Este trabalho objetivou quantificar a retenção de pulverização proporcionada pela adição de adjuvantes em plantas de capim-amargoso (Digitaria insularis).

Autores: ARTHUR D. RODRIGUES NETO1; MATHEUS da S. ALMEIDA1, EVANDRO P. PRADO2

Introdução

Trabalho disponível nos Anais do Evento e publicado com o consentimento dos autores.

As plantas daninhas são consideradas um sério problema fitossanitário no meio agrícola pelo alto potencial competitivo que exercem sobre as culturas (ANDERSON, 2014). O capim-amargoso (Digitaria insularis (L.) Fedde) é uma espécie gramínea, herbácea e perene, que se reproduz por sementes e/ou rizomas, considerada uma das plantas daninhas mais importantes do Brasil (MACHADO et al., 2008). A utilização de adjuvantes pode aumentar o desempenho de produtos fitossanitários pelas mudanças físico-químicas que promovem à solução, impactando principalmente nas características de tensão superficial e viscosidade, favorecendo o aumento da retenção e do espalhamento do conteúdo pulverizado pelo menor ângulo de contato formado entre a gota e a superfície foliar, o aumento da biodisponibilidade do produto pela penetração melhorada ou acelerada e pelo aumento da capacidade do depósito de resistir a condições ambientais adversas (MELO et al., 2015).

O aumento da absorção foliar do ingrediente ativo é de suma importância para a melhor ação dos herbicidas sistêmicos, no entanto, a correta combinação entre herbicida e adjuvante é crucial para que a interação seja sinérgica e promova melhores índices de controle de plantas daninhas (CASTRO et al., 2014). A eficácia de um herbicida de baixa translocação está intimamente ligada à cobertura foliar, nesse caso, o efeito do espalhamento de gotas oferecido pela adição de adjuvantes mostra-se essencial (VARGAS e ROMAN, 2006). Alvos verticais como gramíneas possuem uma menor superfície disponível para a captura de gotas, tendo por essa característica, a retenção comprometida na comparação com alvos horizontais (MASSINON et al., 2014). Nesse sentido, a investigação dos aspectos da retenção da calda pulverizada oferecidas pela adição de adjuvantes apresenta grande relevância no meio agrícola e podem servir de base para guiar a escolha correta da combinação entre herbicida e adjuvante no controle das plantas daninhas.

Material e Métodos

O experimento de retenção foi realizado na Faculdade de Ciências Agrárias e Tecnológicas, UNESP – Dracena, em duplicata. A análise do espectro de gotas foi realizado no Laboratório de Máquinas para Pulverização do Núcleo de Ensaio de Máquinas e Pneus Agrícolas (NEMPA) na Faculdade de Ciências Agronômica – UNESP – Botucatu. A semeadura do capim-amargoso foi realizada em vasos de 1,7 L de capacidade, preenchidos com solo coberto com uma fina camada do substrato Vivatto Plus®. As aplicações das soluções foram realizadas em plantas com média de 40 cm de altura e cerca de 4 a 5 perfilhos, utilizando um pulverizador costal pressurizado por CO2, equipado com 4 pontas de jato plano XR 8002 na pressão de 2 bar, espaçadas em 0,5 m. A aplicação foi realizada na velocidade de 5 km h-1 com a barra mantida a uma altura de 0,75 m em relação ao topo das plantas proporcionando um volume de aplicação de 156 L ha-1. A operação foi realizada no interior de uma casa de vegetação evitando o efeito de rajadas de vento.

No momento da aplicação utilizou-se um termo-higroanemômetro luxímero digital portátil para a verificação da temperatura (32 ± 1 ºC) e umidade relativa do ar (48 ± 4%). O delineamento experimental utilizado foi inteiramente casualizado com cinco tratamentos e 40 repetições. Os tratamentos consistiram na pulverização de soluções contendo misturas de água deionizada + corante azul brilhante (CAB) (1,5 g L-1) sem adjuvante (T1); com Agral® a 0,05% v v-1 (T2); Silwet® A 0,1% v v-1 (T3); LI 700® A 0,5% v v-1 (T4) e Nimbus® a 0,5% v v-1 (T5). As plantas pulverizadas foram cortadas rente ao solo, acondicionadas em sacos plásticos e encaminhadas ao laboratório para lavagem com 100 mL de água deionizada para remoção do corante. Após a lavagem, as plantas foram levadas a uma estufa (TE – 394/3) para secagem por 96 horas a 65ºC, tendo em seguida sua massa seca (MS) aferida em uma balança analítica. Conhecidos os volumes de aplicação retidos e a MS das plantas, obteve-se os valores dos depósitos (µL g-1 de MS).

