O Brasil fornece 60% da soja produzida no mundo. Em 20 anos, a demanda global pela oleaginosa dobrou — e a produção nacional acompanhou esse ritmo, saindo de 55 milhões de toneladas em 2006 para 180 milhões em 2026. Em segundo lugar no ranking global, os Estados Unidos respondem por apenas 16% do fornecimento mundial. Essa liderança, construída ao longo de décadas, tem na biotecnologia um dos seus principais sustentáculos – mas também um de seus pontos de maior vulnerabilidade.


Por que o Brasil lidera e pode ir mais longe?

A posição de destaque do país no mercado global de soja, para Fabiano Oliveira, líder Soja da Bayer, é resultado de quatro pilares: um ambiente institucional com leis que permitem a inovação, melhorias de infraestrutura – ainda que insuficientes, especialmente em logística, o perfil empreendedor do agricultor brasileiro, com crescente renovação geracional no campo, e a tecnologia, que abrange biotecnologia, genética e mecanização.

A comparação com outros países produtores evidencia a vantagem competitiva brasileira. Existem hoje 50 países produzindo soja no mundo. A Índia, por exemplo, registra produtividade média de 16 sacas por hectare – patamar semelhante ao do Brasil de 60 anos atrás. A média nacional brasileira atual é de aproximadamente 62 sc/ha.

O impacto da soja vai além do campo. Municípios sojicultores brasileiros registram Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,793, superior à média nacional de 0,764 — indicador de que a cadeia produtiva da oleaginosa contribui diretamente para o desenvolvimento social das regiões onde está inserida.


O papel da biotecnologia na produtividade

O avanço da biotecnologia no Brasil é expressivo. O número de cultivares registradas saltou de 450, em 2005, para 2.743 em 2026, consolidando o país como o que oferece mais opções de biotecnologia no mercado mundial. Na prática, a tecnologia garante em média 12% de ganho de produtividade — o equivalente a cerca de 6 sacas por hectare. Com o preço referenciado em R$ 120/sc, isso representa R$720,00/ha de valor gerado ao produtor.

Segundo dados apresentados por Fabiano, o custo da biotecnologia, por sua vez, representa menos de 4% do investimento total do agricultor por hectare plantado. Nos últimos anos, esse custo foi corrigido abaixo do IGPM e abaixo do crescimento das demais operações dentro da lavoura.

O ecossistema que sustenta essa cadeia é robusto: 25 empresas de genética, 300 multiplicadores de sementes, mais de 11 mil revendas entre matrizes e filiais de distribuidores, 200 mil agricultores e mais de 4.500 cerealistas. Apenas para a tecnologia Intacta, há mais de 500 mil contratos vigentes.

Três modelos de comercialização de sementes convivem no mercado brasileiro: a semente certificada, que responde por 85% da área cultivada com custo de R$ 235,70/ha; a semente salva legal, presente em 10% da área, com custo de R$ 272,70/ha; e a comercialização na moega, que representa 5% do mercado, com valores entre R$ 500 e R$ 540/ha.


A estrutura jurídica que protege a inovação

A proteção da inovação agrícola no Brasil repousa sobre dois pilares jurídicos distintos. O primeiro é a inovação biotecnológica – que envolve modificação de DNA, características inexistentes na natureza e engenharia química e molecular. Esse tipo de inovação é protegido por patentes, sob responsabilidade do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), com base na Lei 9.279/96. O prazo de exclusividade é de 20 anos. Uma patente protege um invento, mas uma mesma tecnologia pode conter vários inventos.

O segundo pilar é o melhoramento genético – baseado em cruzamento, seleção e no trabalho do agrônomo melhorista sobre o germoplasma. A proteção se dá pela Lei de Proteção de Cultivares (Lei 9.456/97), que regula variedades vegetais com foco em cultivares e germoplasma.

A finalidade desse arcabouço é garantir segurança ao produtor para que ele possa distribuir e comercializar grãos dentro da lei e com certificação. A premissa que sustenta o sistema é direta: segurança jurídica hoje é inovação agrícola amanhã. A pirataria de sementes, por sua vez, ameaça todo o ecossistema de inovação.


Sementes ilegais: R$ 10 bilhões de impacto anual

O mercado ilegal de sementes representa uma das maiores ameaças à cadeia produtiva da soja brasileira. Pesquisa de 2024 indica que 11% das sementes de soja utilizadas no Brasil são ilegais. No Rio Grande do Sul, esse índice chega a 28% – e os dados são considerados subestimados. O impacto econômico estimado é de R$ 10 bilhões por ano.

Os mais afetados, nessa ordem, são: o próprio agricultor, a indústria e a cadeia exportadora.

O histórico da pirataria de sementes no Brasil passa pelo episódio da chamada “semente Maradona”, que chegava da Argentina a baixo custo e sem qualquer regulamentação. A lentidão do Estado brasileiro para legislar sobre transgenia criou um vácuo regulatório que favoreceu a entrada desse material irregular. O ponto de virada ocorreu quando a China — principal importadora da soja brasileira – testou o produto e comprovou a presença de material transgênico. Diante do risco iminente de perda do maior comprador, o país avançou na regularização dos organismos geneticamente modificados (OGMs) e transgênicos.


Os desafios e oportunidades até 2050

O horizonte de longo prazo coloca desafios de escala global: mais de 2,2 bilhões de pessoas a mais no planeta até 2050, necessidade de produzir 50% mais alimentos, adaptação às mudanças climáticas e pressões da transição energética. O Brasil parte de vantagens competitivas consolidadas para enfrentar esse cenário.

A produção nacional de soja cresce 6,2% ao ano e a produtividade avança 2,3% ao ano. Em termos práticos, isso representa uma economia projetada de 31 milhões de hectares em relação a 2024 – ou seja, o Brasil conseguirá produzir volumes crescentes sem necessidade de incorporar essa área adicional ao cultivo, desde que o ritmo de ganhos de produtividade seja mantido.

Hoje, 3 milhões de hectares de soja no Brasil já são destinados à produção voltada ao setor de biocombustíveis. O Brasil possui a melhor matriz energética em relação ao mundo, o que posiciona o país com vantagens competitivas também nesse mercado em expansão. Os desafios do futuro passam pelo novo mercado de biocombustíveis e pela capacidade do país em gerar valor no produto brasileiro – e não apenas exportar matéria-prima.


Inovação ameaçada sem proteção

A biotecnologia é ao mesmo tempo o principal motor e uma das maiores vulnerabilidades da soja brasileira. O ecossistema de inovação – com suas 25 empresas de genética, centenas de multiplicadores e milhares de revendas – só se sustenta quando a propriedade intelectual é respeitada e remunerada. A pirataria de sementes, além de prejudicar diretamente o agricultor, corrói a base financeira que viabiliza pesquisa, desenvolvimento e o lançamento de novas tecnologias.

O Brasil reúne as condições para aprofundar sua liderança global na produção de soja. O caminho passa por fortalecer o ambiente regulatório, combater os insumos ilegais e garantir que a inovação continue sendo o principal diferencial competitivo do agronegócio nacional.

Redação: Equipe Mais Soja com informações do Workshop Biotecnologia no Brasil: Oportunidade, inovação e futuro do Agro – Bayer

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