33, n.6, p.1161-1164, 2003.

COSTA et. al, Aumento de matéria orgânica num latossolo bruno em plantio direto. Ciência Rural, Santa Maria, v.34, n.2, p.587-589, 2004.

DHALIWAL et. al, Dynamics and transformations of micronutrients in agricultural soils as influenced by organic matter build-up: A review. Environmental and Sustainability Indicators, 1-2, 2019.

FONTANA, A. Fracionamento da Matéria Orgânica e Caracterização dos Ácidos Húmicos e sua Utilização no Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Instituto de Agronomia, Curso de Pós-Graduação em Agronomia e Ciência do Solo. Seropédica, RJ, abr. 2009.

Redação: Maurício Siqueira dos Santos – Eng. Agrônomo.

 

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