Os dados coletados foram normalizados por logarítmo neperiano, submetidos à análise de variância pelo teste Scott-Knott, a 5% de significância, utilizando-se o programa estatístico SISVAR®. O espectro de gotas foi estimado em tempo real por meio da técnica de analise por imagem, chamada de PDIA (Particle/Droplet Image Analysis), conforme detalhadas por Miller et al. (2008). O equipamento utilizado para realizar as análises foi o sistema VisiSize Portable®, que possui uma câmera específica para análise de tamanho de partículas, integrada a um computador e controlada pelo software ViseSize 6.0 (Oxford Lasers, Imaging Division, Oxford, U.K.). As variáveis de espectro de gotas analisadas foram os diâmetros volumétricos de 10%, 50% e 90% da parcela amostrada (DV0,1; DV0,5 e DV0,9; respectivamente); percentual do volume amostrado em gotas menores que 100 µm (%<100 µm) e amplitude relativa (AR). Para a classificação do espectro de gotas, os resultados de DV0,1, DV0,5 e DV0 da ponta submetida a avaliação foi comparada com pontas de referência, operando em pressões pré-determinadas, conforme descrito no padrão ANSI/ASAE S572.1 (2009).

Resultados e Discussão

A análise estatística aplicada aos dados normalizados permitiu verificar que em todos os tratamentos contendo adjuvante a retenção da solução pulverizada aumentou significativamente em comparação com o tratamento sem adjuvante (T1). Os demais tratamentos não apresentaram diferenças significativas entre si (Tabela 1). A Figura 1 ilustra o padrão de gotas dos tratamentos retido na superfície foliar sendo visivelmente notada a menor retenção no tratamento sem adjuvante (T1). Considerando que o tamanho da gota exerce grande influência sobre a cobertura e penetração da pulverização na massa de folhas e é produto da interação entre ponta de pulverização, adjuvante e agrotóxico (DORR, 2016), pode-se constatar que a retenção foi significativamente influenciada pela alteração das características físico-químicas das soluções, dentro da mesma classe de gotas, pelos adjuvantes testados.

Na literatura, os adjuvantes organosiliconados, tal como Silwet®, aparecem sendo os adjuvantes que mais reduzem os valores de tensão superficial de soluções aquosas (GITSOPOULOS et al. 2018), o que teoricamente, favoreceria o espalhamento da gota e, consequentemente, a retenção na superfície pulverizada. Entretanto, o tratamento contendo o adjuvante em questão não diferiu significativamente dos outros tratamentos quanto a promoção da retenção da pulverização, evidenciando que, a diminuição da tensão superficial não seja exclusivamente o fator responsável por proporcionar uma maior retenção de gotas em plantas difíceis de molhar (DORR, 2010), ou que os valores de tensão superficial alcançados pela adição de qualquer um dos adjuvantes testados à calda promovem o mesmo nível de retenção na superfície adaxial das folhas de capim-amargoso.

Figura 1. Características das gotas depositadas na superfície adaxial das plantas de capim-amargoso. T1: Água deionizada + corante Azul Brilhante (CAB) ; T2: Água deionizada + CAB + Agral® (0,05% v v-1­); T3: Água deionizada + CAB + Silwet® (0,1% v v-1); T4: água deionizada + CAB + Li 700® (0,5% v v-1) e T5: água deionizada + CAB + Nimbus® (0,5% v v-1).

Tabela 1. Diâmetros volumétricos de 10%, 50% e 90% (DV0,1; DV0,5 e DV0,9; respectivamente), percentual do volume amostrado em gotas menores que 100 µm (%<100 µm), amplitude relativa (AR),  classificação do espectro de gotas e média de deposição por grama de massa seca (µL g-1 MS).

DORR et al. (2016), observaram a maior retenção de soluções contendo adjuvantes no trigo (Triticum aestivum L.), considerando uma espécie difícil de molhar (cutícula adaxial espessa), característica morfológica que também é encontrada no capim-amargoso (MACHADO et al., 2008). Segundo Oliveira et al. (2015), há correlação entre o aumento da viscosidade oferecido por adjuvantes à base de polímeros à calda como Agral® e Silwet® com o aumento do Dv50 e a redução do percentual do volume de gotas sujeito à deriva (<100 µm). Madureira et al. (2015) apontam relação inversamente proporcional entre deriva e retenção, assim sendo, apesar da ponta de pulverização ter grande participação nessa relação, a utilização desses tipos de adjuvantes podem favorecer indiretamente a retenção pelo seu efeito antideriva.

