Foto de capa: Planeta Campo (2025).
A produção de biocombustíveis tem se consolidado como um dos pilares da matriz energética brasileira, contribuindo para a redução da dependência de combustíveis fósseis e das emissões dos Gases de Efeito Estufa (GEE). No ano de 2024, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP, 2025), o Brasil atingiu um recorde histórico, com a produção de 793 mil barris por dia, representando aproximadamente 46 bilhões de litros de etanol e biodiesel. Se compararmos aos anos anteriores, em 2023 e 2022 foram produzidos 43 e 37 bilhões de litros respectivamente, o que demonstra um aumento gradativo na produção de biocombustíveis (ANP, 2025).
Esse volume representa não apenas um avanço tecnológico e logístico, mas também a consolidação do país como um dos líderes mundiais na produção de biocombustíveis (BRASIL, 2024). De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA, 2022), o Brasil ocupa a segunda posição global em produção de biocombustíveis, ficando atrás apenas dos Estados Unidos (Figura 1), e desempenha papel estratégico no cumprimento das metas internacionais de descarbonização, especialmente no setor de transportes.
Nos Estados Unidos, maior produtor mundial, a capacidade instalada de etanol alcançou cerca de 18 bilhões de galões/ano no início de 2024 (EIA, 2024), a produção média nas quatro semanas encerradas em 23 de maio de 2025 foi de aproximadamente 1,03 milhão de barris/dia (EIA, 2025) e, em 2023, a capacidade de diesel renovável superou a de biodiesel (EIA, 2023).
Na União Europeia, a participação de renováveis no transporte chegou a 10,8% em 2023 (EUROSTAT, 2025), enquanto as biorrefinarias produziram cerca de 6,4 bilhões de litros de etanol em 2023 (EPURE, 2024).
Figura 1: Evolução da produção de biocombustíveis no mundo.

Esse protagonismo brasileiro está diretamente relacionado ao uso intensivo da cana-de-açúcar como matéria-prima para o etanol. Segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA, 2024), na safra 2023/2024 foram produzidos aproximadamente 30,2 bilhões de litros de etanol a partir da cana-de-açúcar, o que corresponde a cerca de 85% da produção total de etanol no país.
Outro aspecto relevante diz respeito à eficiência ambiental do etanol de cana-de-açúcar. Estudos da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, 2023) mostram que o etanol brasileiro apresenta uma emissão de CO2 até 90% menor que a gasolina. Esse diferencial é fruto tanto do ciclo biológico da cana quanto das tecnologias aplicadas nas usinas brasileiras, que utilizam fontes renováveis em seus processos produtivos (NUNES, 2017). Tais características tornam o etanol brasileiro altamente competitivo e desejável nos mercados internacionais, sobretudo frente à demanda crescente por combustíveis sustentáveis, como os exigidos pela União Europeia e por companhias aéreas globais (MOSQUERA, 2024).
No entanto, a predominância da cana-de-açúcar como a principal matéria-prima para o etanol apresenta riscos associados à variabilidade climática. Em anos de anomalias climáticas, como os registrados em 2021 e 2023, a produção foi severamente impactada por longas estiagens, geadas e ondas de calor, comprometendo o fornecimento de matéria-prima para as usinas (CONAB, 2023). Além disso, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2022) projeta que o Brasil poderá enfrentar, até 2050, um aumento de 2 a 4 °C nas temperaturas médias, além de alterações significativas no regime de chuvas, com maior frequência de eventos extremos como secas, tempestades e inundações. Tais cenários colocam em risco não apenas a estabilidade da produção agrícola, mas também a segurança energética e alimentar do país.
Diante disso, a diversificação de culturas e a expansão de áreas para outros estados tornam-se estratégias cruciais para mitigar os impactos das mudanças climáticas e reduzir a dependência de uma única commodity energética. Nesse sentido, a introdução da Carinata (Brassica carinata) no sistema produtivo brasileiro representa uma inovação relevante. Também conhecida como mostarda-etíope, essa oleaginosa é originária do nordeste da África, e tem demonstrado grande potencial para uso na produção de biocombustíveis avançados, especialmente bioquerosene de aviação (Biojet fuel) e biodiesel. Conforme estudo de Mulvaney et al. (2019), suas sementes apresentam teores médios de 39,7% de óleo e 31,6% de proteína (Tabela 1), com predominância de ácidos graxos monoinsaturados (57,2%), o que facilita sua conversão industrial em combustíveis de alta qualidade.
Tabela 1: Composição química das sementes de Brassica carinata em 304 amostras analisadas.
| Parâmetro | Média (%) |
| Concentração de óleo | 39,7 |
| Proteína na semente | 31,6 |
| Ácidos graxos saturados | 6,2 |
| Ácidos graxos monoinsaturados | 57,2 |
| Ácidos graxos poli-insaturados | 35,9 |
Fonte: Adaptado de Mulvaney et al. (2019).
