A cigarrinha-do-milho, Dalbulus maidis (Hemiptera: Cicadellidae), tornou-se a praga mais temida pelos produtores de milho brasileiros. O principal dano associado a esse inseto é a transmissão de dois fitopatógenos da classe dos molicutes: o espiroplasma (Spiroplasma kunkelii – CSS – corn stunt spiroplasma), causador do enfezamento pálido; e o fitoplasma (MBSP – maize bushy stunt phytoplasma), causador do enfezamento vermelho; além de um vírus, o vírus-da-risca-do-milho (MRFV – maize rayado fino virus). É comum observar plantas de milho com sintomas característicos de ambos os enfezamentos, sendo por essa razão utilizado o termo “complexo de enfezamentos”.

Figura 1. Plantas de milho com sintomas foliares associados ao complexo de enfezamentos, em Santa Maria-RS (2021).

Foto: Henrique Pozebon

Na semana passada, vimos como a biecologia da espécie D. maidis influencia na sua capacidade de infestar lavouras de milho e reduzir significativamente o rendimento de grãos da cultura. Com base nessas informações, é possível delimitarmos seis estratégias básicas para o manejo da cigarrinha-do-milho e do complexo de enfezamentos (Figura 2).



Figura 2. Os seis mandamentos do combate à cigarrinha-do-milho.

Fonte: Grupo de Manejo e Genética de Pragas/UFSM

A primeira medida de manejo consiste na eliminação do milho voluntário das lavouras, um problema que agravou-se a partir do lançamento dos híbridos com tecnologia RR (2013) e que possibilita a sobrevivência do inseto durante a entressafra. Como a espécie é monófaga, alimentando-se apenas de plantas de milho, a eliminação dessa ponte-verde representa uma estratégia importante de manejo. Entretanto, a capacidade do inseto deslocar-se com auxílio das correntes de vento permite uma migração por longas distâncias, chegando até mesmo às lavouras aparentemente isoladas; portanto, é essencial que as estratégias de controle sejam adotadas conjuntamente por todos os produtores de milho. Além disso, como o inseto adulto sobrevive de 45 a 70 dias, seria necessário que as lavouras permanecessem durante todo esse período sem plantas de milho, o que raramente acontece.

A segunda medida envolve o tratamento de sementes, já que o estabelecimento da cultura do milho representa o período de maior suscetibilidade ao ataque de D. maidis. Nesse caso, ingredientes ativos do grupo dos neonicotinoides, como imidacloprido, tiametoxam e clotiadina, apresentam boa eficácia de controle devido à sua alta capacidade de translocação nas plantas. Todavia, à medida que o efeito residual do tratamento de sementes se esgota, torna-se necessário proteger as plântulas de milho com pulverizações foliares. Portanto, a terceira medida consiste na aplicação foliar de inseticidas ou bioinseticidas, a qual pode ser necessária desde a emergência até os estágios V8 ou V10 da cultura; após essa fase, os danos causados pela praga e seus patógenos não mais se refletem em redução significativa na produtividade.

Segundo dados da Fundação MS e relatos de campo, formulações contendo acefato (Orthene, Perito), metomil (Lannate) e associações entre piretroides e neonicotinoides (Engeo Pleno S, Connect, Galil) têm apresentado resultados promissores no controle de D. maidis, bem como bioprodutos à base do fungo entomopatogênico Beauveria bassiana. Entretanto, o sucesso no manejo da cigarrinha-do-milho está mais ligado à frequência das aplicações do que à própria eficiência dos produtos: por tratar-se de um inseto-vetor capaz de inocular seu patógeno em menos de 1 hora, a rapidez de ação do inseticia e o intervalo curto entre aplicações adquirem importância primordial no manejo da praga. Como os bioinseticidas apresentam ação mais lenta, sua eficácia de controle pode ser reduzida; além disso, são produtos que necessitam condições climáticas específicas para atuarem, como temperatura amena e alta umidade. Já no caso dos inseticidas químicos, não é recomendada a aplicação antes das 9 horas da manhã, já que o inseto se esconde na palhada durante os períodos de temperatura amena, tornando-se mais ativo à medida que a temperatura aumenta.

Figura 3. Ciclo biológico da cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) e locais preferenciais de ocorrência na planta de milho.


Fonte: Grupo de Manejo e Genética de Pragas/UFSM, adaptado de Embrapa Milho e Sorgo.

A quarta medida de manejo envolve a redução da janela de semeadura, já que a sobreposição de cultivos (como milho safra e safrinha) permite a migração das populações de cigarrinha das lavouras velhas para as lavouras jovens. Além disso, deve-se evitar o cultivo próximo de lavouras de milho já contaminadas com o complexo de enfezamentos, embora a alta capacidade de migração do inseto dificulte o estabelecimento de um isolamento efetivo. A quinta medida consiste na utilização de híbridos de milho com tolerância ao complexo de enfezamentos; entretanto, essa tolerância não é total e deve ser complementada com o uso de inseticidas químicos e biológicos. Além disso, os genes que conferem essa tolerância estão associados a híbridos de milho com ciclo mais longo.

Por fim, a sexta e última medida de manejo envolve o controle escalonado da cigarrinha nas bordaduras, local por onde costuma iniciar-se a infestação da praga nas lavouras de milho. Nesse caso, o monitoramento das lavouras é fundamental. Nem todos os indivíduos de cigarrinha presentes em uma área estarão infectados pelos molicutes; contudo, os custos e o tempo necessários para a confirmação da presença dos patógenos via análises de DNA (PCR) tornam inviável a utilização desse critério para tomada de decisão pelo produtor, sendo mais aplicável como uma ferramenta auxiliar de monitoramento em larga escala. Assim, o diagnóstico da presença do inseto-vetor na lavoura semeada ou em área vizinhas é o critério mais indicado para iniciar um planejamento de manejo para a praga, com base nos seis mandamentos do combate à cigarrinha-do-milho.

Revisão: Prof. Jonas Arnemann, PhD. e coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM



REFERÊNCIAS

DE OLIVEIRA, C. M.; SABATO, E. de O. Doenças em milho: insetos-vetores, molicutes e vírus. Embrapa Milho e Sorgo, 2017.

MENDES, S. M. et al. Manejo de pragas no milho de segunda safra: com ou sem a utilização de milho Bt. Embrapa Milho e Sorgo, 2019.

MENESES, A. R; QUERINO, R. B.; OLIVEIRA, C. M.; MAIA, A. H. N; SILVA, P. R. R. Seasonal and vertical distribution of Dalbulus maidis (Hemiptera: Cicadellidae) in Brazilian corn fields. Florida Entomologist, v. 99, n. 4, p. 750-754, 2016.

OLIVEIRA, E. de et al. Enfezamentos em milho: expressão de sintomas foliares, detecção dos molicutes e interações com genótipos. Embrapa Milho e Sorgo, 2002.

OLIVEIRA, C. M.; SÁBATO, E. O. Estratégias de manejo de Dalbulus maidis, para o controle de Enfezamentos e Virose na cultura do milho. In PAES, M.C.D.; VON PINHO, R.G.; MOREIRA, S.G. Soluções integradas para os sistemas de produção de milho e sorgo no Brasil. XXXII Congresso Nacional de Milho e Sorgo, Sete Lagoas, MG, p. 748-777, 2018.

Nenhum comentário

Deixar um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.