Baio et al. (2015) constataram a redução da viscosidade de soluções aquosas com os adjuvantes Li700® e Nimbus®, logo, a comparação entre as classes de adjuvantes baseadas e não baseadas em polímeros, quanto o volume de retenção proporcionado pela alteração da viscosidade, pode não ser claro nas concentrações dos adjuvantes testadas. As soluções contendo os adjuvantes Li700® e Nimbus® apresentaram valores ligeiramente diferentes de amplitude relativa do espectro de gotas, volume de gotas menor que 100 µm e diâmetro médio volumétrico (Dv50) sem diferir significativamente na quantidade retida, apesar de quimicamente distintos, evidenciando que a retenção proporcionada por cada um está ligada a características físico-químicas diferentes.

Salvalaggio et al. (2018), observaram que o adjuvante Nimbus® (0,6% v v-1) proporcionou o espalhamento de calda na face adaxial de plantas de capim-amargoso 43,8% maior do que do herbicida testado (glufosinato de amônio) sozinho. Os autores atribuíram que, possivelmente, tais resultados são provenientes da maior quantidade de ceras na superfície adaxial das folhas. Tal característica favorece a interação lipofílica entre a cutícula e o adjuvante oleoso (VARGAS e ROMAN, 2006). Cabe ressaltar que os adjuvantes são associados a uma variedade de agrotóxicos como herbicidas, fungicidas, inseticidas, acaricidas, etc., e que esses produtos possuem suas próprias propriedades químicas e também podem interferir nas características físico-químicas da calda, principalmente pH, condutividade elétrica, tensão superficial e viscosidade. Dessa forma, experimentos analisando a retenção de caldas contendo a mistura de adjuvantes com outros produtos podem apresentar outros aspectos de retenção e deposição diferentes dos encontrados neste trabalho.

Conclusões

A adição de adjuvantes à solução de aplicação aumentou significativamente a retenção do conteúdo pulverizado na superfície foliar de plantas de capim-amargoso. Os adjuvantes Agral®, Silwet® e Li 700® aumentaram os diâmetros volumétricos DV0,1; DV0,5 e DV0,9 produzidos, reduziram a amplitude relativa do espectro de gotas e o volume de gotas sujeito a deriva, sem alterar a classe de gotas da ponta de pulverização. O adjuvante Nimbus®, não provocou às mesmas alterações desses adjuvantes, apresentando um padrão de espectro de gotas similar ao da testemunha, entretanto, a retenção proporcionada por esse adjuvante não diferiu dos demais.


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Referências

AMERICAN SOCIETY OF AGRICULTURAL ENGINEERS. ANSI/ASAE S572.1: Spray nozzle classification by droplet spectra. St. Joseph, 2009. 4p.

ANDERSON, R. L. A cultural system to reduce weed interference in organic soybean. Renewable Agriculture and Food Systems, v.30, n.04, p.392–398. 2014.

BAIO, F.H.R.; GABRIEL, R.R.F.; CAMOLESE, H. S.; Alteração das propriedades  físico-químicas na aplicação contendo adjuvantes. Brazilian Journal of Biosystems Engineering, Tupã, v.9, n.2, p.151-161, 2015.

CASTRO, M.J.L; OJEDA, C.; CIRELLI, A.F. Advances in surfactants for agrochemicals. Environmental chemistry letters. v.12, n.1, p.85-95, 2014.

DORR G. J. et al. Spray retention on whole plants: modelling, simulations and experiments. Crop Protection, v.88, p.118-130, 2016.

DORR G.J. Modeling the influence of droplet properties, formulation and plant canopy on spray distribution. Aspects of Applied Biology. v.99, p.341–349, 2010.

GITSOPOULOS, T.K.; DAMALAS, C.A.; GEORGOULAS, I. Optimizing diquat efficacy with the use of adjuvants. Phytoparasitica. v.46, n.5, p. 715-722. 2018.

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MELO, A.A. et al. Impact of tank-mix adjuvants on deposit formation, cuticular penetration and rain-induced removal of chlorantraniliprole. Crop Protection, Guildford, v.78, p.253-262, 2015.

MILLER, P. C. H. et al. Measurements of the droplet velocities in sprays produced by different designs of agricultural spray nozzle. Paper ID ILASS08-000, ILASS, p. 8-10, Como Lake, 2008.

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Informações dos autores

1Graduando em Engenharia Agronômica, Faculdade de Ciências Agrárias e Tecnológicas, UNESP, Dracena/SP – Brasil, Fone (18) 997440854, arthurodrigues@gmail.com;

2Engenheiro Agrônomo, Professor Assistente Doutor, Faculdade de Ciências Agrárias e Tecnológicas, UNESP, Dracena/SP, Fone: (18) 38217485.

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