Os percevejos integram o time das principais pragas da soja, podendo causar danos de ordem quantitativa e qualitativa nos grãos ou sementes produzidas. O controle químico com a utilização de inseticidas é o método mais empregado para o controle da praga, entretanto, o manejo dos percevejos em soja começa antes mesmo da semeadura da cultura na lavoura, com o manejo das plantas daninhas.

Segundo Brighenti & Oliveira (2011), através da matocompetição, as plantas daninhas podem causar danos diretos na cultura pela matocompetição e danos indiretos, os quais são resultantes do papel desempenhado pelas plantas daninhas como hospedeiras de pragas e doenças.

Geralmente, após abandonar as culturas de verão, os percevejos se alimentam de plantas hospedeiras alternativas e podem completar mais uma geração, antes de se deslocarem para os nichos de hibernação, ou podem, ainda, continuar a se reproduzir nas plantas alternativas. Além disso, algumas espécies podem se alimentar de culturas de entressafra, cultivadas em sistema de semeadura direta. Nessas áreas, permanecem no solo sob restos culturais de soja, onde encontram abrigo (palhada) e alimento (sementes maduras caídas) e conseguem sobreviver (Panizzi; Bueno; Silva, 2012).



Plantas daninhas como a Buva (Conyza spp), o amendoim-bravo (Euphorbia heterophylla L), o caruru (Amaranthus spp.), e gramíneas como o capim-rabo-de-burro (Andropogon bicornis L.), capim-amargoso (Digitaria insularis), entre outras, podem servir como hospedeiras e ponte ver para percevejos como o percevejo-marrom (Euschistus heros). Espécies como Crotalaria lanceolata, feijão-guandu e várias espécies de anileiras (Indigofera hirsuta, I. truxillensis Kunth e I. suffruticosa.) podem servir de hospedeiras do percevejo verde-pequeno (Piezodorus guildinii), conforme destacado por (Panizzi; Bueno; Silva, 2012).

Muitas vezes, estas plantas daninhas já estão produzindo sementes, o que as torna mais atrativas e nutritivas aos percevejos, que encontrando alimentos, multiplicam-se, atingindo níveis populacionais elevados nos estadios sensíveis da soja, pois já completaram outras gerações alimentando-se das plantas daninhas.

Figura 1. Infestação de percevejos em planta daninha, o exemplo do Caruru, provando que pode ir muito além da matocompetição. Foto: @albrecht_alfredo

Fonte: Alfredo Albrecht

Avaliando a incidência de percevejos no capim rabo-de-burro durante a entressafra de soja e milho, Engel et al. (2019), observaram que a medida em que o diâmetro da touceira da planta daninha aumentava, maior era a população de percevejos abrigados na planta daninha.

Figura 2. Densidade populacional de percevejos em função do diâmetro da touceira de capim rabo-de-burro.

Eh (Euschistus heros); Df (Dichelops furcatus); Dm (Dichelops melacanthus); Em (Edessa meditabunda); Er (Edessa ruformaginata); Pg (Piezodorus guildinii).
Adaptado: Engel et al. (2019).

Na mesma linha de raciocínio, Engel; Pasini; Hörz (2018), avaliaram a “densidade populacional de pentatomídeos influenciada pela estrutura morfológica de diferentes plantas no município de Cruz Alta, RS”, entretanto, os autores analisaram além do Andropogon bicornis as plantas daninhas Chloris distichophylla e Erianthus angustofolium. Os resultados encontrados pelos autores demonstram que o diâmetro dessas plantas hospedeiras tem influência direta sobre as populações de pentatomídeos fitófagos das espécies E. heros, D. furcatus e E. meditabunda (Engel; Pasini; Hörz, 2018).

Ou seja, além da planta daninha servir como hospedeira dos percevejos, seu diâmetro e/ou tamanho pode influenciar na capacidade da planta daninha em abrigar percevejos. Podendo a presença das plantas daninhas, alterar inclusive a frequência das pragas durante a entressafra e safra das culturas agrícolas.

Fonte: Alfredo Albrecht

Figura 3. Frequência observada de percevejos em plantas hospedeiras durante a entressafra de soja e milho. Cruz Alta, RS, safras 2014/2015/2016/2017.

Eh (Euschistus heros); Df (Dichelops furcatus); Dm (Dichelops melacanthus); Em (Edessa meditabunda); Er (Edessa ruformaginata); Pg (Piezodorus guildinii).

Independentemente da espécie de planta daninha, sua presença na entressafra de culturas agrícolas pode resultar em preservação e manutenção das populações de percevejos, tornando possível a incidência da praga logo no início da cultura sucessora.

Assim, o manejo de percevejos tem início na entressafra da cultura, através do controle de plantas daninhas, as quais além da preservação da praga, pode hospedar doenças prejudiciais ao desenvolvimento da soja.

Referências:

BRIGHENTI, A. M.; OLIVEIRA, M. F. BIOLOGIA E MANEJO DE PLANTAS DANINHAS. Cap. 1, 2011. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/45445/1/Biologia-plantas-daninhas.pdf >, acesso em: 25/11/2020.

ENGEL, E. et al. Andropogon bicornis L. (Poales: Poaceae): A STINK BUG SHELTER IN THE SOYBEAN AND CORN OFF-SEASON IN SOUTHERN BRAZIL. BioRxiv, jun. 2019. Disponível em: <  https://www.biorxiv.org/content/10.1101/675157v1.abstract >, acesso em: 25/11/2020.

ENGEL, E.; PASINI, M. P. B., HÖRZ, D. C. Densidade populacional de pentatomídeos influenciada pela estrutura morfológica de diferentes plantas no município de Cruz Alta, RS. Rev. Cienc. Agrar., v. 61, 2018. Disponível em: < http://ajaes.ufra.edu.br/index.php/ajaes/article/view/2815/1501 >, acesso em: 25/11/2020.

PANIZZI, A. R.; BUENO, A. F.; SILVA, F. A. C. INSETOS QUE ATACAM VAGENS E GRÃOS. Soja: manejo integrado de insetos e outros Artrópodes-praga, Cap. 5, 2012, Disponível em: < http://www.cnpso.embrapa.br/artropodes/Capitulo5.pdf >, acesso em: 25/11/2020.

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