Na soja RR (Roundup Ready), o glifosato passou a ser frequentemente utilizado em pós emergência da cultura no manejo e controle de plantas daninhas. Entretanto, o uso inadequado (especialmente em altas dosagens) do produto pode ocasionar em alguns casos, efeitos fitotoxicos às plantas, os quais podem ser visualizados no amarelecimento das folhas, também conhecido como “Yellow flashing”. Geralmente esse efeito é visualizado após e utilização de elevadas doses de glifosato ou em alguns casos, onde houve a sobreposição da barra de pulverização.

Segundo pesquisadas realizadas pelo grupo Supra Pesquisas, esta fito intoxicação pode levar a perdas de produtividade, podendo chegar a 5%. Outro ponto importante mencionado (assista no vídeo abaixo) é que, o incremento de doses do herbicida, normalmente não leva ao maior controle de plantas daninhas, pois este controle é reduzido pela resistência, para diversas espécies de plantas. Assista os comentários do prof Alfredo Albrecht sobre este tema no vídeo “Yellow flashing” – Efeitos visíveis e invisíveis da aplicação de glifosato na Soja RR.

O “Yellow flashing” é uma resposta da planta de soja a metabólitos formados a partir da degradação do glifosato, sendo o AMPA (ácido aminometilfosfônico) o principal metabólito formado que pode causar efeito tóxico na planta. Essa substância é capaz de reduzir o conteúdo de clorofila das folhas causando e amarelecimento das mesmas, posteriormente o AMPA é metabolizado pela planta e os sintomas de Yellow flashing são atenuados (Machado).



O efeito do AMBA sobre plantas de soja foi observado por Ding et al. (2011), onde os autores avaliaram as respostas fisiológicas da soja resistente e sensível ao glifosato. Com base nos resultados obtidos pelos autores, é possível observar que a medida em que a concentração do ácido aumento, ocorre um aumento da porcentagem de injúrias e menor quantidade de clorofila, fato que pode ser relacionado aos sintomas de Yellow flashing, contudo, esse aumento das injurias e redução da clorofila apresentam decréscimo com o passar do tempo, destacando a capacidade da planta em se recuperar do estresse.

Tabela 1. Efeito do ácido aminometilfosfônico sobre injurias e conteúdo de clorofila em plantas de soja resistentes e sensíveis ao glifosato.

DAT – Dias após Tratamento.
Médias dentro de uma coluna e tipo de soja seguido pela mesma letra não são significativamente diferentes no nível de 5% conforme determinado pelo teste LSD de Fisher.
Adaptado: Ding et al. (2011)

E o Manganês?

Em um primeiro momento, como o glifosato foi patenteado em 1964 como agente quelante, considerou-se a hipótese de que devido à sua capacidade de complexar cátions di e trivalentes, sendo o Manganês (Mn) absorvido pelas plantas na forma divalente (Mn2+), o glifosato poderia estar complexando-o no interior das células, indisponibilizando-o para cumprir suas funções no metabolismo da planta (Machado).

Avaliando o comprometimento do crescimento da planta e status de micronutrientes induzido pelo glifosato em soja resistente ao glifosato, Bott et al. (2008) observaram não haver imobilização do micronutriente por parte da complexação com o glifosato, assim como Machado et al. (2019) em seu trabalho intitulado “X‑ray Spectroscopy Fostering the Understanding of Foliar Uptake and Transport of Mn by Soybean (Glycine max L. Merril): Kinetics, Chemical Speciation, and Effects of Glyphosate“ não encontraram evidência da complexação de Mn causada pelo glifosato no interior da planta.

Mesmo desmistificada a hipótese (do glifosato complexar e tornar indisponível o Mn) vários produtores persistiram na aplicação de Mn juntamente ao glifosato.

Mas tem lógica esta aplicação?

A pulverização do Mn possibilita o fornecimento do nutriente que é requerido para a atividade de algumas desidrogenases, descarboxilases, quinases, oxidases e peroxidases, estando envolvido com outras enzimas ativadas por cátions e na evolução fotossintética de O2 (TAIZ et. al, 2017), diretamente relacionado com o processo de fotossíntese das plantas. Manganês também é um importante agente na mitigação de estresses oxidativos, ou seja, pode não ser a causa, mas pode auxiliar na redução de estresses decorrentes de aplicações. A deficiência desse micronutriente interfere na fotossíntese, tendo como sintomas a clorose entre nervuras das folhas da planta, fato que explica a hipótese da complexação de Mn pelo glifosato, causando a indisponibilidade do nutriente.

