Objetiva-se com este trabalho avaliar a produtividade de grãos em relação a produção de silagem de planta inteira em solo sob plantio direto com e sem escarificação e plantas de cobertura hibernais.

Autores: Letícia C. Piccinini1; Adriano V. Garcia2; Leonardo V. Kroth2; Gustavo Donati2; Thamires R. S. Valle2; William A. E. Kroth2; Amanda P. Martins2

Introdução

A região Sul do Brasil produz em torno de 37% do leite brasileiro (IBGE, 2021), sendo que no Rio Grande do Sul, cerca de 86% das propriedades utilizam silagem no verão ou no inverno (EMATER, 2019). O milho é a cultura padrão para produção de silagens, por permitir elevada produção de energia digestível por hectare, se comparado a outras espécies forrageiras (Velho et al., 2007), o que deve-se, em parte, pela participação de grãos na massa ensilada. A maior participação de grãos eleva a qualidade bromatológica da forragem, devido ao amido elevar os nutrientes digestíveis totais da silagem. A escarificação e as plantas de cobertura influenciam na estrutura do solo e na ciclagem de nutrientes, podendo influenciar na nutrição e produtividade do milho (Secco et al., 2009; Assmann et al., 2017). Objetiva-se com este trabalho avaliar a produtividade de grãos em relação a produção de silagem de planta inteira em solo sob plantio direto com e sem escarificação e plantas de cobertura hibernais.

Material e Métodos

O experimento vem sendo desenvolvido desde 2018, e localiza-se em Roca Sales/RS, na Granja Piccinini, em um Cambissolo háplico com 28% de argila, e com teores muito altos de fósforo, potássio, cobre e zinco (CQFS-RS/SC, 2016). O delineamento experimental foi o de blocos ao acaso, com três repetições. Todos os tratamentos tiveram calagem inicial, com o corretivo de acidez aplicado na superfície do solo no ano de 2018, e com dois manejos de solo, sendo: 1) plantio direto de inverno e verão, e 2) escarificação (camada 0-0,20 m) do solo antes da semeadura de inverno e plantio direto no verão. Visando avaliar o efeito da cobertura hibernal, sobre estes tratamentos foram alocados os tratamentos secundários com as plantas de cobertura: aveia (Avena sativa); aveia em consórcio com ervilhaca (Vicia sativa); nabo (Raphanus sativus); e a testemunha com pousio (plantas espontâneas provenientes de banco de sementes).

Para esse estudo, cujas avaliações foram realizadas na safra agrícola 2020/2021, a semeadura do milho BM3066 Pro3 ocorreu em 12/10/2020, com espaçamento 0,45 m entrelinhas, com 66.000 sementes ha-1. A adubação da lavoura consistiu na adição de 95 kg ha-1 de ureia (45%N) na linha semeadura, e posteriormente e em estádio V5, através de 225 kg ha-1 ureia. A produtividade de matéria seca (MS) das plantas de milho para silagem foi avaliada em 23/01/2021 quando as plantas de milho encontravam-se em R5, com 30% de MS, através do corte de 1 metro linear de plantas, a partir dos 0,5 m acima do solo. O rendimento de MS e o teor de MS das plantas, foi realizado conforme Tedesco et al. (1995), e a produtividade de grãos de milho foi obtida através da debulha das espigas. O teor de umidade dos grãos foi determinado em medidor de umidade de grãos Steinlight, e posteriormente o rendimento foi corrigido para o teor de umidade de 13%.

Os dados foram organizados em planilhas Excel e posteriormente foram analisados estatisticamente com o programa R, tendo as pressuposições da análise de variância cumpridas, seguiu-se com o teste de comparação de médias Tukey a 5% de significância.

Resultados e Discussão

A produção média de silagem e de grãos de milho para o experimento foi de 15,2 Mg MS ha-1 de silagem (Figura 1) e 4,2 Mg ha-1 de grãos (13% umidade), respectivamente. O valor médio para o manejo escarificado foi de 14,6 Mg MS ha-1 de silagem, e para o manejo sem escarificação, foi de 15,7 Mg MS ha-1 de silagem. Estes valores significariam médias de 41 e 45 Mg ha-1 de silagem em matéria natural, contendo 35% de MS respectivamente, o que se situa acima da média do RS que é de 28 Mg ha-1 (Emater, 2021). O manejo escarificado obteve média de 4,7 Mg ha-1 de grãos, e o manejo não escarificado obteve média 3,6 Mg ha-1 de grãos.

