Por Marcelo Sá – jornalista/editor e produtor literário (MTb13.9290) marcelosa@sna.agr.br#
Setor vem exportando mais para o país em anos recentes
Com a nova crise geopolítica na Venezuela, insuflada pelos episódios do último final de semana, o mercado agrícola brasileiro monitora de perto possíveis desdobramentos que possam afetar a relação comercial entre os países. Apesar de representar relativamente pouco no contexto das exportações nacionais, a nação vizinha possui histórico de dependência dos produtos agropecuários brasileiros. A turbulência das últimas décadas, que atravessou governos e mobilizou produtores e autoridades, gerou uma parceria complexa que agora se reveste de mais dúvidas, devido à saída de Nicolás Maduro do poder.
As exportações brasileiras para a Venezuela registraram um faturamento acumulado de US$ 6,95 bilhões entre 2016 e 2025, impulsionadas por uma forte retomada nos fluxos comerciais a partir de 2020. O balanço do período mostra que o Brasil enviou 10,55 milhões de toneladas de produtos ao país vizinho, com uma pauta exportadora concentrada em itens essenciais de segurança alimentar, como cereais, açúcar e proteínas animais. No acumulado da década, a balança comercial é amplamente favorável ao Brasil. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Incertezas sobre continuidade de negócios já firmados#
A instabilidade pode interromper contratos já firmados e comprometer planejamentos de safra de produtores brasileiros que dependem desse mercado. A Venezuela já enfrenta grave falta de divisas devido à queda na produção de petróleo, situação que tende a se agravar com a destruição de infraestrutura e eventual mudança de governo.
Empresas brasileiras do setor agrícola enfrentam agora um cenário de total imprevisibilidade. Não está claro quem controlará o país nas próximas semanas, qual será a política econômica adotada, e se haverá capacidade de pagamento por produtos já embarcados ou em negociação. A tensão diplomática pode levar a maiores restrições comerciais, represálias políticas ou realinhamento de parcerias regionais, impactando diretamente acordos, logística e a confiança entre Brasília e Caracas.
Por outro lado, a Venezuela fornece ao Brasil fertilizantes, dos quais o agronegócio nacional depende, pela quase total ausência de produção local. Uma interrupção dessas remessas certamente seria prejudicial, impactando o custo da produção. Com o interesse americano no petróleo do país vizinho, possuidor das maiores reservas mundiais, uma mudança brusca das cotações dos barris poderia ter efeito cascata nas commodities.
Mais um desafio diplomático #
O momento representa um desafio diplomático delicado, pois o Brasil possui negócios com os dois lados da tensão. No caso dos Estados Unidos, o tarifaço de 2025 representou um forte abalo econômico para a cadeia produtiva agropecuária, contornada com sucesso após delicadas negociações. O rearranjo de poder e esferas de influência na América do Sul já é uma realidade, com os americanos desejando recuperar mercados sobre os quais a China avançou nas últimas décadas.
A situação exige resposta coordenada entre setor privado e governo, com foco em proteger interesses comerciais já estabelecidos, preparar-se para eventuais choques de oferta de insumos críticos, e posicionar-se estrategicamente para o cenário posterior à crise. Em entrevista à Jovem Pan em outubro, o cientista político Marcos Troyjo, eleito recentemente para a Academia Nacional de Agricultura da SNA, alertou para o risco de se tensionar novamente agendas comerciais entre Brasil e Estados Unidos após os recentes focos de instabilidade na América do Sul, quando forças navais americanas já se deslocavam para o Caribe.
“Além da Venezuela, a Colômbia também está sob forte pressão do governo Trump, com seu presidente alvo de sanções, e o Brasil deve ter cautela diante desse cenário que envolve seus vizinhos, sob pena de se politizar novamente as relações comerciais com os Estados Unidos”, declarou Troyjo, ainda antes da incursão militar que depôs Nicolás Maduro.
Com informações complementares do Ministério da Agricultura, Ministério das Relações Exteriores e Forbes.
Fonte: SNA




