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Manejo integrado de Sclerotinia sclerotiorum na Soja

O mofo-branco, causado pelo fungo necrotrófico Sclerotinia sclerotiorum é considerada uma das doenças mais antigas que afetam a soja. Além disso, destaca-se como uma das principais doenças da cultura, podendo resultar em perdas de até 70% na produtividade. Diversos fatores que contribuem para o desenvolvimento da doença e o aumento da severidade, incluindo a extensão da área cultivada, o clima e a ausência de rotação de culturas (Mayer et al., 2022).

De acordo com Henning et al. (2014), a fase mais suscetível da planta abrange desde o estádio de floração plena ao início da formação das vagens. Condições de alta umidade relativa do ar e temperaturas amenas favorecem o desenvolvimento da doença.  Sob condições de alta umidade e temperaturas entre 10 ° C e 21 °C, os esclerócios presentes no solo germinam e desenvolvem apotécios na superfície do solo, esses apotécios, por sua vez, produzem ascósporos que são liberados ao ar, sendo responsáveis pela infecção das plantas.

O fungo produz três tipos de inóculos responsáveis pelo desenvolvimento da doença: escleródios, ascósporos e micélio. Esses inóculos são disseminados de três maneiras distintas, sendo um dos mecanismos através dos escleródios, estruturas de resistência do fungo, os quais são dispersos por implementos agrícolas, máquinas e animais que consomem restos culturais e entre as sementes. O uso de resíduos provenientes da limpeza de grãos e sementes de soja para alimentar animais contribui para a disseminação dessas estruturas para novas áreas.

A dispersão a longas distâncias e a introdução do patógeno em áreas novas ocorrem principalmente através de sementes infectadas, representando uma outra forma de disseminação. Em uma lavoura suscetível, o fungo se propaga predominantemente por meio de ascósporos e escleródios. O terceiro mecanismo de disseminação, é através dos ascósporos, os quais são liberados das ascas presentes nos apotécios e transportados pelo vento, atingindo plantas e cultivos próximos (Reis et al., 2011).

Figura 1. Monociclo do mofo-branco causado por Sclerotinia sclerotiorum em soja Glycine max.

Fonte: Reis et al. (2011).

Conforme destacam Meyer et al. (2022), as perdas de rendimento ocasionadas pelo fungo são resultado da redução da quantidade e do peso dos grãos, decorrentes do apodrecimento dos tecidos da planta, principalmente da haste principal e órgãos reprodutivos.

Os sintomas da doença incluem o surgimento de manchas aquosas que evoluem para coloração castanho-claro e, posteriormente, desenvolvem uma abundante formação de micélio branco e denso. O fungo demonstra a capacidade de infectar qualquer órgão da planta, sendo que as infecções frequentemente têm origem nas pétalas caídas nas axilas das folhas e dos ramos laterais. Em certas circunstâncias, sintomas de murcha e seca também podem ser observados. Em um curto período, o micélio se transforma em uma massa negra e resistente conhecida como esclerócio, que representa a forma de resistência do fungo. Os esclerócios podem variar em tamanho e podem se desenvolver tanto na superfície quanto no interior das hastes e das vagens infectadas (Henning et al., 2014).

Figura 2. Sintomas de mofo-branco na cultura da soja.

Foto: Maurício Meyer (2014).

Diversos agentes de controle biológico com potencial para combater o mofo-branco têm sido estudados, incluindo bactérias e fungos de oito gêneros distintos. Esses antagonistas exercem diferentes modos de ação no biocontrole do patógeno, como antibiose, micoparasitismo e competição. Além disso, são relatadas atividades benéficas, como promoção de crescimento e indução de resistência na planta hospedeira. Embora a maioria dos estudos científicos seja conduzida in vitro ou em ambientes controlados, pesquisas de campo têm corroborado as expectativas, demonstrando eficácia na redução da doença e ganhos produtivos (Meyer et al., 2022).

Figura 3. Relação de microrganismos antagônicos à Sclerotinia sclerotiorum estudados e seus respectivos potenciais de uso em biocontrole.

Continuação ..

Fonte: Meyer et al. (2022).

No entanto, no Brasil, os produtos comerciais com alvo biológico S. sclerotiorum estão atualmente limitados aos gêneros Bacillus, incluindo B. subtilis, B. amyloliquefaciens e Bacillus velezensis, e ao gênero Trichoderma, com T. harzianum, T. asperellum e T. afroharzianum. Além disso, algumas formulações com associação de B. amyloliquefaciens, T. harzianum e T. asperellum tem sido registrada. Essas associações, quando compatíveis, ampliam o espectro de ação dos agentes de biocontrole, ao reunir diferentes mecanismos de ação, promovendo o controle mais efetivo sobre os escleródios.