Figura 1. Produção de grãos e de silagem no gráfico de barras (eixo esquerdo) e a Relação da Produção de Grãos com a Produção de Silagem na linha vermelha (eixo direito) para os dois manejos de solos e quatro coberturas de solo analisadas. As letras maiúsculas diferem os sistemas de manejo do solo para produtividade de grãos para p<0,05, não houve interação estatística sobre Relação Produção de Grãos por Produção de Silagem nem na produção de Silagem.

Dentre as plantas de cobertura no manejo com escarificação, a maior produção de grãos no milho para silagem ocorreu nas parcelas onde houve cultivo do consórcio aveia e ervilhaca no inverno, com valor de 5,7 Mg ha-1 de grãos. Este rendimento é ligeiramente superior produção média de grãos de milho do RS em 2020/2021 (5,4 Mg ha-1 de grãos) segundo a Emater-RS (2021). Porém, pondera-se que esta lavoura foi colhida previamente à maturação fisiológica, não tendo atingido ainda o máximo acúmulo de matéria seca nos grãos, que só ocorre no estádio R6 (SANGOI et al., 2010). Ainda considerado o manejo com escarificação, o menor rendimento ocorreu nas parcelas com cultivo de aveia no inverno, atingindo uma produção de apenas 4,0 Mg ha-1 de grãos no milho para silagem.

Em relação ao manejo onde não houve a escarificação, coube ao pousio a maior produção de grãos de milho com rendimento de 4,3 Mg ha-1 de grãos, e do consórcio aveia e ervilhaca a menor produção de grãos de milho, com rendimento de 2,9 Mg ha-1 de grãos.

Apesar de aparentar tendência de maior relação de produção de grãos em relação à produção de silagem no manejo sob escarificação, não houve diferença estatística, ou interação sobre a relação da produção de grãos por produção de silagem, tampouco entre as plantas de cobertura antecessoras. Para verificar o comportamento ao longo das safras, os dados continuarão sendo coletados, para avaliar se há influência das condições meteorológicas, bem como quantificar se há diferenças de plantas de cobertura antecessoras ao cultivo do milho.

Conclusão

O manejo de solo com escarificação previamente à implantação das coberturas de inverno propiciou maior produtividade de grãos de milho, em relação ao manejo sem escarificação. As plantas de cobertura não afetaram a produtividade de silagem e a relação entre a produtividade de grãos por silagem.

Informações sobre os autores:

  • 1Eng. Agrônoma, Coop. Dália Alimentos Ltda, Encantado/RS. E-mail: leticiap@dalia.com.br
  • 2Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre/RS. E-mail: adrivilmar@gmail.com; leonardovkroth@gmail.com; gustavo.donati7@gmail.com; valle.thamires@gmail.com; williamkroth64@gmail.com; amanda.posselt@ufrgs.br.

Referências

ASSMANN, J. M. et al. Phosphorus and potassium cycling in a long-term no-till integrated soybean-beef cattle production system under different grazing intensities insubtropics. Nutrient Cycling in Agroecosytems, v. 108, p. 21-33, 2017.

CQFS-RS/SC – Comissão de Química e Fertilidade do Solo- RS/SC. Manual de Calagem e Adubação para os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. 2016. 376p.

EMATER – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural. Relatório socioeconômico da cadeia produtiva do leite no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Emater/RS-Ascar, 2019.114 p.

GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL (RS). EMATER. Safra de verão 2020-2021: Estimativas atuais de área, produtividade e produção. In: Estimativas atuais de área, produção e produtividade. [S. l.], março 2021. Disponível em: https://estado.rs.gov.br/upload/arquivos//apresentacao-safra-de-verao-20-21-ok.pdf. Acesso em: 16 ago. 2021.

GOVERNO FEDERAL (Brasil). IBGE. SIDRA: Pesquisa Trimestral do Leite. In: Leite: Número de informantes e quantidade de leite cru, resfriado ou não, adquirido e industrializado, segundo as Unidades de Federação. [S. l.], 8 jun. 2021. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/home/leite/brasil. Acesso em: 16 ago. 2021.

SANGOI, L. et al. Ecofisiologia da cultura do milho para altos rendimentos Lages: Graphel, 2010a. 87p.

SECCO, D. et al. Atributos físicos e rendimento de grãos de trigo, soja e milho em dois Latossolos compactados e escarificados. Ciência Rural, v. 39, n. 1, p. 58-64, 2009.

TEDESCO, M. J. et al.,. Análise de solo, plantas e outros materiais. 2.ed. Porto Alegre, Departamento de Solos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1995. 174p. (Boletim Técnico de Solos, 5)

VELHO, J.P.; MUHLBACH, P.R.F.; NORNBERG, J.L. et al. Composição bromatológica de silagens de milho produzidas com diferentes densidades de compactação. Revista Brasileira de Zootecnia, v.36, n.5, p.1532-1538, 2007.

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