Recentemente o MAPA divulgou uma portaria com 40 pragas eleitas como prioridades para registro e alteração de registro de agrotóxicos em 2019, e o azevém (Lolium multiflorum) ocupa uma das posições de destaque na cultura do trigo. Para acessar a portaria clique aqui.

O consumo anual de trigo no Brasil é de cerca de 11,8 milhões de kg, e o consumo per capita é de cerca de 59 kg ha-1 (Conab, 2017). No entanto, a interferência de plantas daninhas pode causar perdas de rendimento em culturas de cereais de até 80%, dependendo do nível de infestação (Izquierdo et al., 2003).



Saiba mais sobre essa planta daninha e a resistência que ela apresenta

O azevém (Lolium multiflorum) é uma espécie gramínea de ciclo anual, que se constitui, com frequência, em planta indesejada em lavouras de trigo no Sul do Brasil. Embora o azevém também seja utilizado como espécie forrageira durante o inverno, ele pode se constituir em planta daninha em culturas como trigo e milho. Além disso, plantas voluntárias são fonte de permanência das sementes e de infestações futuras, quando da utilização destas na prática de rotação de culturas de cereais de inverno, como cevada, centeio, trigo e triticale.

A dessecação das plantas daninhas tem grande importância para o estabelecimento de uma lavoura, visto que a emergência destas, juntamente com a cultura, provoca danos tanto na produtividade como na qualidade dos grãos. O azevém tem se apresentado como um importante problema na cultura do trigo, estando, muitas vezes, já presente por ocasião da semeadura da cultura. Nos últimos anos, os produtores observaram dificuldade para controlar o azevém com o herbicida glyphosate, prática comumente realizada.

A insensibilidade de plantas daninhas a princípios químicos pode ser causada por diferentes mecanismos, como: inibição na absorção e/ou translocação do herbicida nos biótipos; alteração no sítio de ação do herbicida; superprodução do sítio de ação; incremento no metabolismo do herbicida na planta; e compartimentalização ou sequestro do herbicida (Matiello et al., 1999). A maioria dos casos relatados diz respeito a alterações no sítio de ação e aumento na degradação metabólica do herbicida pela planta daninha.

O surgimento de biótipos resistentes ocorre, com maior frequência, em áreas onde há uso repetido de herbicidas de um mesmo grupo ou pertencentes a diferentes grupos, mas com o mesmo mecanismo de ação (Gressel & Segel, 1990). Os fatores mais importantes que influenciam a seleção de biótipos resistentes são a intensidade de uso, a eficiência e persistência do herbicida, a eficácia dos mecanismos de resistência, a especificidade do herbicida com respeito ao mecanismo de ação, o padrão de emergência da planta daninha e a eficiência dos métodos de controle alternativos aos métodos químicos (Rubim, 1991). O uso do glyphosate para dessecação de áreas infestadas com azevém é comum no Rio Grande do Sul e vem sendo repetido há longo tempo.

Existem sete mecanismos de ação que contém herbicidas para controle de azevém na cultura do trigo, dos quais três já possuem biótipos resistentes (Tabela 1). Para a dessecação que antecede a semeadura do trigo existem quatro mecanismos de ação e sete herbicidas, sendo que para dois mecanismos de ação (inibidores de ACCase e inibidores de EPSPS) existem biótipos resistentes (Tabela 2).

Quanto aos sete herbicidas seletivos à cultura, não há caso de resistência para aqueles cujo alvo é o solo (inibidores da síntese detubulina e inibidores da síntese de ácidos graxos de cadeia muito longa), contudo existem biótipos resistentes àqueles aplicados na folhagem (inibidores da ACCase e inibidores da ALS) (Tabela 2).

Os casos de resistência múltipla biótipos BR3, BR4 e BR5 (Tabela 1), restringem as opções de controle (Tabela 1 e Tabela 2). No caso do BR3 (resistente a inibidores da ACCase+EPSPS), restariam somente herbicidas imóveis para uso na dessecação que antecede a semeadura do trigo, limitando a obtenção de controle eficaz a aplicação nos estádios iniciais de desenvolvimento do azevém (antes do afilhamento).

No caso do BR4 (resistente a inibidores da ACCase+ALS), perde-se os herbicidas seletivos aplicados na folhagem (clodinafope, pinoxadem, iodosulfurom e piroxsulam), restando como alternativa apenas os herbicidas pendimetalina e piroxsasulfone.

Em estudos realizados por Roman et al., (2004), onde estudou-se a resistência do azevém ao glyphosate pôde-se observar os seguintes acúmulos de matéria seca em biótipos sensíveis e resistentes:

Tabela 3: Acúmulo de matéria seca em um biótico sensível e um biótipo resistente de azevém a diferentes herbicidas, 25 dias após o tratamento.

Fonte: Revista Planta Daninha.
Fonte: Revista Planta Daninha.

Momento de intervenção e controle do azevém em trigo

A forma ideal para se fazer o controle do azevém é utilizando produtos pré-emergentes e/ou cerca de 25 a 30 dias após a emergência do trigo, que compreende a fase de perfilhamento do mesmo, ou então quando o azevém estiver na fase de plântula (agulha), isso serve também para a aveia. Deve-se utilizar herbicidas que tenham registro para essa planta daninha sendo os mais comumente utilizados na nossa região o  iodosulfurom-metílico, Clodinafope-Propargil e o pyroxsulam. A eficácia desses herbicidas é maior quando aplicado em plantas daninhas jovens com 2 a 4 folhas, mas vale destacar que essas plantas daninhas tem que ter uma área folhar suficiente para a absorção dos herbicidas.

Lembrando-se que não se deve aplicar herbicidas de pós-emergentes quando ocorrem períodos de stress hídrico, umidade relativa do ar inferior a 50% e de temperatura do ar igual ou inferior a 10 graus centigrados, pois nessas situações a eficácia dos herbicidas é prejudicada. Durante a estação fria, indica-se temperatura do ar superior a 10 oC, umidade relativa do ar superior a 60%, ausência de orvalho e presença de sol (céu limpo), para o funcionamento adequado dos herbicidas no momento da aplicação.

A eficiência do controle de azevém após o estabelecimento da cultura do trigo está estreitamente relacionada com o resultado da dessecação em pré- semeadura. Sobras de plantas da dessecação comprometem a eficiência dos herbicidas seletivos aplicados em pós-emergência da cultura e do azevém.

A resistência do azevém aos herbicidas pode ser apontada como outra causa importante para as falhas de controle, tanto antes da semeadura (dessecação) como após a emergência do trigo (pós-emergência). Desde 2003 convive-se com biótipos de azevém resistentes a herbicidas inibidores da EPSPS (glifosato) e, mais recentemente, com biótipos resistentes a herbicidas inibidores da ALS, inibidores da ACCase+EPSPS, ACCase+ALS e AACase+EPSPS. Dessa forma, o azevém deve receber atenção redobrada em lavouras de trigo.



Elaboração: Andréia Procedi – Equipe Mais Soja.

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