Por Equipe: Prof. Dr. Lucilio R. Alves, Dr. André Sanches, Natália Correr Ré, Débora Kelen Pereira da Silva, Carolina Sales, Thaís Bertoloti, Natália Guimarães e Kaline Lacerda.

Os preços do trigo e dos derivados oscilaram com maior intensidade ao longo de 2020, mas, no geral, se mantiveram elevados frente a anos anteriores, segundo pesquisas do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP. No caso da matéria-prima, os valores iniciaram o ano em alta, movimento que teve início em outubro de 2019, e foi influenciado pelo dólar valorizado, por dificuldades na importação e, mais recentemente, pela firme demanda interna. Já no final do ano, a intensificação dos trabalhos de campo e a finalização da colheita pressionaram as cotações do cereal no mercado interno.

Em fevereiro de 2020, a oferta de trigo foi baixa no mercado doméstico, reduzindo a liquidez ao longo do mês. Mesmo assim, os preços médios em Santa Catarina operaram nos maiores patamares nominais desde julho/18. Em março, abril, maio e julho, a firme demanda pelo cereal e a valorização do dólar encareceram as importações. Apesar disso, o ritmo das compras externas esteve firme, já que indústrias processadoras precisavam repor estoques.

Nesse período, demandantes de trigo pressionaram o governo brasileiro para que este facilitasse a entrada de cereal no País, especialmente o da Argentina. Para aliviar os custos, o governo liberou a importação de 450 mil toneladas de fora do Mercosul com isenção da Tarifa Externa Comum (TEC). No balanço da safra 2019/20 (de agosto/19 a julho/20), o volume importado somou 6,67 milhões de toneladas, recuo de 1,2% frente ao da temporada anterior (de agosto/18 a julho/19), segundo dados da Secex. As exportações, por sua vez, caíram 37,5% na mesma comparação, reflexo do volume restrito do cereal no Brasil.

No segundo semestre, as cotações do cereal estiveram firmes, sustentadas pelo clima desfavorável. A forte queda nas temperaturas em agosto no Sul do Brasil e geadas e chuvas volumosas em algumas regiões deixaram produtores em alerta quanto a possíveis danos desse cenário sobre a oferta da nova safra. Com isso, as negociações de trigo no mercado interno estiveram pontuais.

Em setembro, especificamente, os valores no Paraná caíram, influenciados pela colheita da nova safra. No Rio Grande do Sul, os preços também recuaram, mas de forma menos intensa – vale lembrar que as atividades de campo neste estado se iniciam apenas entre outubro e novembro. Diante disso, as cotações médias do cereal no estado paranaense estiveram inferiores às registradas no sul-rio-grandense. Esse cenário é atípico, tendo em vista que, historicamente, os preços no Paraná superam os do Rio Grande do Sul.

Já nos meses de outubro e novembro, as cotações domésticas do trigo reagiram, sustentadas pela retração de vendedores, pela postura mais ativa de compradores e pelo dólar elevado, que encarece as importações. Quanto à indústria moageira, agentes seguiram adquirindo lotes pontuais de trigo e muito mostraram dificuldades em repassar os custos elevados do cereal aos derivados (farinhas e farelos).

Em dezembro, os valores voltaram a cair, pressionados pela retração compradora. Esses demandantes – atentos à finalização da colheita nos estados do Sul e à espera de novas desvalorizações do cereal – adquiriram apenas pequenos lotes ao longo do mês. Apesar do enfraquecimento, as cotações médias ainda operaram em patamares elevados.

Na média do ano, as cotações domésticas estiveram acima das verificadas em 2019, em termos nominais. Os preços do trigo no mercado de lotes (negociação entre empresas) subiram 40,5% no Rio Grande do Sul, 36,4% em Santa Catarina, 35,4% no Paraná e 32,7% em São Paulo.

Oferta e demanda – Para a colheita em 2020, a estimativa inicial da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), divulgada em abril/19, indicava manutenção de área. A Companhia reajustou a estimativa de importação para 7 milhões de toneladas e reduziu as exportações para 300 mil toneladas, devido à baixa oferta doméstica. Esse cenário modificou também o suprimento interno (12,9 milhões de toneladas) e o estoque final (850,6 mil toneladas).

Já no relatório de dezembro, as operações de colheita foram praticamente finalizadas, e a área com trigo no País somou 2,34 milhões de hectares, crescimento de 14,6% frente à temporada passada. A produtividade também deve ser superior à da temporada anterior, em 4,7%. Com isso, a produção nacional deve ser de 6,18 milhões de toneladas, 19,9% maior que em 2019, mas 2,7% abaixo do que se previa até novembro.

A Conab estima importação de 6,8 milhões de toneladas entre agosto/20 e julho/21, o que deve gerar disponibilidade interna de 13,2 milhões de toneladas, acima das 13 milhões de toneladas da temporada passada. Esse volume deve atender a uma demanda doméstica de 11,8 milhões de toneladas, contra 12,5 milhões de toneladas entre agosto/19 e julho/20. As exportações estão estimadas pela Conab em 700 mil toneladas. Com isso, os estoques em julho/21 devem ser de 711,7 mil toneladas, contra 227,4 mil toneladas em julho/20.

Mundialmente, a produção somou 764,49 milhões de toneladas de trigo na safra 2019/20, 4,6% a mais que a de 2018/19. O consumo foi de 747,98 milhões de toneladas, com estoque final de 300,62 milhões de toneladas. A relação estoque/consumo foi de 40,2%, contra 38,7% na safra anterior, segundo dados do USDA divulgados em dezembro/20.

Derivados – Os reflexos da pandemia de coronavírus atingiram, principalmente, os derivados de trigo. Apesar do temor, o abastecimento das farinhas e farelos permaneceu estável, e a demanda, aquecida. Destaca-se que as massas destinadas a macarrão estiveram entre os itens mais procurados pelos consumidores finais durante a pandemia.

Fonte: Cepea www.cepea.esalq.usp.br

Texto originalmente publicado em:
Cepea
Autor: Equipe: Prof. Dr. Lucilio R. Alves, Dr. André Sanches, Natália Correr Ré, Débora Kelen Pereira da Silva, Carolina Sales, Thaís Bertoloti, Natália Guimarães e Kaline Lacerda.

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