Desde a implantação até a colheita, a cultura da soja pode sofrer ataques de diversas pragas. O conhecimento do impacto dos insetos na lavoura é essencial para que as ações preventivas e as técnicas de manejo sejam implementadas adequadamente. O monitoramento e reconhecimento das principais pragas, associados às ferramentas disponíveis para manejo integrado de insetos são aspectos fundamentais para a proteção da lavoura.

Lagarta-falsa-medideira (Chrysodeixis includens)

O complexo de falsas-medideiras possui uma grande quantidade de espécies, porém, a C. includens tem sido a espécie mais importante e se destaca na cultura da soja. O termo utilizado é devido ao hábito de deslocamento, como se estivessem medindo palmos, em decorrência de apresentarem apenas dois pares de pernas abdominais e um na região caudal.

Figura 1: Lagarta Chrysodeixis includens.

Fonte: André Shimohiro.

Até a década de 90 esse complexo de lagartas era considerado de importância secundária na soja, devido as baixas infestações. Porém, a partir das safras 2000/2001 e 2001/2002 essas espécies começaram a se tornar pragas chave na soja, exigindo mais atenção no seu manejo.

O uso crescente de inseticidas, principalmente os pouco seletivos como os piretróides, juntamente com o aumento no uso de fungicidas, que podem estar contribuindo para a redução de populações de fungos entomopatogênicos, como o uso de fungicidas não seletivos para o controle da ferrugem asiática da soja, que também favoreceram o aumento dos problemas com a lagarta falsa-medideira por reduzir a incidência das doenças fúngicas como a doença branca e a doença marrom, que controlam naturalmente a lagarta falsa-medideira.

Além disso, a aplicação exagerada de inseticidas sem critério técnico, no início do desenvolvimento da soja, não obedecendo aos níveis de dano indicados no manejo integrado de pragas afetaram negativamente as populações dos inimigos naturais, uma vez que as populações da lagarta falsa-medideira eram controladas naturalmente por seus inimigos naturais (principalmente por parasitoides, como as vespinhas (Copidosoma sp).


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Saiba mais sobre a praga

A lagarta é verde-clara, possui várias linhas brancas longitudinais. Ao eclodirem são muito claras. Passam por cinco fases de desenvolvimento, chegando a 30mm de comprimento. As lagartas se locomovem tipo mede-palmo, apresentando três pares de patas torácicas, dois pares de pseudopatas e um par abdominal.

 Lagartas desenvolvidas tecem casulos com fios brancos presos as folhas, nos quais se transformam em pupas. Quando adulta, possui as asas anteriores com 28mm de envergadura, e apresentam uma coloração cinza-escura com uma mancha prateada na porção mediana semelhante a um oito. A pupa de coloração inicial verde torna-se marrom antes da emergência do adulto.

Figura 2: Ciclo de desenvolvimento de Chrysodeixis includens e parte em que a soja é atacada.

Fonte: Reid (1975); Silva et al., (2012).

Os sinais de alimentação da falsa-medideira são diferenciados de outras desfolhadoras por apresentarem uma característica de iniciarem sua alimentação pelo centro da folha, formando orifícios de formas circulares. Essa praga geralmente se alimenta de folhas localizadas no terço médio e baixeiro da soja, na face abaxial das folhas, e é aí que mora a complexidade no controle, porque geralmente seus picos populacionais (estouro populacional) estão intimamente ligados à fase em que a cultura se encontra no momento de fechamento do dossel, o que torna esta praga um alvo de difícil controle.

Em função disso, a lagarta exige maior atenção na qualidade das pulverizações de controle, uma vez que, falhas podem trazer prejuízos significativos, pois seus hábitos alimentares são muito agressivos e com danos diretos aos tecidos foliares, o que reduz significativamente a área fotossintética das plantas.

Um ponto que deve ser levado em consideração na aplicação de produtos químico é o fato de que temperaturas elevadas, acima de 30 oC, e umidade abaixo de 60% aumentam a evaporação dos produtos químicos, dificultando o controle. Nessas condições climáticas extremas, deve-se controlar as lagartas durante a madrugada, quando as temperaturas são relativamente mais baixas e a umidade mais alta além da ausência de ventos que proporcionarão melhores condições para aplicação.


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Danos e Riscos

A falsa-medideira é uma praga desfolhadora, que ataca as folhas destruindo o limbo foliar. Quando jovens, no primeiro e segundo instar, apenas raspam as folhas; à medida que crescem, a partir do terceiro instar, consomem o limbo, deixando as nervuras da folha, proporcionando aspecto característico de folhas rendilhadas (Figura 3). Tal característica difere do dano causado por outras lagartas desfolhadoras que consomem a folha toda.

Figura 3 – Danos causados pela lagarta falsa-medideira.

Fonte: Lagarta falsa-medideira na cultura da soja – 3rlab.

O consumo total médio de folhas por lagartas de C. includens na soja é bastante variável, podendo variar de 64 a 200 cm2 de folha/lagarta/dia, com um consumo médio próximo a 100 cm2.

O ciclo de vida dessa espécie de lagarta tem duração de 46 dias, sendo 5 dias na fase do ovo, 20 dias como lagarta, 7 dias como pupa e 14 dias na fase adulta. Cada fêmea deposita cerca de 500 ovos. A diferenciação das espécies é feita por exames da mariposa. A seca é favorável à espécie, por isso as lavouras biologicamente desequilibradas, com ausência de inimigos naturais, como fungos entomopatogênicos, são mais atacadas pela praga.


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Controle da praga

No manejo adequado da praga, destaca-se o Manejo Integrado de Pragas (MIP) associado ao monitoramento da lavoura, o uso racional do controle químico, utilização de cultivares geneticamente modificados e a preservação dos inimigos naturais através do controle biológico.

Como recomendação para o manejo desta praga, o monitoramento periódico das lavouras é imprescindível, sempre observando a presença de adultos (mariposas) e oviposições, com o objetivo de controle da lagarta em instares iniciais (lagartas neonatas) devido a maior facilidade no controle da praga.

No primeiro e segundo instares, as lagartas raspam as folhas mais novas, por isso, são um alvo mais fácil de ser atingido, enquanto que as lagartas mais desenvolvidas são menos exigentes e alimentam-se de folhas mais velhas e localizadas no terço inferior das plantas. Os níveis de ação considerados, segundo a Fundação MS, são:

  • 20 lagartas maiores do que 1,5 cm, ou 30% de desfolha na fase vegetativa;
  • 15% de desfolha na fase reprodutiva.

De maneira geral, para o controle de lepidópteras na cultura da soja, considere:

  • Fazer monitoramento periodicamente;
  • Ao atingir o nível de dano, realizar aplicações com produtos registrados e na dosagem recomendada;
  • Rotacionar o modo de ação de inseticidas;
  • Considerar as melhores condições para obter efetividade no acerto do alvo desejado;
  • Na utilização de produtos com tecnologias Bt, sempre considerar a adoção das boas práticas de manejo para a manutenção da longevidade do Trait;
  • Como boa parte das pragas são polífagas, a complexidade aumenta e as estratégias de controle podem ser consideradas para todo o sistema de produção.

Em resumo, a melhor maneira de condução da lavoura não se limita a apenas uma prática, como a adoção tecnológica ou manejos isolados, mais sim a combinação de todas as ferramentas disponibilizadas dentro dos sistemas de produção (Traits, TSI, MIP, MRI, produtos, etc.).



Elaboração: Engenheira Agrônoma Andréia Procedi – Equipe Mais Soja.

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