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Mosca-da-haste em soja: quanto perdemos pelo seu ataque?

Foto de capa: Lucas Vitorio.

A mosca-da-haste (Melanagromyza sojae) é uma praga originária da Ásia que chegou recentemente ao Brasil e América do Sul, crescendo em ocorrência ao longo da última década e atacando principalmente cultivos de soja safrinha. Na semana passada, abordamos em detalhes a bioecologia, danos e manejo dessa espécie. Mas qual é o seu verdadeiro potencial de redução de produtividade na cultura da soja, caso não seja realizado o controle?

Como acontece o ataque  

Para estimar o potencial de dano de uma praga, é necessário entender a sua biologia comportamental e a dinâmica do ataque à cultura. As larvas da mosca-da-haste danificam plantas de soja ao abrir galerias no interior do caule, comprometendo a translocação de água e nutrientes nos tecidos condutores do xilema.

O ciclo de vida curto e a alta capacidade reprodutiva da espécie possibilitam a ocorrência de até cinco gerações da praga em um único ciclo da cultura, facilitando reinfestações e, consequentemente, reduzindo a eficácia das aplicações de inseticidas.

Figura 1. Fêmea adulta de Melanagromyza sojae em folha de soja. Crédito da foto: Lucas Vitorio.

A mosca-da-haste pode ocorrer durante todo o ciclo da cultura, mas as densidades populacionais variam de acordo com fatores ambientais como precipitação, temperatura e disponibilidade de plantas hospedeiras. A incidência é maior durante os períodos mais quentes e secos do ano, pois chuvas intensas reduzem a capacidade de alimentação e oviposição das fêmeas. Durante os meses de entressafra, a praga sobrevive na forma de pupas no interior de hastes mortas de soja, ou em hospedeiros alternativos da família das leguminosas.

O que a pesquisa nos diz 

GUEDES et al. (2015) citam 36% de redução na produtividade da soja devido ao ataque de mosca-da-haste, mas MARQUES et al. (2023) observaram perdas de até 61% quando a cultura não recebeu aplicações de inseticida antes do estágio fenológico R2 (florescimento pleno).

Existe uma relação direta entre a percentagem de haste danificada pelas larvas de M. sojae e a redução na estatura da planta e na produção de grãos. Na Ásia, dados da década de 80 indicavam que essa relação era de 0,18 cm de altura e 0,11 g de grãos reduzidos por planta de soja para cada 1% de haste danificada (BHATTACHARJEE, 1980).

Com base nesses valores, foram propostos níveis de controle para M. sojae variando de 6 a 26% de haste danificada. Entretanto, as observações de campo nos apontam que a tolerância com a praga deve ser ainda menor, e o manejo, mais rigoroso. No Brasil, MARQUES et al. (2023) verificaram que cada 1% de haste danificada resultou numa redução de 0,9 g/planta.

Somado a isso, plantas de soja pulverizadas com inseticida antes do estágio fenológico R1 apresentaram menos danos por M. sojae e menor perda de produtividade, em comparação àquelas pulverizadas somente após o início do florescimento.

Figura 2. Pupa de Melanagromyza sojae e galeria de alimentação em planta de soja. Crédito da foto: Lucas Vitorio.

Reflexos no manejo

Essa redução no dano causado pela praga está provavelmente ligada ao controle efetivo dos adultos, já que é praticamente impossível controlar as larvas de mosca-da-haste depois que estas adentram a haste principal da planta.

Considerando que cada larva consome em média 1,4 mm de tecido vegetal por hora (LEE, 1962), são necessários apenas dois dias para que ela entre na haste principal após a eclosão, reduzindo drasticamente as possibilidades de controle a partir desse momento. Além disso, diferentes fases de vida do inseto costumam ocorrer simultaneamente na mesma planta, dificultando ainda mais a tomada de decisão.

Além de interromper o fluxo de seiva das raízes para os ramos e folhas, o broqueamento da haste pelas larvas afeta diretamente o enchimento de grãos, já que grande parte dos fotoassimilados produzidos pela planta de soja são armazenados no caule. As estratégias de controle recomendadas incluem rotação de culturas com milho, semeadura antecipada e eliminação de plantas voluntárias na entressafra.

Atualmente, há somente um inseticida químico registrado para o controle de mosca-da-haste no Brasil (clotianidina), embora outros ingredientes ativos tenham demonstrado eficácia via tratamento de sementes (clorantraniliprole, fipronil, tiodicarbe) e aplicação foliar em até 10 dias após a emergência (imidacloprido, bifentrina e clorpirifós).



Sobre o autor: Henrique Pozebon, Engenheiro Agrônomo na Prefeitura Municipal de Santa Maria, Doutorando em Agronomia pela UFSM. 

Referências:

BHATTACHARJEE, N. S. Incidence of the stemfly, Ophiomia phaseoli (Tryon) on soybean. Indian Journal of Entomology, v. 42, p. 280-282, 1980.

GUEDES, J. V. C. et al. Mosca-da-haste.Cultivar Grandes Culturas, v. 197, p. 28-31, 2015.

LEE, S. Y. The mode of action of Endrin on the Bean Stem Miner, Melanagromyza sojae with special reference to its translocation in soybean plants. Journal of Economic Entomology, v. 55, p. 956-954, 1962.

MARQUES, R. P. et al. Damage Assessment of Melanagromyza sojae (Diptera: Agromyzidae) on Soybean in Brazil. Journal of Agricultural Science, v. 15, n. 12, p. 33-50. 2023.

POZEBON, H. et al. Highly diverse and rapidly spreading: Melanagromyza sojae threatens the soybean belt of South America. Biological Invasions, v. 23, p. 1405–1423, 2021.

Equipe Mais Soja
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