De acordo com Meyer et al. (2022), o principal mecanismo de ação de Trichoderma spp. no controle do mofo-branco é através do microparasitismo. O Trichoderma cresce e parasita escleródios e apotécios, degradando a parede celular do patógeno por meio de enzimas quitinolíticas, especialmente quitinases, glucanases, proteases e celulases. Além do microparasitismo, a antiobiose e a indução de resistência também são mecanismos de ação.

Por outro lado, tem-se o mecanismo de ação de Bacillus spp., os quais não são muito conhecidos, mas um dos seus principais efeitos é a inibição da germinação carpogênica e do crescimento micelial do patógeno. Esse gênero de bactérias produz uma gama de compostos antifúngicos e antibacterianos que suprimem o desenvolvimento de vários fitopatógenos, além de também promoverem a indução de resistência sistêmica em plantas.

Figura 4. Escleródios e apotécios de Sclerotinia sclerotiorum infectados por Trichoderma sp. (A e B) e escleródio recoberto por exsudato bacteriano (C).

Fonte: Meyer et al. (2022).

As principais medidas de controle do mofo-branco incluem a formação de palhada para a cobertura do solo, a implementação do controle biológico, uso de sementes de qualidade e o controle químico. Sendo essencial o manejo integrado, através de medidas culturais, uso de fungicidas e o emprego de agentes de controle biológico, a fim de reduzir o inóculo presente no solo e prevenir a incidência da doença de maneira eficiente. Nesse sentido, para reduzir a incidência do mofo-branco, é fundamental direcionar medidas culturais para esgotar as reservas energéticas dos escleródios no solo, condicionar o solo para promover o estabelecimento de antagonistas e estabelecer barreiras eficazes que minimizem a dispersão dos ascósporos.




O controle biológico na soja deve ser direcionado para a associação de agentes com diferentes modos de ação, aplicados com tecnologia que otimize a eficácia no alvo biológico, especialmente em condições ambientais propícias à sua estabilização. Além disso, o controle químico deve ser mantido no manejo da doença, com ênfase na proteção preventiva das plantas, sendo a presença de apotécios na lavoura um parâmetro decisivo para a aplicação (Meyer et al., 2022). Uma das principais medidas de controle da doença, é o controle químico, contudo, devido à continua produção de inóculo, mesmo com o uso de fungicidas e considerando as influências das variações ambientais na eficiência do controle químico, é essencial a implementação das demais medidas de manejo para o controle efetivo da doença (Meyer et al., 2022).

Figura 5. Sugestão de linha do tempo para o uso de agentes de biocontrole no manejo de mofo-branco em soja no Brasil.

Fonte: Meyer et al. (2022).


Referências:

HENNING, A. A. et al. MANUAL DE IDENTIFICAÇÃO DE DOENÇAS DE SOJA. Embrapa Soja, documentos, 256. Londrina – PR, 2014. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/105942/1/Doc256-OL.pdf >, acesso em: 14/12/2023.

MEYER, M. C. EFICIÊNCIA DE FUNGICIDAS PARA CONTROLE DE MOFO-BRANCO (SCLEROTINIA SCLEROTIORUM) EM SOJA, NA SAFRA 2021/2022: RESULTADOS SUMARIZADOS DOS EXPERIMENTOS COOPERATIVOS. Embrapa, circular técnica, 189. Londrina – PR, 2022. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1147086/1/Circ-Tec-189.pdf >, acesso em: 14/12/2023.

MEYER, M. C. et al. CONTROLE BIOLÓGICO DE MOFO-BRANCO NA CULTURA DA SOJA. Bioinsumos na Cultura da Soja, cap. 18. Embrapa Soja, 2022. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/234840/1/Bioinsumos-na-cultura-da-soja.pdf >, acesso em: 14/12/2023.

MEYER, M. C. et al. EXPERIMENTOS COOPERATIVOS DE CONTROLE BIOLÓGICO DE SCLEROTINIA SCLEROTIORUM NA CULTURA DA SOJA: RESULTADOS SUMARIZADOS DA SAFRA 2021/2022. Embrapa, circular técnica, 186. Londrina – PR, 2022. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/doc/1145774/1/Circ-Tec-186.pdf >, acesso em: 14/12/2023.

REIS, E. M. et al. CICLO DO MOFO-BRANCO. Revista Plantio Direto, 2011. Disponível em: < https://www.plantiodireto.com.br/storage/files/122/5.pdf >, acesso em: 14/12/2023.

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Equipe Mais Soja
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