A tecnologia embargada nas cultivares e no manejo de produção da soja é elevada. Porém, as condições edafoclimáticas adversas ainda têm alto potencial em reduzir o rendimento da cultura. Considerando que na maioria das safras ocorre um período curto ou longo de restrição hídrica às plantas, o crescimento mais vigoroso das raízes é uma alternativa para diminuir perdas na produção de grãos. Uma ferramenta biotecnológica promissora com potencial para melhorar o desenvolvimento do sistema radicial da soja corresponde aos fungos micorrízicos arbusculares (FMA), microrganismos benéficos aos vegetais que estabelecem associação simbiótica mutualística com as raízes de 80% das plantas.

Existem sete tipos de micorrizas. Contudo, a micorriza arbuscular é a associação mais comum nos ecossistemas terrestres. Os FMA são biotróficos obrigatórios, pois completam seu ciclo somente associados a uma planta hospedeira. O benefício dos FMA às plantas decorre do aumento da área de exploração das raízes micorrizadas por meio de uma rede de hifas, que são muito mais finas que as raízes e, portanto, são capazes de penetrar em poros menores no solo. Como as hifas se espalham no solo, as plantas micorrizadas, em relação àquelas desprovidas dessa simbiose, geralmente apresentam teores mais elevados de nutrientes com mobilidade reduzida, a exemplo do fósforo (P).

Foto: Mais Crop

“Os FMA têm o potencial de melhorar consideravelmente as características do solo rizosférico, melhorando assim, o crescimento e desenvolvimento da planta. Além disso, os FMA desempenham papel biológico no funcionamento e na estabilidade de ecossistemas naturais e agrícolas, proporcionando melhor estabelecimento inicial de plantas, maior proteção às plantas contra patógenos, maior aquisição de água e nutrientes, mitigação ao estresse salino e regulação do fluxo de carbono no sistema solo-planta” professor José Luís Trevizan Chiomento.

Diferentes práticas de cultivo, como monocultura e pousio, reduzem a diversidade de comunidades de micorrizas. O efeito da monocultura contínua favorece a seleção e proliferação de simbiontes fúngicos agressivos e menos cooperativos. Assim, a rotação de culturas conduz essas comunidades a serem menos parasitas e pode reformular comunidades de FMA derivadas de campos agrícolas, tornando-as mais diversas e similares às detectadas em ecossistemas naturais.

“Nos últimos nove anos temos trabalhado com o uso de FMA na horticultura e entendendo seu funcionamento nas culturas hortícolas, sabemos que esses microrganismos têm potencial para melhorar a produtividade nas culturas de grãos. Assim, estudamos três inoculantes micorrízicos monoespecíficos (Claroideoglomus etunicatum, Glomus intraradices e Rhizophagus clarus) na cultura da soja. Conduzimos esses vasos em ambiente protegido, com a cultivar Zeus, e, em relação à testemunha, observamos maior crescimento das raízes da soja cultivada com micorrizas. A adição de FMA no solo junto à semeadura da soja aumentou em 37% o volume das raízes em relação à testemunha. Além disso, observamos incremento de 41% na quantidade de raízes finas nas plantas crescidas com FMA. Nosso objetivo é compreender o efeito dos FMA em culturas de grãos, principalmente na soja, por acreditarmos que podemos alavancar a produtividade com um manejo sustentável, por meio da melhoria da microbiota do solo e pelo maior fornecimento de água e nutrientes às plantas” professor José Luís Trevizan Chiomento.

“Até o momento existe apenas um inoculante à base de FMA registrado no Brasil. Isso indica que são necessários estudos considerando o desenvolvimento de outros inoculantes comerciais mono ou multiespecíficos, com espécies fúngicas que tenham maior afinidade com a cultura da soja. Nesse ensaio utilizamos as espécies fúngicas Claroideoglomus etunicatum, Glomus intraradices e Rhizophagus clarus e mostramos o efeito benéfico às raízes da soja ocasionado pelas três espécies de micorrizas. Na área da horticultura, majoritariamente a inoculação do meio de crescimento (solo/substrato) com micorrizas ocorre no transplante de mudas, com adição do inoculante na cova de plantio. Para as culturas de grãos a forma de uso do inoculante micorrízico sugerida é sua adição no tratamento de sementes. Porém, considerando que esses microrganismos são biotróficos obrigatórios, outras alternativas precisam ser estudadas, de modo a melhorar a eficiência dessa biotecnologia à cultura hospedeira” professor José Luís Trevizan Chiomento.

Fonte: José Luís Trevizan Chiomento em parceria com a Mais Crop

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