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Pesquisador da Embrapa defende que análise de dados, modelagem estatística e ferramentas como o ZARC são decisivas para reduzir perdas no campo e qualificar políticas públicas

Agricultura convive com riscos econômicos, biológicos e climáticos cada vez mais intensos Diferença entre risco e incerteza é central para a tomada de decisão no campo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) é uma das principais ferramentas de política agrícola do país Estatística e Ciência de Dados ampliam a capacidade de prever perdas e orientar o crédito rural Especialistas defendem maior integração entre conhecimento técnico e realidade produtiva.

A agricultura brasileira opera sob risco permanente — e cada vez mais complexo. Da volatilidade dos preços às secas prolongadas, passando por pragas, geadas e ondas de calor, o produtor toma decisões em um ambiente onde clima, mercado e tecnologia se entrelaçam. Para o pesquisador Alfredo José Barreto Luiz, da Embrapa Meio Ambiente, compreender e medir esses riscos é um dos grandes desafios contemporâneos — e uma oportunidade para a Estatística.

“O risco é parte da engrenagem. O problema maior é a incerteza”, resume o pesquisador, citando o livro O Sinal e o Ruído, de Nate Silver. A diferença é fundamental: risco é aquilo que pode ser estimado, que permite associar uma probabilidade a um evento. Incerteza é o que escapa à medição, o imprevisível que pode multiplicar erros por cem ou mil vezes. Essa distinção, aparentemente teórica, tem impacto direto no campo.

Risco: do cotidiano à lavoura

No cotidiano, o conceito de risco está associado a comportamentos como fumar, dirigir em alta velocidade ou praticar esportes radicais. Na economia, aparece no risco-país, nas aplicações financeiras voláteis, nas oscilações de juros e câmbio, no risco de crédito ou de liquidez.

Na agricultura, o cenário é ainda mais multifacetado. O produtor enfrenta volatilidade de preços de insumos e produtos, agravada pela distância no tempo entre plantio e colheita; pragas e doenças, cuja ocorrência depende do clima e do custo de controle; disponibilidade sazonal de mão de obra e condições de financiamento e acesso ao seguro rural. A esses fatores somam-se os riscos climáticos, que se intensificam com as mudanças globais.

Chuvas excessivas na colheita, granizo, geadas, ondas de altas temperaturas, secas prolongadas e, sobretudo, a desuniformidade climática dentro de uma mesma região são hoje ameaças recorrentes.

“O problema não é apenas a média do clima, mas sua variabilidade”, afirma Alfredo Luiz. Uma safra pode ser comprometida não por falta total de chuva, mas pela má distribuição ao longo do ciclo da cultura. Diante desse cenário, ferramentas baseadas em dados tornaram-se estratégicas.

ZARC: política pública baseada em risco

Aplicado pela primeira vez na safra do trigo de 1996, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) reúne o trabalho de mais de 60 pesquisadores e resulta de um consórcio entre o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), a Embrapa, universidades e instituições estaduais de pesquisa.

O ZARC é uma ferramenta de apoio à política agrícola que analisa o risco derivado da variabilidade climática, considerando características da cultura e do solo. Na prática, ele quantifica o risco climático para cada época de semeadura e localidade; indica janelas de plantio mais seguras; contribui para reduzir perdas e racionalizar o crédito agrícola; apoia programas de seguro rural e funciona como instrumento indireto de transferência de tecnologia.

Ao definir períodos de menor risco, o ZARC condiciona o acesso a crédito e seguro, estimulando o produtor a adotar práticas mais seguras.

Por trás dessas recomendações estão métodos estatísticos robustos. Conceitos como risco absoluto, risco relativo, razão de chances (odds ratio) e funções de risco fazem parte do arsenal analítico utilizado para interpretar dados climáticos e agrícolas.

Além disso, a análise moderna de riscos incorpora ferramentas como inteligência artificial; simulação de Monte Carlo; aprendizagem de máquina; modelos computacionais complexos; modelos de sobrevivência, como o modelo de Cox e, segundo o pesquisador, “bom senso e boa estatística”.

“A Estatística transforma dados em informação útil para o planejamento rural”, destaca Alfredo Luiz. Segundo ele, a Ciência de Dados amplia essa capacidade ao integrar grandes volumes de informações históricas, meteorológicas e produtivas.

Entre as frentes prioritárias estão análise de séries temporais climáticas; estimativa de probabilidades de eventos extremos; modelagem estatística da produtividade; validação e calibração de modelos agrometeorológicos; avaliação de incertezas e construção de cenários e apoio à formulação de políticas públicas e comunicação de risco.

Desafio técnico e cultural

Apesar dos avanços, o pesquisador alerta que nenhuma técnica substitui o entendimento profundo do problema. “É fundamental conhecer a realidade agrícola, não apenas aplicar métodos sofisticados”, afirma.

A recomendação é clara: estatísticos e cientistas de dados devem se envolver com o campo, dialogar com agrônomos, meteorologistas e produtores. Só assim será possível transformar números em decisões eficazes.

Num cenário de mudanças climáticas globais e crescente pressão por produtividade, a agricultura brasileira dependerá cada vez mais da capacidade de medir, modelar e comunicar riscos. Se o risco “lubrifica a engrenagem”, como diz Nate Silver, cabe à Estatística garantir que a máquina continue funcionando — mesmo sob tempestades.

Fonte: Embrapa


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FONTE

Autor:Cristina Tordin (MTb 28499/SP) Embrapa Meio Ambiente

Site: Embrapa

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