Condições meteorológicas ocorridas em novembro e situação das lavouras de arroz

O início de novembro ainda registrou chuva volumosa e frequente no Rio Grande do Sul, principalmente na região mais Central e metropolitana, como se pode observar na Figura 1. Inclusive, observa-se que o Sul do Estado não recebe chuva satisfatória desde o início de novembro, ou seja, são mais de 30 dias sem chuvas expressivas, o que gera apreensão por parte dos produtores das culturas de sequeiros, como a soja.

precip diária
Precipitação diária

Figura 1: Precipitação diária (mm) de quatro locais no Rio Grande do Sul (de 1º de novembro a 10 de dezzembro), que representam as regiões Leste (Porto Alegre), Centro (Santa Maria), Oeste (Uruguaiana) e Sul (Santa Vitória do Palmar). Fonte de dados: INMET.

No entanto, da segunda quinzena em diante, houve considerável redução no volume e na frequência das chuvas, que tem perdurado até o primeiro decêndio de dezembro. Boa parte da Metade Sul do Estado registrou volume de precipitação entre 50 e 100mm (Figura 2A). Com isso, a região arrozeira ficou com anomalias negativas de precipitação durante novembro (Figura 2 B). A exceção é a Fronteira Oeste, que teve regiões com precipitação entre 50 e 100mm acima do normal para o mês.

Prec nov 2019
Mapa da precipitação acumulada (A) e anomalia da precipitação (B)

Figura 2: Mapa da precipitação acumulada (A) e anomalia da precipitação (B) durante o mês de novembro de 2019. As escalas de cores indicam o acumulado de precipitação em mm (A) e anomalia de precipitação (B), também em mm, onde valores positivos (azul) indicam precipitação acima da média e valores negativos (laranja-vermelho) indicam precipitação abaixo da média. Fonte de dados: CPTEC/INMET.

A parte boa da redução das chuvas ficou por conta do avanço da semeadura do arroz no Rio Grande do Sul, que estava bastante atrasada. Até o levantamento do dia 6/12, o Estado estava com 94,1% da semeadura concluída. O destaque fica para as duas regionais que estavam mais atrasadas, que entre os dias 15/11 e 6/12 tiveram evolução ‘exponencial’ da semeadura, de 65% e 56%, na região Central e Planície Costeira Interna, respectivamente (Figura 3).

evolução semeadura
Evolução da semeadura do arroz no Rio Grande do Sul

Figura 3: Evolução da semeadura do arroz no Rio Grande do Sul e nas seis regionais do Irga, na safra 2019/20. Dados levantados até o dia 06/12/2019. Fonte: DATER/NATES, Política Setorial – Irga.

Devido ao tempo mais seco, a tendência das temperaturas foi ficar mais elevada. A temperatura mínima ficou entre 1,0 e 2,0°C acima da média na Metade Sul do Estado. Já as máximas oscilaram entre o padrão normal e 1,0 e 2,0°C acima do normal.

Situação atual do fenômeno ENOS (El Niño-Oscilação Sul) e perspectivas

O Centro Americano de Meteorologia e Oceanografia (NOAA) continua mantendo a previsão de Neutralidade climática para os próximos meses. Com base no mapa (Figura 4) da anomalia da Temperatura da Superfície do Mar (TSM) observa-se que a região do Niño 3.4 voltou a ficar mais aquecida, com valores de +0,6°C em outubro. No entanto, a média do último trimestre (SON) ficou em +0,3 °C, ou seja, a atmosfera está sob neutralidade, com pequeno viés positivo, o que pode favorecer as chuvas no Sul do Brasil, dependendo da combinação de outros fatores.

TSM Novembro 2019
Anomalia da Temperatura da Superfície do Mar

Figura 4: Anomalia da Temperatura da Superfície do Mar no mês de novembro de 2019. Fonte: Adaptado de CPTEC. O retângulo na Imagem mostra a região do Niño3.4, região que os centros internacionais utilizam para calcular o Índice Niño (índice que define eventos de El Niño e La Niña).