A carinata também se destaca por seu ciclo adaptado ao cultivo no inverno (Figura 2), sendo uma alternativa eficiente para o período de entressafra da soja e do milho. De acordo com Santos et al. (2020), “as principais doenças que afetam as culturas de brássicas no Brasil incluem a hérnia das crucíferas (Plasmodiophora brassicae) e o míldio (Peronospora parasitica), as quais representam sérios desafios fitossanitários”.
Essas características também reforçam a semelhança da cultura com a canola quanto a exigências nutricionais e manejo (GUIMARÃES et al., 2022; INSTITUTO BIOLÓGICO, 2024). Em estudos nos Estados Unidos foram observadas necessidades médias de 100 kg/ha de nitrogênio, 68 kg/ha de fósforo, 57 kg/ha de potássio e 24 kg/ha de enxofre para produtividades de 30 a 46 sacas/ha (SEEPAUL et al., 2021).
Com relação ao preço de mercado, a saca de carinata girava em torno de R$ 110,00 em 2024 (GLOBO RURAL, 2025), conferindo-lhe competitividade frente a outras culturas de inverno tradicionais como trigo, que no início de 2025 custava R$ 70,00 a saca (COTRIJAL, 2025). De acordo com o Canal Rural (2024), foram cultivados cerca de 7 mil hectares de carinata no Brasil em 2024, com estimativa de expansão para 50 mil hectares em 2025, representando um aumento de mais de 600% da área cultivada.
Figura 2: Plantas de carinata em estágio de florescimento.

Mais do que uma alternativa produtiva, a carinata contribui para a sustentabilidade do sistema agrícola. Permite a rotação de culturas com diferentes plantas de inverno, melhorando a estrutura do solo por evitar sua exposição direta à radiação solar e à erosão (SOARES et al., 2018). Isso reforça sua utilidade não apenas como geradora de energia, mas como componente de um modelo agroecológico resiliente.
Portanto, a cana-de-açúcar continuará a desempenhar papel central na matriz energética brasileira, especialmente pela eficiência do etanol. Contudo, a intensificação dos impactos das mudanças climáticas impõe a necessidade de diversificação agrícola.
Nesse contexto, a carinata se apresenta como uma cultura estratégica não somente para os produtores interessados em diversificar seus sistemas de cultivo, mas também capaz de reduzir a sazonalidade da produção de biocombustíveis, com benefícios econômicos, ambientais e agronômicos. Sua inclusão nos sistemas produtivos brasileiros, como no Centro-Oeste, no Sul e no Sudeste, contribui para um modelo mais sustentável e adaptado aos compromissos internacionais de neutralidade de carbono.
Sobre o autor: Kauê da Cunha Beier é Acadêmico do 7º semestre do curso de Agronomia da Universidade Federal de Santa Maria, Bolsista do grupo PET Agronomia. E-mail: kauecunhabeier@gmail.com
Coautores : Fábio Joel Kochem Mallmann, Beatriz Schopf, Amanda Marim, Gustavo Luft.
Referências
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BRASIL. Produção de biocombustíveis cresce no Brasil e alcança recorde histórico. Agência Brasil, 18 jul. 2024. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202407/producao-de-biocombustiveis-cresce-no-brasil-e-alcanca-recorde-historico-1. Acesso em: 24 ago. 2025.
CANAL RURAL. Carinata: oleaginosa avança nas lavouras brasileiras. Disponível em: https://www.canalrural.com.br. Acesso em: 28 abr. 2025.
CONAB – COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. Acompanhamento da safra brasileira: Cana-de-açúcar, safra 2023. Brasília: CONAB, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/conab/pt-br. Acesso em: 28 abr. 2025.
COTRIJAL. Cotações. Disponível em: https://www.cotrijal.com.br/. Acesso em: 8 maio 2025.
EPE – EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA. Balanço energético nacional: 2024. Brasília: EPE, 2024. Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/balanco-energetico-nacional-2024. Acesso em: 28 abr. 2025.
EIA – U.S. ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION. U.S. Fuel Ethanol Plant Production Capacity (as of Jan. 1, 2024). Washington, DC: EIA, 15 ago. 2024. Disponível em: https://www.eia.gov/petroleum/ethanolcapacity/. Acesso em: 24 ago. 2025.
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EIA – U.S. ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION. Weekly Ethanol Plant Production (Thousand Barrels per Day) – 4-Week Average. Washington, DC: EIA, 2025. Disponível em: https://www.eia.gov/dnav/pet/pet_pnp_wprode_s1_w.htm. Acesso em: 24 ago. 2025.
EPA – Environmental Protection Agency. Lifecycle Analysis of Greenhouse Gas Emissions under the Renewable Fuel Standard. Washington, DC: EPA, 2023. Disponível em: https://www.epa.gov/renewable-fuel-standard-program/lifecycle-analysis-greenhouse-gas-emissions-under-renewable-fuel. Acesso em: 1 maio 2025.
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