Por Equipe: Prof. Dr. Joaquim Bento S. Ferreira Filho, Prof. Dr. Lucilio Alves, Ana Luisa Corrêa e Jéssica Caroline Pereira.

A produção e a exportação brasileiras de algodão em pluma foram recordes em 2020. De acordo com pesquisadores do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, preços atrativos em anos anteriores deram sustentação à produção doméstica, com agentes focados nas vendas externas. No primeiro semestre, as exportações até foram limitadas pela paralisação das indústrias por conta da pandemia, mas a retomada de todo o setor no segundo semestre no Brasil e no mundo voltou a aquecer as vendas externas e deu o tom altista aos preços internos, que chegaram nos maiores patamares nominais da série histórica do Cepea.

Com produção crescente em 2019 e excedente superior a 3,1 milhões de toneladas, o setor já se atentava à importante necessidade de o Brasil exportar volumes maiores da pluma em 2020. Até o primeiro trimestre do ano, os embarques até estavam firmes, tendo alcançado recorde mensal em janeiro. Entretanto, com a pandemia de coronavírus, as atividades de exportação e o consumo interno foram praticamente paralisados.

Como medidas de contenção do vírus, shoppings, comércio e lojas de bens não essenciais foram fechados no final de março, o que fez com que indústrias também interrompessem e/ou reduzissem a produção. Nesse cenário, novas compras e embarques da pluma foram adiados, e muitos agentes solicitaram aumento no prazo de pagamento e até cancelamento dos pedidos. A demanda externa também se enfraqueceu diante da diminuição das atividades comerciais e também nos portos de destino.

Assim, em abril, os preços da pluma despencaram nos mercados interno e externo, e o cenário se manteve lento em maio. As indústrias que produzem itens hospitalares a partir da pluma eram as que mais movimentavam o spot nacional; porém, estas representam apenas uma pequena parcela do mercado. Pontualmente, agentes de indústrias chegaram a fazer mudanças em parte das linhas de produção para atender à demanda específica durante a pandemia, como fabricação de máscaras de tecidos.

Neste período, atipicamente, a paridade de exportação passou a operar acima das cotações internas, o que indicava a atratividade das vendas internacionais em detrimento das domésticas. E isso estava atrelado ao elevado patamar do dólar – no dia 13 de maio, a moeda norte-americana atingiu R$ 5,915, o maior valor nominal desde a criação do plano Real, em 1994. Também no dia 13 de maio, o Indicador da pluma registrou o menor valor do ano e esteve 23% inferior à paridade de exportação (a maior diferença negativa desde 16 de julho de 2001).

A partir de junho, a safra recorde de algodão começou a ser colhida em maior intensidade no Brasil. Entretanto, o beneficiamento foi sendo efetuado de forma mais lenta, pois ainda havia um excedente expressivo no mercado interno. Segundo a Conab, a produção brasileira 2019/20 somou 3 milhões de toneladas, alta de 8% frente à anterior e a quarta temporada consecutiva de avanço. O recorde na produção foi resultado dos aumentos de 3% na área (1,67 milhão de hectares) e de 4,9% na produtividade (1.802 kg/ha) frente à safra 2018/19.

Porém, a pandemia reduziu a demanda. A Conab estima que o consumo, até então previsto em 700 mil toneladas, caiu para 580 mil toneladas na safra 2019/20. Os excedentes domésticos se

elevaram para 3,9 milhões de toneladas. A partir do início do segundo semestre, as exportações foram retomadas com intensidade, chegando a volumes mensais recordes em dezembro. A Conab, porém, estima exportação de dois milhões de toneladas de toneladas em 2020, que seria 24% superior à de 2018/19. Com isso, os estoques de passagens em dezembro/20 devem ser de cerca de 1,9 milhão de toneladas.

De janeiro a dezembro, o Brasil exportou 2,13 milhões de toneladas de pluma, 32% acima do volume de 2019 e um recorde, segundo dados da Secex. Os preços de exportação em 2020 estiveram, em média, 15% acima dos praticados no spot nacional – em maio, especificamente, chegaram a ficar 45% superiores. Em dólar, porém, ainda de acordo com a Secex, o preço médio na parcial do ano foi de US$ 0,6825/lp, 9% menor que o registrado em 2019.

No mercado físico, depois de cair 15,4% em 2019, por conta do maior excedente, o Indicador do algodão em pluma CEPEA/ESALQ, com pagamento em 8 dias, subiu 41,7% em 2020, fechando em R$ 3,8092/lp no dia 30 de dezembro. No primeiro semestre, o aumento foi de apenas 0,8%; já no segundo, a elevação foi de expressivos 40,5%.

A média mensal de novembro, especificamente, foi de R$ 3,9032/lp, ficando abaixo apenas da de março/11 (R$ 3,9756/lp), em termos nominais. Ao se considerar a inflação (IGP-DI, base em out/20), o preço médio de novembro/20 foi o maior em 26 meses. Aqui ressalta-se que, entre setembro/18 e outubro/20, o índice de inflação acumulou alta de 26,44%, e de março/11 para out/20, de 96,5%.

Entre 30 de dezembro de 2019 e 30 de dezembro de 2020, a paridade de exportação acumulou elevação de 38%, impulsionada pela valorização de 29% do dólar frente ao Real. O Índice Cotlook A (referente à pluma posta no Extremo Oriente) aumentou 6,7% no mesmo período.

USDA – A produção mundial da temporada 2019/20 foi estimada em 26,6 milhões de toneladas, 3% acima da anterior (2018/19), e o consumo global, em 22,3 milhões de toneladas, queda de 15% e o menor em 16 safras, devido ao fechamento de fábricas e, em um primeiro momento, a baixas vendas no varejo. Com oferta superior à demanda, o estoque mundial teve aumento de 24% frente à safra 2018/19, para 21,6 milhões de toneladas. Quanto à comercialização mundial, as importações foram estimadas em 8,75 milhões de toneladas (queda de 5% frente à temporada anterior) e as exportações, em 8,9 milhões de toneladas (recuo de 1,6%).

Caroço de algodão – Os preços do caroço de algodão também atingiram recordes, impulsionados pela demanda aquecida, sobretudo por parte de pecuaristas (tendo em vista o clima seco em boa parte do ano e os altos custos do farelo de soja e do milho) e da indústria de esmagamento (o biodiesel apresentou demanda aquecida pelo óleo bruto).

Fonte: Cepea – www.cepea.esalq.usp.br

Texto originalmente publicado em:
Cepea
Autor: Equipe: Prof. Dr. Joaquim Bento S. Ferreira Filho, Prof. Dr. Lucilio Alves, Ana Luisa Corrêa e Jéssica Caroline Pereira.

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