A produção de soja no Brasil tem sido historicamente afetada pela introdução de pragas não-nativas que atacam a cultura, impactando severamente a biodiversidade, a segurança alimentar, a saúde e o desenvolvimento econômico do país. As extensões continentais do Brasil, sua grande diversidade de condições climáticas e intenso comércio de bens primários com outros países tornam-no um alvo constante para invasões biológicas.

Além de reduzir a produtividade da cultura, tais invasões ocasionam aumento no uso de inseticidas pelos produtores, fator que eleva os custos de produção e potencializa impactos ambientais. Exemplos notórios que atestam essa premissa foram as introduções de Bemisia tabaci MEAM1 (mosca-branca), T. urticae (ácaro-rajado) e H.armigera no Brasil, eventos que contribuíram para que o uso de inseticidas na soja triplicasse de 1990 a 2016 (Figura 1).

Figura 1. Uso de inseticidas e acaricidas (toneladas) e área colhida (hectares)com soja no Brasil, de 1990 a 2016. Eventos de invasão ou crescimentopopulacional indicados, da esquerda para direita: Bemisia tabaci MEAM1, Tetranychus urticae, Helicoverpa armigera e Melanagromyza sojae.

Fonte: POZEBON et al. (2020). Confira a imagem original clicando aqui.

Em média, três novas pragas invasivas são detectadas no país a cada ano,  evidenciando a fragilidade das barreiras de biossegurança brasileiras (SUGAYAMA et al., 2015). Somando-se o impacto das pragas invasivas às pragas nativas, a agricultura brasileira perde anualmente 17,7 bilhões de dólares devido ao ataque de artrópodes (OLIVEIRA et al., 2013).

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) mantém 110 unidades de vigilância (VIGIAGRO) encarregadas de impedir a entrada de espécies exóticas (Figura 2, à esquerda). Entretanto, os pontos considerados críticos para entrada de pragas no país são muito mais numerosos e vários permanecem desguarnecidos  (Figura 2, à direita). O oeste da Bahia, por exemplo, representa uma zona de alerta para invasões devido ao intenso cultivo de soja, milho e algodão e presença de um aeroporto no município de Barreiras.

Figura 2. Pontos de vigilância agrícola internacional (VIGIAGRO), à esquerda, e pontos críticos para entrada de pragas invasivas no Brasil, à direita.

Fonte: POZEBON et al. (2020). Confira a imagem original clicando aqui.

À medida que uma praga invasiva alastra-se no espaço (novas áreas colonizadas) e tempo (anos após a introdução), os custos necessários para o seu controle aumentam proporcionalmente, enquanto a eficácia de controle diminui (HARVEY; MAZZOTTI, 2014). Portanto, prevenir a entrada e o estabelecimento de uma praga não-nativa no país é a medida mais economicamente viável para evitar impactos negativos.

Caso a prevenção seja ineficaz e a praga adentre o país, deve-se direcionar esforços  para interromper a progressão da curva o mais cedo possível, por meio de erradicação ou contenção, mitigando assim os efeitos deletérios da invasão (Figura 3). O histórico recente de invasões no Brasil e países vizinhos demonstra a ineficácia dos protocolos de biossegurança sul-americanos, indicando que novas pragas podem vir a ameaçar a produção de soja brasileira em um futuro próximo.

Figura 3. Modelo de curva ilustrando as três fases típicas de uma invasão, após a introdução de uma espécie-praga não-nativa no país, e as medidas de manejo pertinentes a cada fase.

Fonte: POZEBON et al. (2020). Confira a imagem original clicando aqui. 

Elaboração: Henrique Pozebon

Revisão: Prof. Jonas Arnemann, PhD e Coordenador do Grupo de Manejo e Genética de Pragas – UFSM

REFERÊNCIAS:

HARVEY, R. G.; MAZZOTTI, F. J. The invasion curve: a tool for understanding invasive species management in South Florida. 2014. Disponível em: <https://edis.ifas.ufl.edu/pdffles/UW/UW39200.pdf>. Acesso em: 18 mai. 2020.

OLIVEIRA, C. M. et al. Economic impact of exotic insect pests in Brazilian agriculture. Journal of Applied Entomology, v. 137, p. 1-15, 2013.

POZEBON, H. et al. Arthropod invasions versus soybean production in Brazil: a review. Journal of Economic Entomology, v. 113, n. 4, p. 1591–1608, 2020.

SUGAYAMA, R. L. et al. Defesa vegetal: fundamentos, ferramentas, políticas e perspectivas. Belo Horizonte: Sociedade Brasileira de Defesa Agropecuária, 2015.

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