Figura 1. Sintomas de deficiência de Manganês em soja.

Fonte: YARA

Conforme observado por Oliveira Junior et al. (2016), em “Estádios fenológicos e marcha de absorção de nutrientes da soja”, há um grande acúmulo de Mn, principalmente aos 80 dias após a emergência da soja (figura 2), destacando a importância do micronutriente para a cultura.

Figura 2. Acúmulo de Manganês durante o ciclo da soja, em três cultivares diferentes.

Adaptado: Oliveira Junior et al. (2016)

Outro fato interessante, é que o Mn é um dos micronutrientes mais extraídos e exportados pela cultura da soja. A extração e exportação de Mn para as cultivares BRS 184, Syn 1059 RR e DM 6563 – Intacta RR2 PROTM podem ser observadas na tabela 2.

Tabela 2. Extração e exportação de macro e micronutrientes em diferentes cultivares de soja.

Fonte: Oliveira Junior et al. (2016)

Para visualização dos estádios fenológicos da soja e a marcha completa de absorção de nutrientes pela cultura clique aqui!

Tendo em vista a participação do micronutriente no processo fotossintético e sua extração e exportação pela cultura da soja, a adubação foliar de Mn em conjunto a aplicação de glifosato pode ser uma alternativa interessante para proporcionar adequados níveis do nutriente para a planta, proporcionando também melhores condições para a soja se recuperar do estresse proporcionado pelo acumulo de AMPA.

Contudo, embora não haja interações no meio intracelular, o glifosato continua sendo capaz de complexar o Mn2+ em soluções aquosas, sendo estas espécies altamente reativas em misturas de tanque (Machado), com isso, deve-se atentar para estratégias que possibilitem a maior eficiência de absorção do nutriente pela planta, sem que ocorram perdas operacionais e na eficiência de controle dos produtos aplicados.

Referências:

BOTT, S. et al. GLYPHOSATE-INDUCED IMPAIRMENT OF PLANT GROWTH AND MICRONUTRIENT STATUS IN GLYPHOSATE-RESISTANT SOYBEAN (Glycine max L.). Plant Soil, 312: p. 185–194, 2008.

DING, W. et al. PHYSIOLOGICAL RESPONSES OF GLYPHOSATE-RESISTANT AND GLYPHOSATE-SENSITIVE SOYBEAN TO AMINOMETHYLPHOSPHONIC ACID, A METABOLITE OF GLYPHOSATE. Chemosphere 83, p.  593–598, 2011.

MACHADO, B. A. et al. X‑RAY SPECTROSCOPY FOSTERING THE UNDERSTANDING OF FOLIAR UPTAKE AND TRANSPORT OF MN BY SOYBEAN (Glycine max L. Merril): KINETICS, CHEMICAL SPECIATION, AND EFFECTS OF GLYPHOSATE. J. Agric. Food Chem., 67, p. 13010−13020, 2019.

MACHADO, B. A. INTERAÇÃO MANGANÊS X GLIFOSATO. Agroadvence Blog. Disponível em: < http://blog.agroadvance.com.br/2020/07/08/interacao-manganes-x-glifosato/ >, acesso em: 29/12/2020.

OLIVEIRA JUNIOR, A. et al. ESTÁDIOS FENOLÓGICOS E MARCHA DE ABSORÇÃO DE NUTRIENTES DA SOJA. Embrapa, Fortgreen, 2016. Disponível em: < https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/1047123 >, acesso em: 29/12/2020.

TAIZ, L. et. al. FISIOLOGIA E DESENVOLVIMENTO VEGETAL. Porto Alegre, ed. 6, 2017.

YARA, SOLUÇÕES PARA CULTURAS: DEFICIÊNCIA DE MANGANÊS – SOJA. Yara, disponível em: < https://www.yarabrasil.com.br/nutricao-de-plantas/soja/deficiencias-soybean/deficiencia-de-manganes-soybean/ >, acesso em: 18/06/2020.

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