É consenso que as culturas de cobertura atuam de forma sinérgica na produção agrícola, sendo indispensáveis para a manutenção e sustentabilidade do sistema de plantio direto. No entanto, para que os benefícios proporcionados por essas espécies sejam plenamente aproveitados, sem impor restrições ao sistema produtivo, é fundamental planejar adequadamente a rotação de culturas e a inserção dessas espécies no calendário agrícola, garantindo maior eficiência e sucesso do sistema de produção.

Portanto, a escolha da espécie a ser cultivada e da época de semeadura deve considerar as características do sistema de produção, o ciclo das plantas, suas aptidões agronômicas e a suscetibilidade a pragas e patógenos. Espécies como o nabo forrageiro, por exemplo, embora amplamente utilizadas na rotação de culturas no Sul do Brasil, podem atuar como hospedeiras de patógenos como o mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum), contribuindo para a manutenção do ciclo da doença nas áreas agrícolas.

O mesmo é valido para áreas com histórico de presença de nematoides, uma vez que determinadas culturas de cobertura como a crotalária e aveia podem ser vulneráveis a determinadas espécies de fitonematoides, contribuindo para a multiplicação das populações da praga (Asmus, 2025). Nesse sentido, avaliar a se a espécie é uma potencial hospedeira de pragas ou doenças presentes na área é crucial para sua escolha.

Quadro 1. Suscetibilidade de algumas plantas componentes dos sistemas de produção de culturas anuais às principais espécies de fitonematoides.
Fonte: Asmus (2025)

Vale destacar que o ciclo das espécies de cobertura, bem como sua capacidade de recobrimento do solo, são fatores determinantes para sua inserção no sistema de plantio direto, uma vez que a adequada cobertura da superfície é essencial para a conservação do solo. Nesse contexto, embora espécies amplamente utilizadas, como o azevém e o nabo forrageiro, possam proporcionar boa cobertura em comparação ao pousio (tabela 1) a utilização de consórcios, ou “mix” de plantas de cobertura, especialmente envolvendo espécies de diferentes famílias, tende a ser uma alternativa ainda mais eficiente. Além disso, é fundamental que as exigências térmicas e fisiológicas das espécies sejam atendidas para garantir adequada atividade fotossintética e elevada produção de matéria seca.

Tabela 1 – Área coberta de solo pelas espécies vegetais aos 90 e 145 dias após emergência (DAE) e matéria seca de cobertura aos 145 DAE.
1/ Médias seguidas por mesma letra minúscula, na coluna, não diferem entre si pelo teste de Tukey (p ≤ 0,05). Fonte: Moraes et al. (2009)

Além dos critérios supracitados, é fundamental posicionar adequadamente as culturas de cobertura dentro da janela de semeadura, de modo que as espécies possam se aproximar do final do ciclo, fase em que ocorre o maior acúmulo de matéria seca e nutrientes na planta. Esse ajuste permite maximizar a ciclagem de nutrientes, que passam a ficar disponíveis para a cultura sucessora após a decomposição e mineralização dos resíduos culturais.

Nesse sentido, no momento de selecionar a espécie, é importante responder às seguintes perguntas:

  • Há necessidade de inserir ao sistema plantas para geração de cobertura viva ou morta?
  • Há conhecimento suficiente sobre a espécie escolhida e sobre formas de manejo da mesma (herbicidas ou outros controles disponíveis)?
  • Quanto de biomassa seca a planta fornece nas suas condições? Acima de 5 toneladas de matéria seca por hectare?
  • A espécie é uma planta fixadora de nitrogênio?
  • A espécie é hospedeira alternativa de pragas insetos ou doenças?
  • A espécie produz semente que se colhida, poderá ser utilizada na próxima safra ou tem sementes de baixo custo?
  • Existem informações sobre efeitos alelopáticos negativos da planta sobre as culturas de sucessão e rotação? (Passos et al., 2013).


Referências:

ASMUS, G. L. MANEJO DE FITONEMATOIDES: ALÉM DA REDUÇÃO DOS NÍVEIS POPULACIONAIS. Informações Agronômicas Proteção De Plantas, N. 10, 2025. Disponível em: < https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1178084/1/37778.pdf >, acesso em: 16/03/2026.

MORAES, P. V. D. et al. MANEJO DE PLANTAS DE COBERTURA NO CONTROLE DE PLANTAS DANINHAS NA CULTURA DO MILHO. Planta Daninha, Viçosa-MG, v. 27, n. 2, p. 289-296, 2009. Disponível em: < https://www.scielo.br/pdf/pd/v27n2/11.pdf >, acesso em: 16/03/2026.

PASSOS, A. M. A. et al. SISTEMA PLANTIO DIRETO: PLANTAS DE COBERTURA. Embrapa Rondônia. Porto Velho – RO, 2013. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/126122/1/folder-plantiodireto.pdf >, acesso em: 16/03/2026.

 

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