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Países devem se unir para que os sistemas agroalimentares enfrentem os efeitos das mudanças climáticas

O pesquisador Martial Bernoux, representante do Escritório de Mudanças Climáticas, Biodiversidade e Meio Ambiente (OCB) da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), propôs uma reflexão aos participantes do Encontro Mundial dos Líderes da Pesquisa Agrícola (MACS G20), evento coordenado pela Embrapa, que ocorre até 17 de maio, na sede do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), em Brasília (DF). “Sabemos e estamos prontos para implantar a maior parte das estratégias que promovem a resiliência dos sistemas agroalimentares e sua adaptação às mudanças climáticas, mas não as estamos implantando em escala”, provocou o pesquisador.

Com base em publicação da FAO, que resume dados do sexto relatório de avaliação de impactos, adaptação e vulnerabilidades do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), Bernoux elencou conhecimentos e tecnologias já disponíveis. Citou, por exemplo, o melhoramento convencional de plantas e animais, as técnicas da moderna biotecnologia e o sequenciamento de genomas, voltados ao desenvolvimento de novas cultivares e raças mais resilientes.

Enfatizou as práticas de manejo e técnicas de irrigação mais racionais, além de sistemas de produção sustentáveis como as agroflorestas e a integração lavoura-pecuária-floresta (foto à direita). Mencionou adaptações na cadeia de suprimentos, capazes de promover formas mais eficazes de conservação e armazenamento de alimentos.

“No entanto, variáveis socioeconômicas e políticas limitam a adoção de culturas e raças resilientes às alterações climáticas, especialmente por parte dos agricultores mais vulneráveis”, ponderou Bernoux. O fluxo de finanças e investimentos, as necessidades de métricas e ferramentas e políticas aprimoradas são, segundo o pesquisador, os principais gargalos globais.

“Agricultores precisam de ter apoio em seus investimentos para mudar a forma de produzir ou de gerir suas propriedades. Ao mesmo tempo, se não há métricas, se não é possível medir o sucesso e os resultados da adoção de novas soluções, não há como convencer investidores”, ressaltou.  “Políticas envolvem as relações que os países estabelecem com instituições financeiras ou iniciativas para investimentos mundiais, a exemplo do Banco Mundial e do Fundo Verde para o Clima (em inglês, Green Climate Fund – GCF). Esses investidores precisam verificar se as propostas de financiamento dos países estão de fato refletidas nas suas políticas nacionais”.

“Desafios coletivos exigem soluções coletivas”, afirma Bernoux

Nas questões socioeconômicas, insere-se, segundo o pesquisador,  o apoio técnico necessário e níveis de confiança para que o agricultor possa tomar decisões sobre a adoção de novas tecnologias e recomendações para sua produção, substituindo práticas conhecidas, tradicionalmente usadas e já capazes de fornecer o retorno esperado. “Em certos casos, são decisões coletivas, de uma comunidade, e não individual, de um único produtor. Desafios coletivos exigem soluções também coletivas e essas devem ser adequadas às condições locais”.

Bernoux chama a atenção para a necessidade de que os conhecimentos e as recomendações sejam também integrados. “Muitas vezes produtores recebem orientações de diversos especialistas sobre soluções a serem adotadas, sendo que eles precisam de uma indicação mais objetiva, holística, que traga benefícios de forma ampla.  É preciso quebrar silos”, defende o pesquisador, referindo-se à necessidade de ultrapassar recomendações restritas a áreas do conhecimento e a fontes de informação específicas.

As soluções coletivas devem contemplar também o reforço da capacidade dos países em identificar e acessar investimentos; de desenvolver e aplicar conhecimentos; e de garantir que os sistemas agroalimentares sejam integrados e priorizados nas políticas relacionadas às mudanças climáticas.

Investimentos internacionais decrescentes

Martial Bernoux destacou, ainda, dados da FAO que apontam a agricultura como dos setores com mais necessidade dos financiamentos globais frente às mudanças do clima. No entanto, de forma paradoxal, os financiamentos internacionais voltados à mitigação, à adaptação e à maior resiliência dos sistemas agroalimentares, analisados no período entre 2008 e 2021, estão em curva decrescente, reduzidos em cerca de 19%.

Estudos promovidos pela Organização fornecem dados que podem apoiar os países nas tomadas de decisão e indicam a necessidade de parcerias além de fronteiras. “Precisamos atrair mais investimentos”, diz Bernoux. Aos olhos dos investidores, segundo ele, a agricultura tem que ser entendida na sua importância. “É ela a fonte de alimentos e nutrição para as populações do mundo e é também capaz de entregar soluções para questões globais”.

Riscos e necessidades de adaptação

Quando do Acordo de Paris, assinado em 2015, os países signatários estabeleceram metas de redução de emissão de gases de efeito estufa – a Contribuição Nacionalmente Determinada (na sigla em inglês, NDC). Esses países identificaram riscos decorrentes das mudanças climáticas e necessidades de adaptação.  Os que mais aparecem nos documentos são inundações (22%), seca (18%), degradação do solo (17%), aumento do nível do mar (que também provoca a salinização dos solos – 10%) e pragas e doenças (8%).  Entre os setores mais importantes para adaptação estão florestas (88%), pós-colheita (85%) e ecossistemas dos oceanos e litorais (82%). E entre as comunidades mais atingidas pelos efeitos do clima, os países apontaram mulheres, indígenas e pequenos produtores.

“As pessoas são as mais afetadas por esses efeitos. Precisamos melhorar nossas políticas, nos conectar de forma a protegê-las e garantirmos a segurança alimentar, entendida na complexidade que envolve a produção, os aspectos nutricionais, a estabilidade da oferta e o acesso das populações aos alimentos”.

A palestra de Martial Bernoux – Estratégias para promover a adaptação e a resiliência dos sistemas agroalimentares – fez parte do painel Alterações Climáticas e Resiliência dos Sistemas Agroalimentares, na programação do MACS G20.

Fonte: Embrapa



 

FONTE

Autor:Embrapa

Site: EMBRAPA

Equipe Mais Soja
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