O mercado brasileiro do arroz passa a incorporar, de forma mais intensa, os efeitos de um ambiente externo que deixou de ser complementar e se tornou determinante para o equilíbrio doméstico. A constatação é da Consultoria Safras.
Com estoques de passagem elevados, consumo interno estruturalmente enfraquecido e baixa capacidade de absorção do varejo, a exportação assume papel central na formação de preços e na sustentação mínima de margens ao longo de 2026. “Nesse contexto, qualquer alteração nos principais destinos de escoamento passa a gerar impacto direto e imediato sobre o mercado interno”, pondera o analista e consultor Evandro Oliveira.
A consolidação da Venezuela como maior importador de arroz em casca do Brasil na temporada comercial 2025/26, com volumes superiores a 165 mil toneladas, representa hoje um dos principais pilares de sustentação do mercado. “Esse fluxo tem contribuído de forma decisiva para reduzir a pressão sobre os estoques e evitar um colapso ainda maior das cotações domésticas”, lembra. Embora o risco de interrupção seja considerado baixo no curto prazo, o caráter sensível e concentrado desse destino eleva a vulnerabilidade do setor. Qualquer desaceleração ou ruído logístico, financeiro ou político teria efeito imediato na liquidez interna, ampliando a oferta disponível no mercado físico e reforçando o viés baixista.
No caso do México, os impactos tendem a ser mais estruturais. “Historicamente, trata-se de um destino-chave em momentos de excedente, com média de 169,7 mil toneladas exportadas nas últimas cinco safras e capacidade comprovada de absorver volumes muito superiores, como em 2022, quando os embarques alcançaram 446,8 mil toneladas”, pondera o consultor. “A introdução de uma cota de 200 mil toneladas para 2026 altera profundamente essa dinâmica, ao limitar a elasticidade exportadora justamente em um período de elevada necessidade de escoamento”, lamenta.
Além disso, o fato de essa cota ser disputada entre diversos exportadores das Américas — Brasil, Estados Unidos, Uruguai, Paraguai e Argentina — transforma o México em um mercado de concorrência direta por market share. Isso aumenta a imprevisibilidade dos fluxos brasileiros e reduz a capacidade do país de utilizar esse destino como válvula plena de ajuste em anos de excesso de oferta. “Mesmo mantendo presença relevante, o Brasil passa a enfrentar maior risco de frustração de volumes, especialmente em momentos de pressão logística ou competitiva”, finaliza.
Fonte: Rodrigo Ramos / Agência Safras News