A região Niño 1+2 continua com viés de anomalias negativas na temperatura, o que desfavorece as chuvas no RS. As águas no Oceano Atlântico continuam neutras, ou seja, não interferindo no regime de chuvas aqui no Estado. Ou seja, este padrão não mudou muito em relação ao mês de outubro.
A forte redução nas chuvas (volume e frequência) se deve ao fato de o canal de umidade ter migrado para a região Sudeste do Brasil, com isso forma-se uma espécie de corredor de umidade naquela região, favorecendo as chuvas por lá e o tempo mais seco aqui no Rio Grande do Sul.

Previsão para a precipitação no trimestre novembro, dezembro e janeiro

Os padrões de chuva que predominarão no Rio Grande do Sul deverão ficar intercalados entre momentos com chuvas mais frequentes e momentos com tempo seco, a exemplo dos últimos 30 dias, quando praticamente não choveu em algumas regiões. Era a isso que se referiam os boletins anteriores, quando se falava em “estiagens curtas e/ou regionalizadas”. Nos últimos 30 dias, boa parte da Zona Sul recebeu menos de 50mm. Agora, na segunda quinzena se espera chuvas mais frequentes no Estado, no entanto, os maiores volumes deverão ocorrer na Metade Norte do Rio Grande do Sul.
Devido à neutralidade climática, fica difícil assegurar quanto, quando e como será a distribuição das chuvas no Estado, ainda mais durante o período do verão, que, naturalmente é caracterizado pelas chuvas mais irregulares. Sabe-se também, que durante o verão é comum ter as estiagens curtas e regionalizadas, que nesta safra poderão ser agravadas pela neutralidade climática. O mapa trimestral do INMET, para dezembro, janeiro e fevereiro, mostra que na maior parte da Metade Sul do Rio Grande do Sul a chuva ficará dentro da média. Na Planície Costeira Externa e Fronteira Oeste, este modelo prevê chuva entre 10 e 50mm acima do padrão normal para o trimestre (Figura 5). Porém, é sempre bom ter atenção para as estiagens regionalizadas.

prev trimestral fig 5
Previsão da anomalia de precipitação

Figura 5: Previsão da anomalia de precipitação (mm) para o trimestre de dezembro/2019, janeiro e fevereiro/2020. Áreas em azul significam precipitação acima da média, áreas em amarelo indicam chuvas abaixo da média e áreas em cinza indicam chuvas dentro da média climatológica. Fonte: INMET.

Para o arroz é importante, e necessário, que haja sol durante o verão, para que a lavoura expresse seu máximo potencial produtivo. No entanto, sol vem junto com o tempo seco, que quando muito prolongado, acaba não sendo uma boa notícia para os sojicultores.
Logo, deixa-se o alerta para o monitoramento da previsão do tempo durante este verão, para melhor fazer as tomadas de decisão no curto prazo, pois a confiabilidade da previsão climática, realmente, está baixa nesta safra.

O verão é a estação do ano em os índices pluviométricos são menores e, não bastasse isso, a evapotranspiração também é aumentada, devido às altas temperaturas. Os mapas da precipitação – evapotranspiração (P – ETP) dão uma ideia indireta da disponibilidade hídrica de um local ou região. Ou seja, apresenta o saldo entre P e ETP, sem considerar o armazenamento de água no solo. Analisando os dois mapas, observa-se claramente que faltará chuva na Metade Sul do Rio Grande do Sul durante o verão, por isso, normalmente alguma região do Estado sempre sofre com a falta de chuvas neste período. Claro, que para o arroz isto não vem a ser um problema. Agora para a soja…

Prec   ETP   fig 7
Diferença entre precipitação pluviométrica e evapotranspiração potencial

Figura 6: Diferença entre precipitação pluviométrica e evapotranspiração potencial (P-ETP) nos meses de dezembro (A) e janeiro (B) no Rio Grande do Sul.

Jossana Cera é meteorologista, doutora em Engenharia Agrícola pela UFSM e consultora do Irga.

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