O mercado brasileiro de trigo vai encerrando 2020 com a comercialização bastante lenta. Neste período de virada de ano, a indústria entra em férias coletivas, reduz seu ritmo de moagem e, consequentemente, sua necessidade de reposição dos estoques. Apesar dos preços firmes e da baixa liquidez, o analista de SAFRAS & Mercado, Jonathan Pinheiro, vê um leve viés baixista às cotações.

“Ainda há oferta disponível da colheita nacional e o dólar vem apresentando retrações em relação ao real nas últimas semanas, o que tira a competitividade do produto brasileiro, pois reduz os custos de importação. Além disso, segue a colheita na Argentina”, comentou.

Há que se considerar que as lavouras argentinas devem receber chuvas durante a colheita, portanto, novos reajustes negativos no potencial produtivo do país não são descartados. Até o momento, os primeiros lotes de trigo do país vizinho que chegam ao Brasil são de qualidade inferior à habitual, mas a expectativa é de que o grão que chegue a partir do ano que vem deve ser de melhor qualidade. A greve na Argentina reduz o ritmo de exportações o país, mas os impactos imediatos não são acentuados. “Se prolongada, a greve pode favorecer altas no Brasil, devido à necessidade de buscar o grão em destinos distantes, como Estados Unidos, Canadá e Rússia”, disse o analista.

Retrospectiva

Ao longo deste ano, a combinação de diversos fatores levou à alta dos preços de referência no Brasil. Este patamar elevado persistiu durante a maior parte de 2020. “O ano já começou marcado pela quebra da produção nacional em 2019, o que reduziu a oferta interna e aumentou a dependência por importações. Em paralelo a isso, a economia mundial já começava a refletir o crescimento dos casos da covid-19. Em março, o dólar começou uma disparada em relação ao real e se aproximou dos R$ 6,00 em abril”, lembrou Pinheiro.

Conforme o analista, preocupações com o abastecimento fizeram com que vários países começassem a tomar medidas protecionistas, o que reduziu a disponibilidade do grão no mercado internacional. Além da pandemia, o clima desfavorável em importantes países produtores trouxe novas preocupações quanto ao abastecimento. “A Argentina passou por uma das secas mais severas na última década, tendo seu potencial produtivo reduzido em 18%, de 20,5 para as atuais 16,8 milhões de toneladas”, Pinheiro reitera que foi essa combinação de fatores que manteve os preços sustentados até o momento.

Perspectiva 2021

À espera da vacina, o mercado brasileiro deve iniciar o próximo ano atento à volatilidade cambial. O imunizante deve atenuar as incertezas em torno da conjuntura econômica mundial, favorecendo uma retração do dólar e diminuindo as preocupações com o abastecimento. Isso deve favorecer um cenário baixista aos preços nos mercados externo e interno, menos num período de menor entrada de oferta no Brasil.

Fonte: Agência SAFRAS

Texto originalmente publicado em:
Safras e Mercados
Autor: Gabriel Nascimento - Agência SAFRAS

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